sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Criacionismo na Unicamp


Era novembro de 2007. Abro meu e-mail como todo dia e encontro uma mensagem com o cartaz ao lado dirigida a toda a Comissão Central de Graduação da Unicamp, da qual faço parte como convidado. O cartaz chama a atenção por vários motivos:
1. Tem uma foto do palestrante, prática mais comum nas palestras de auto-ajuda do que em eventos acadêmicos.
2. O sujeito da foto usa uma gravata, acessório pouco comum nos meios acadêmicos.
3. O logotipo da Unicamp aparece junto com o de uma certa Reasons to Believe. um nome estranho para uma instituição acadêmica.
4. A legenda da foto atesta que o personagem de gravata é "Fazale Rana, Ph.D., vice-presidente da Reasons to Believe". Será uma empresa?
5. Entendo que o cartaz convoca para duas palestras, ambas de voltadas para difundir as idéias do Intelligent Design, ou Projeto Inteligente, uma das novas roupagens do velho criacionismo, a doutrina que propõe que a evolução só pode ter acontecido por obra de um desígnio superior.

Envio mensagens para colegas para saber mais. Ninguém da alta administração da universidade, inclusive o diretor da Faculdade de Ciências Médicas onde ocorrerá uma das palestras tem a menor idéia de quem organiza isso.

Recebo outro convite para os eventos. Dessa vez o Dr. Rana é apresentado como "O bioquímico Fuzale Rana, da Universidade de Ohio". Estranho. Eu não poderia imaginar pesquisa sobre criacionismo numa universidade séria. Nem tinha. A Reasons to Believe é uma das muitas organizações que propalam o ID, o Dr. Rana na verdade não faz parte do quado docente da Ohio University (onde fez seu doutorado), mas leciona Apologética Cristã na Biola University, uma pequena universidade religiosa no sul da Califórnia.

Na verdade o Dr. Rana foi trazido ao Brasil não por um projeto de pesquisa envolvendo a Unicamp mas pela Igreja Batista da Cidade Universitária (IBCU). Segundo sua página ele "realizou duas palestras na Unicamp, uma na UNIP e duas na IBCU com o objetivo de levar a esses públicos informações científicas que respaldam a Fé cristã". Espero que a Fé cristã não precise desse tipo de respaldo. Membros da igreja com vínculos com a Unicamp obtiveram espaço e fizeram parecer que se tratava de um evento da universidade.

Eu não assisti a nenhuma das palestras. Elas foram gravadas e podem ser vistas aqui. Não perdi nada. O Dr. Rana pelo menos reconhece que a terra tem mais de 6 mil anos, o que o coloca um passo adiante dos criacionistas mais radicais. No entanto, repete ladainha pregada pelos defensores do ID, de que a complexidade da vida humana não poderia ser obra do acaso, e como conseqüência a existência de um Criador (note a maiúscula!) é um fato científico. Todas as coisas complexas que conhecemos, de um relógio a um avião de grande porte foram projetadas por alguém. Os humanos são seres complexos, portanto eles certamente foram projetados por um Projetista Supremo (note as maiúsculas!).

Cada asserção está correta. A complexidade da vida humana não é obra do acaso. Todos os artefatos tecnológicos complexos criados pela humanidade foram projetados. Cada razão está errada. Muito errada. A existência de um Criador não é um fato científico, nem os seres humanos foram projetados.

A complexidade da vida humana é o resultado de um processo lento e contrário ao acaso chamado de seleção natural. A sobrevivência do mais apto. Ao longo da história da nossa espécie ocorreram muitas mutações. Cada mutação (que ocorreu ao acaso) deixou pelo menos duas possibilidades. Só sobreviveu a mais bem adaptada às condições. A complexidade foi se estabelecendo aos poucos, um passo por vez, ao longo de milhões de anos.
Não é preciso invocar um Criador para entender a vida humana.

Preocupa-me muito a ofensiva dos criacionistas sobre os campi do interior de São Paulo (evento similar ocorreu na UFSCar). O simples fato de a comunidade acadêmica abrir espaço para esse tipo de discussão, em nome da pluralidade, já é uma vitória para os criacionistas e defensores do ID, pois confere a suas idéias um almejado status de ciência. Criacionismo e ID são assuntos religiosos. Religão não é ciência. Criacionismo não deve ser ensinado nos livros escolares como "uma alternativa" à Teoria da Evolução (note as maiúsculas!).

Melhor teria sido se o Dr. Rana limitasse sua área de atuação aos muros da IBCU.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Você trataria uma dor lombar com quiropraxia?

A quiropraxia é uma das práticas de Medicina Complementar e Alternativa mais populares nos Estados Unidos. Em 2002 15 milhões de americanos (7,4% da população) buscou esse tipo de tratamento.


Um dia você acorda com uma dor forte lombar. Eu conheço bem a situação porque passei por ela. Não dá para se levantar da cama de tanta dor. É desesperador. Qualquer pequeno movimento resulta em muita dor.
Cena 1. Você procura um ortopedista. O médico está com um avental branco, se apresenta como "Doutor Fulano". Ele solicita uma radiografia e talvez exames complementares. De posse dos resultados e após uma conversa e exame clínico ele chega a um diagnóstico. Ele pode sugerir uma medicação, fisioterapia ou talvez até uma cirurgia se isso for indicado para o caso. De qualquer forma, dores lombares levam tempo para serem curadas e o desconforto pode ser grande.
Cena 2. Você procura um quiropraxista. Ele está com um avental branco, se apresenta como "Doutor Sicrano". Ele talvez solicite uma radiografia, e de posse dela, após uma conversa examina minuciosamente sua coluna. Ele chega com segurança ao diagnóstico: uma "sub-luxação" ou desajuste entre algumas vértebras está comprimindo um nervo, e isso é a causa a dor. O tratamento é simples. Nada de medicação ou cirurgia, mas em lugar disso faremos um ajuste da coluna, através de técnicas de manipulação das vértebras para desfazer a "sub-luxação". A manipulação pode ser vigorosa ou até um pouco violenta, mas isso é porque as forças que atuam sobre as vértebras são intensas. O quiropraxista garante que ao contrário de medicação, fisioterapia ou cirurgia o ajuste não oferece riscos ou efeitos colaterais. Após um certo número de sessões você deverá estar bem, mas seria recomendável passar por ajustes preventivos uma vez por semana ou pelo menos a cada mês. Possivelmente pelo resto da vida para garantir a manutenção do alinhamento vertebral. De qualquer forma, dores lombares levam tempo para serem curadas e o desconforto pode ser grande.


Que há de errado com a cena 2? Tudo ou quase tudo. Comecemos pela forma de tratamento: nos países de língua inglesa, o título "Doutor" está reservado aos que completaram um doutorado. Vale lembrar que nesses países Medicina e Direito são cursos de pós-graduação. Aqui no Brasil vários profissionais se intitulam "Doutor", portanto isso não deve ser grave, mas dá uma aura de autoridade e de conhecimento médico ao quiropraxista. Não é normal tratarmos fisioterapeutas por "Doutor".


Aí vem o pior:
1. Nervos não podem ser pressionados por vértebras desalinhadas. Quando uma vértebra se desloca a ponto de comprimir um nervo não há manipulação vertebral que resolva.
2. As vértebras não se desalinham nas atividades do dia-a-dia.
3. Não há evidências de que "sub-luxações" existam.
4. Não há evidências de que os quiropratas possam detectar de forma reprodutível as "sub-luxações". Num experimento nos EUA uma pessoa sadia consultou 4 quiropratas diferentes e os 4 encontraram consistentemente "sub-luxações". Só que em 4 vértebras distintas!
5. Não há evidências de que a manipulação das vértebras tenha algum efeito benéfico sobre a saúde. Talvez traga uma sensação de bem estar como qualquer outra forma de massagem.


O artigo mais completo já escrito sobre o assunto, com análise minuciosa de 208 citações já está disponível na web mas ainda não publicado. O autor Edzard Ernst é pesquisador no Centro de Medicina Complementar da Universidades de Exceter e Plymouth na Inglaterra. A conclusão é clara: "A manipulação (vertebral) é associada a freqüentes efeitos adversos moderados e com complicações sérias de incidência desconhecida. Sua eficácia em termos de custos não foi demonstrada de forma incontestável. Os conceitos da quiropraxia não estão baseados em ciência sólida e seu valor terapêutico não foi demonstrado de forma incontestável." O mesmo autor vai além num editorial de outra revista científica: É impossível estimar corretamente o risco de uma complicação grave nesse tipo de procedimento. Os quiropratas mais otimistas sugerem entre 1 em 400.000 e 1 em 1 milhão. Na verdade deve ser muito maior devido a um número enorme de casos não documentados. Não importa. "Concluindo, a manipulação da coluna está baseada em conceitos patológicos duvidosos e portanto carece de plausibilidade biológica. Seus riscos podem ser consideráveis e seus benefícios não foram demonstrados em testes rigorosos. O que segue é óbvio: os benefícios da manipulação da coluna não justificam os riscos".

Você trataria mesmo sua dor lombar com quiropraxia?
Você trataria qualquer dor com quiropraxia?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Células-tronco embrionárias no STF

No dia 5 de março próximo o STF decidirá uma questão histórica para as relações entre ciência, sociedade e religião no Brasil. Será apreciada a procedência da ação direta de inconstitucionalidade (ADI 3510) impetrada pelo ex-Procurador Geral da República Cláudio Fonteles contra o Art. 5º da Lei de Biossegurança Nº 11.105 de 24 de março de 2005 que regulamenta, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos. A ADI baseia-se em dois pontos: 1. "que a vida humana começa na fecundação" e 2. "a pesquisa com células-tronco adultas é, objetiva e certamente, mais promissora do que a pesquisa com células-tronco embrionárias, até porque com as primeiras, resultados auspiciosos acontecem, do que não se tem registro com as segundas".
O relator do processo no STF, Ministro Cláudio Britto é evasivo quando perguntado sobre seu parecer, mas deu sinais de que seu voto "não levou em consideração as possíveis conseqüências da proibição de estudos no Brasil".
Com uma roupagem de ação meramente legal e constitucional, como vem sendo afirmado reiteradamente pelo ex-Procurador Fonteles, o que está em jogo é o confronto (cada vez mais inevitável) entre religião (no caso representada pela igreja católica) e ciência.
O ex-Procurador Fonteles integra a Ordem dos Franciscanos. Para a audiência pública que ocorreu em 2007 o STF convocou 11 especialistas, a Procuradoria Geral da República outros 11 , a Presidência da República 4 e a CNBB, que atua como amicus curiae convocou um. Era gritante o contraste entre as credenciais científicas dos favoráveis à pesquisa com células-tronco embrionárias e os demais, quase todos ligados a setores da igreja. Na ocasião, o ex-Procurador Fonteles tentou desqualificar a Pró-Reitora de Pesquisa da USP e pesquisadora ativa na área Mayana Zatz com argumentos anti-semitas. Lamentável.
A posição da igreja é que a vida humana começa na fecundação e portanto pesquisar com as células-tronco embrionárias equivale a assassinato de uma vida que poderia desenvolver-se. Não importa que estejamos falando de aglomerados de algumas dezenas de células, e que esses aglomerados tenham como destino a lata de lixo, ou seja, jamais chegarão perto de serem considerados vidas humanas. Não consigo deixar de lembrar a hilária canção "Every sperm is sacred" do Monty Python em O sentido da vida.
O outro argumento é que a pesquisa com células tronco embrionárias é desnecessária dados os resultados com células tronco adultas. Seria divertido se não fosse trágico ouvir bispos e padres julgando resultados de pesquisas complexas das quais eles não têm a menor idéia, até por não terem formação científica adequada. Ainda que a pesquisa com células tronco adultas tivesse o sucesso propalado pela igreja, isso seria motivo para proibir a pesquisa com células tronco embrionárias, que já está melhorando a vida de pessoas no mundo todo, inclusive no Brasil?
Só temos a esperar que a exemplo de outras matérias recentes o STF tenha consciência da importância de não ceder às pressões (ainda que disfarçadas) da igreja e reafirmar um estado laico e democrático.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O que faz algumas pessoas preferirem a Medicina Complementar e Alternativa?

Uma área particularmente próspera para as pseudo-ciências é a chamada Medicina Complementar e Alternativa (MCA). Esse assunto será freqüentemente abordado aqui. Um número surpreendentemente grande de pessoas recorre diariamente a homeopatia, quiropraxia, acupuntura e outras práticas, preferindo a MCA à medicina convencional. Nos Estados Unidos, uma pesquisa de 2002 indicou que 39% da população tinham usado MCA alguma vez em suas vidas. No Reino Unido eles chegam a 46%. Não conheço os números para o Brasil, mas talvez aqui sejam ainda maiores, dado que a homeopatia é reconhecida oficialmente como especialidade médica. O nome "Medicina Complementar e Alternativa"deveria levantar suspeitas: se essas práticas médicas fossem efetivas e tivessem fundamento científico elas certamente teriam sido absorvidas pela medicina convencional. O que leva tanta gente a buscar tratamentos alternativos? Um recente artigo publicado no Journal of Health Psychology tenta entender melhor essa questão. Os autores revisaram 94 artigos publicados anteriormente. Como bem notado no interessante comentário de Edzard Ernst, as conclusões trazem mais contradições do que consensos. No entanto, as evidências indicam que os usuários de MCA querem participar das decisões relativas a seus tratamentos, têm estilos de vida tolerantes e acreditam que podem controlar sua saúde. Eles valorizam abordagens não-tóxicas e holísticas à saúde, professam "sistemas pós-modernos de crenças" e se percebem como não-convencionais e espirituais. Alguns desses fatores sem dúvida remetem à forma como a medicina convencional é praticada. A maioria deles, no entanto, provavelmente têm a ver com a formação científica das pessoas e sua percepção da ciência como base para a medicina. Que pode ser feito a esse respeito? Não sei exatamente. É certo que uma formação para a ciência desde os primeiros anos de aprendizado e uma desmistificação do conhecimento científico podem ser algumas das boas alternativas.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Artigo criacionista que seria publicado em revista científica é retirado pelo autor

Um artigo de revisão sobre as mitocôndrias estava aceito na revista científica Proteomics. Essa revista, como todas as revistas científicas sérias, só publica artigos que foram revisados e recomendados para publicação por outros cientistas (o que se chama em inglês de peer review, uma tradução aceita em português mas um pouco estranha é revisão por pares). O nome do artigo era ainda mais estranho: "Mitochondria, the missing link between body and soul: Proteomic prospective evidence" ("Mitocôndrias, o elo perdido entre corpo e alma: Evidência prospectiva proteômica"). Proteômica é a parte da ciência que estuda as proteínas nos seres vivos. O surpreendente nesse artigo era que perdida por entre as 23 páginas de texto estava a seguinta afirmação: "Mais logicamente, os pontos que mostram a proteômica sobrepondo-se entre diferentes formas de vida são interpretados de forma mais verossímil como um resultado de uma impressão digital comum única iniciada por um poderoso criador do que fiando-se em uma única célula que, de forma duvidosa, teria originado todas as demais formas de vida".
Pela primeira vez uma revista prestigiosa publicaria um artigo científico com uma afirmação abertamente criacionista. O artigo chamou a atenção do blog científico Pharyngula. como uma falha gritante do sistema de revisão por pares. Além do excerto absurdo acima o artigo continha passagens ilógicas e argumentos contraditórios. Para piorar, foi descoberto que várias passagens do artigo tinham sido plagiadas de outro anterior. Um dos autores reagiu e avisou o Pharyngula que estava desistindo da publicação devido a "sérios erros", falta de "conferência no uso de frases tiradfas de referências" e "confusão entre diferentes versões". Essa desculpa não se sustenta. A frase em questão não saiu de nenhuma referência. Nem trata-se de um erro de revisão. A impressão que tenho é que os autores, Mohamad Warda e Jin Han esconderam a frase no final de uma seção na esperança de que passasse despercebida. Não deu certo.
Na página do artigo na revista, em lugar do resumo aparece a seguinte explicação:
"
O seguinte artigo da revista PROTEOMICS, "Mitocôndrias, o elo perdido entre corpo e alma: Evidência perspectiva (sic) proteômica" de Mohamad Warda e Jin Han, publicado online em 23 de Janeiro de 2008 ina página Wiley InterScience (www.interscience.wiley.com), foi retirado por acordo entre os autores, o editor da revista Michael J. Dunn e a editora Wiley-VCH. A retirada foi acordada devido à substancial sobreposição do conteúdo deste artigo com artigos publicados anteriormente em outras revistas. PROTEOMICS pede desculpas a seus leitores."
Nenhuma menção ao criador. Eu guardarei como lembrança a minha cópia, que obtive antes da retirada.

Primeira mensagem

A humanidade atingiu um nível fantástico de compreensão da natureza. Hoje podemos diagosticar e combater doenças, combater a dor, publicar idéias, prever eclipses, entender as origens do universo e da vida.
O conhecimento tem tornado nossa existência no planeta muito mais significativa.
No entanto, uma cultura baseada em crenças e mitos sobrevive e impõe-se em todos os níveis. Criacionismo, as religiões, as pseudo-ciências estão presentes e fortes na cultura ocidental. No Brasil isso é agravado pela formação científica absolutamente deficiente da maior parte da população.
Este blog tem como objetivo abrir os corações e mentes brasileiros para a importância da cultura científica e da formação mínima que toda criança deve ter para um país melhor.
Questionar e entender é sempre melhor do que acreditar.
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