domingo, 30 de março de 2008

Cegonhas lunáticas

"É um fato. Nascem mais bebês quando muda a lua. Pode perguntar a qualquer pessoa que trabalhe em uma maternidade." Ou então: "Nascem mais bebês na lua cheia".
Já ouvi essa conversa várias vezes. Ao menor sinal de espanto ou dúvida, o mecanismo aflora: "Se a lua pode influenciar as marés, por que não influenciaria os nascimentos?". Ou ainda essa, em geral afirmada por mulheres: "Minha menstruação sempre teve relação com as fases da lua, portanto é claro que a lua deve ter alguma influência sobre os nascimentos."
Encontrei mesmo no site de orientação Amigas do Parto um texto originalmente publicado no Correio Braziliense que só reforça conceitos pseudo-científicos.
Há também pessoas que associam vários eventos de suas vidas com as fases da lua. Cortar o cabelo, claro, só na lua crescente.

Antes de buscar uma explicação é prudente verificar se realmente a lua tem alguma influência sobre a taxa de nascimentos. Para isso eu usei o conjunto de quase 50 mil inscritos no Vestibular Nacional 2008 da Unicamp, nascidos entre 1936 e 1983.



Na figura acima representamos o número de nascidos em função do dia do ano, corrigido para a incidência de anos bissextos. Como o número de nascidos a cada dia é relativamente pequeno, da ordem de 150 pessoas, há muita flutuação estatística. A curva vermelha representa os mesmos dados após filtragem das flutuações. As linhas verticais marcam intervalos de 28 dias, de forma que se houvesse alguma correlação entre o ciclo lunar e a taxa de nascimentos ela apareceria com essa freqüência, o que não ocorre. Há mais nascimentos no primeiro semestre do que no segundo. Alguém pode argumentar que 50 mil nascimentos não é um número suficiente para encontrar o efeito da lua. Descobri um estudo similar muito mais completo, envolvendo 20 vezes mais nascimentos, feito pelo meu professor da graduação Fernando Lang da Silveira. Há também um artigo científico completo publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecology e outro no Primary Care Update in Obsterics and Gynecology mostrando a ausência de correlação entre nascimentos e fase da lua.

Podemos ter certeza que a lua não influencia a taxa de nascimentos.

Então por quê tanta gente afirma com segurança o contrário?

Como sempre num assunto desse tipo não há uma única razão mas um conjunto de fatores que conspiram na mesma direção. Vária têm sido mencionadas:

1. A mídia, que como no exemplo do Correio Braziliense reafirma os mitos de nascimentos, cortes de cabelo, pescarias, e também lobisomens e outras criaturas.

2. A quase coincidência entre o período menstrual médio, de 28 dias e o mês lunar de 29.5 dias. Nossa espécie busca padrões e correlações em tudo. É tentador associar o ciclo menstrual ao ciclo lunar e várias culturas na antiguidade o fizeram (também associaram o homem ao sol, embora eu tenha dificuldade em encontrar ciclos de um dia ou de um ano para associar aos homens). Por outro lado, o dia de diferença entre os ciclos significa que ao longo de aproximadamente um ano a menstruação ocorre justamente na lua oposta. Mas quem lembra com detalhes do que ocorreu há um ano? O mito da lua regendo a vida das mulheres sobreviveu e continua seduzindo mentes menos observadoras e mais sujeitas a crer em mitos até hoje.

3. As marés. As marés agem sobre as águas, somos feitos de água, obviamente a lua de alguma forma nos influencia. Nada mais falso. Marés são um fenômeno curioso, de interpretação sutil e muita gente não o entende corretamente. Lembro de uma das primeiras versões da Encarta, a enciclopédia da Microsoft que trazia uma explicação errada com animação e tudo. As marés ocorrem porque a massa da terra é grande e seu diâmetro não é desprezível em relação à sua distância até a lua, de forma que a diferença de atração gravitacional entre o centro de massa e as duas superfícies opostas não é desprezível. Por outro lado, o a massa e o tamanho de um ser humano são pequenos demais para que ocorra algum efeito de maré em nós (felizemente. Imagine que nas noites de lua cheia tivéssemos uma forte pressão na cabeça e nos pés...). Para que tenhamos uma idéia, um pernilongo de 1g de massa pousado em nossa cabeça tem um efeito de "maré" sobre o nosso corpo muito maior do que a lua ou o sol! O efeito da lua sobre as marés é maior do que o do sol porque apesar de sua massa ser muito menor sua distância é muuuuito menor. As equações relevantes para estimar os efeitos podem ser encontradas aqui. Para completar, pouca gente sabe mas ocorrem efeitos de maré sobre os continentes também, embora eles sejam muito menores do que os efeitos sobre os oceanos.

4. Os efeitos psicológicos do chamado reforço comunitário (está muito melhor em inglês), o processo pelo qual uma afirmação ganha ares de verdade ao ser repetida por muitos membros de uma comunidade. Esse é o processo que faz com que nações inteiras acreditem em mitos passados de geração em geração. Ele também explica como testemunhos reforçados por outros testemunhos em comunidades de terapeutas, psicólogos, teólogos, políticos, apresentadores de TV, etc. podem suplantar e ser mais fortes do que estudos científicos bem feitos e honestos. O reforço comunitário combina-se com a predisposição para a confirmação (o mecanismo de observação seletivo inconsciente: profissionais de maternidades acham que nascem mais bebês na lua cheia e conseqüentemente só lembram de mais nascimentos nas noites de lua cheia) e idéias falsas tornam-se "verdades".

Para saber mais vale a pena olhar o verbete Lua cheia no Skepdic ou na Wikipedia.

No fundo é correto afirmar que bebês sempre nascem na mudança de lua, pois a fase da lua está mudando a cada instante. Quem garante que a lua só tem 4 fases?

Enquanto eu preparava esse artigo pensei em mais um mecanismo alternativo para compatibilizar a lua cheia com tudo o que sabemos sobre nascimentos: As cegonhas trazem os bebês de muito longe e certamente não querem colocar suas preciosas cargas em risco na escuridão. Voar nas noites de lua cheia é sem dúvida mais seguro e agradável.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Criacionismo no Mackenzie

Parece um plano pré-concebido (design inteligente?). Eles vão buscando espaço nas instituições de ensino superior em nome da pluralidade. Foi assim em 2007 na UFSCar e na Unicamp e no início de 2008 no lamentável simpósio "Criacionismo e Mídia" na UNASP quando a ministra Marina Silva declarou em vídeo sua convicção em relação ao criacionismo. Agora eles voltam, dessa vez na Universidade Prebiteriana Mackenzie em São Paulo. Está programado para 8 a 10 de abril próximos o I Simpósio Internacional Darwinismo Hoje. Adoro a profusão de eventos "internacionais" no Brasil nos quais um participante é uruguaio, paraguaio ou americano. Isso não faz do simpósio um evento de relevância internacional.
O título poderia sugerir que ocorrerá um debate sobre os caminhos da Origem das Espécies ou da Teoria da Evolução. Nada disso. Trata-se de mais uma tentativa de dar ao criacionismo e ao design inteligente (que seguem dogmas a priori e não o método científico e portanto não são ciências) o status científico e colocá-los no mesmo patamar que a Teoria da Evolução.
Cada vez que isso acontece a ciência sai perdendo. Não pode haver debate entre cientistas e criacionistas ou adeptos do design inteligente. Não há o que debater. O criacionismo em sua forma mais radical consiste em atribuir a um Deus a criação do universo e de tudo o que há, incluindo a vida na terra, de acordo com o que é contado nas escrituras judaico-cristãs. O design inteligente consiste em aceitar alguns aspectos da evolução mas duvidar por exemplo do mecanismo de seleção natural, atribuindo a complexidade da vida humana a um plano pré-traçado por uma entidade superior (Deus?) , um projeto inteligente.
Criacionismo e design inteligente são a negação de uma das maiores conquistas da civilização: a ciência, essa metodologia que nos permite entender leis e padrões na natureza. A partir da observação da natureza propomos hipóteses que podem ser testadas e eventualmente validadas. As hipóteses que são validadas e coerentes com outras observações transformam-se em teorias, que ainda assim são postas a prova cada vez que surgem novas evidências.
Ao contrário, tanto o criacionismo quanto o design inteligente já têm as respostas antes mesmo da observação. Não imposta se todas as evidências indiquem que a Bíblia se presta mais a metáforas do que a uma interpretação literal.
É curioso que o palestrante que apresentará o criacionismo tem formação em... engenharia mecânica e elétrica. E é "Catedrático de (sic) Mecânica dos Fluidos na EESC-USP". Eu achava que as cátedras estavam extintas há mais de 40 anos...
Sempre pode piorar. No blog O Tempora, O Mores há uma entrevista com o Prof. Augustus Nicodemus Lopes, o idealizador do simpósio. A entrevista está enfeitada por pérolas como "a universidade pode apresentar alternativas ao modelo evolucionista, que por sinal, já anda bem desgastado", ou criticando a Teoria da Evolução, "A dificuldade maior é quanto à macro-evolução, que postula o surgimento de espécies novas a partir de outras, como o surgimento do homem a partir de espécies inferiores". Ou ainda "o Darwinismo com sua teoria da evolução das espécies não consegue explicar de maneira satisfatória determinados mecanismos e processos naturais descobertos pela bioquímica e outras ciências. Tais mecanismos, como o motorzinho das células, são por demais completos e complexos, sendo praticamente impossível considerá-los como fruto de um processo evolutivo movido ao acaso." Essa interpretação do prof. Lopes do processo de seleção natural está errada. A seleção natural é justamente o contrário do acaso. É a sobrevivência do mais apto. O "motorzinho das células" só chegou a seu grau de complexidade porque evoluiu a partir de sistemas mais simples, e as variantes menos adaptadas a seu meio não sobreviveram. Quem pensa que do nada nasceu a complexidade da vida não entendeu a Teoria da Evolução. E não é porque não entendemos uma teoria que devemos negá-la.
Quem realmente se interessa por discutir Darwinismo Hoje certamente não participará do simpósio. Mas quem se preocupa com Cultura Científica no Brasil precisa ficar atento a mais essa tentativa de transformar crença em ciência.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Inteligência Inata

O que mais me impressiona quando vejo alguém falando de pseudo-ciências é a segurança com que são expostos conceitos, não importa o quão absurdos e bizarros eles sejam. Foi assim na palestra sobre quiropraxia que assisti essa semana. Pior era ver a da platéia ouvindo sem reagir conceitos como "inteligência inata", o perigo que as "sub-luxações" representam para nossa saúde pois interrompem o fluxo da "inteligência inata", ainda que não causem nenhum sintoma clínico.
Até essa palestra eu considerava a quiropraxia uma pseudo-ciência menos irracional do que por exemplo a homeopatia ou a acupuntura, pois parecia-me baseada em conceitos a priori plausíveis (apesar de jamais demonstrados). Não é absurdo achar que atividades do dia-a-dia causem pequenos desalinhamentos das vértebras (na verdade causam, mas elas mudam a todo instante. A coluna vertebral é flexível e dinâmica). Não é uma idéia absurda achar que nervos comprimidos por desalinhamento das vértebras apresentem disfunções de condução de impulsos elétricos (na verdade isso pode ocorrer, mas não devido às compressões que ocorrem no dia-a-dia. Eu mesmo tive uma compressão cervical que deixou minha mão direita insensível há alguns anos, mas isso ocorreu devido à prática de esporte radical sem os devidos alongamentos) . Não é absurdo pensar que manipulação vertebral possa corrigir desalinhamentos (na verdade pode, mas os efeitos são efêmeros). Ou seja, a quiropraxia parecia-me apoiada em algumas hipóteses verdadeiras, outras fantasiosas. Mas eu estava enganado. O conceito de "inteligência inata" foi introduzido pelo próprio Daniel David Palmer, o padeiro de Davenport, Iowa criador da quiropraxia. Palmer acreditava que os seres vivos portam uma "inteligência inata", responsável pela organização, metabolismo e cura do corpo. Os quiropraxistas acreditavam que ao ajustar a coluna vertebral eles removem a interferência sobre o sistema nervoso e assim permitiriam o fluxo da "inteligência inata" pelo corpo. Palmer não era muito diferente de seus contemporâneos nesse sentido. Ocorre que hoje sabemos que os seres vivos não têm ineligência inata alguma (alguns humanos apresentam uma inteligência inata ou não bem limitada!), mas muitos quiropraxistas continuam acreditando nesse tipo de conceito. Nisso a quiropraxia não difere muito de outras pseudo-ciências. Nasceu numa época em que não tínhamos meios para discernir entre idéias corretas e equivocadas. O surpreendente é que idéias que se mostraram equivocadas continuam conquistando adeptos até hoje. De positivo, aprendi que a recomendação para pacientes que apresentam dor é buscar a medicina convencional, que "é muito mais eficaz do que a quiropraxia nesses casos."
Mas afinal, para que serve a quiropraxia?
Pelo que entendi para corrigir as "sub-luxações", que seriam condições muito mal-definidas de desajuste das vértebras não causando dor ou desconforto. No entanto, se a "sub-luxação é um fenômeno real ou um conceito metafísico de Palmer (como a "inteligência inata"), continua sendo uma área de debate entre quiropraxistas. O ajuste, ou manipulação da coluna vertebral é um procedimento de risco e a maioria dos quiropraxistas avalia que o risco associado ao procedimento é muito menor do que o real (veja o texto anterior sobre o assunto).
Enfm, por um lado submeter-se a um "ajuste" pode trazer uma sensação de bem estar, como é o caso de outras formas de manipulação e massagem. Por outro, a base teórica para o "ajuste" não se sustenta, ele corrige uma disfunção inexistente e traz riscos (Vale a pena morrer por uma dor de cabeça?) nem sempre explicitados.

sábado, 15 de março de 2008

Dieta anti-inflamatória

Hoje assisti na RedeTV a uma entrevista de um simpático casal que tentava vender a "Coleção Completa Dieta AntiInflamatória" por módicos R$ 119,60 (divididos em até 4 vezes). Ela consiste em 2 livros e um DVD. Os entrevistados eram os autores, o médico Dr. Alexander Gomes Azevedo e a nutricionista Dra. Ana Cristina Wolf Martins. O livro do Dr. Azevedo, Dieta Antiinflamatória, apresenta "um estudo alimentar sério e científico que ajudará a emagrecer e prevenir doenças provocadas pelo processo inflamatório anormal". O livro da Dra. Martins, Cozinha da Dieta Antiinflamatória, contém "mais de 70 receitas para você ter uma alimentação saudável e balanceada para a prevenção das doenças relacionadas ao processo inflamatório anormal". O DVD consiste em comentários dos autores sobre cada capítulo dos livros.
A entrevista é pontuada por termos pretensamente científicos e cheia de afirmações absurdas feitas com toda a segurança. Eu fiquei sabendo que a alimentação errada, rica em "alimentos inflamatórios" causa "inflamação anômala sub-clínica silenciosa", uma condição que pode ter conseqüências graves mas pode ser combatida simplesmente mudando para uma dieta rica em "alimentos anti-inflamatórios". Para saber exatamente quais são esses alimentos só comprando a coleção, mas eles adiantaram que entre eles constam peixes de águas profundas, verduras, grãos, alimentos ricos em ômega 3 e 6.
Segundo o Dr. Azevedo o processo inflamatório anormal pode ser diagnosticado por um exame de sangue chamado de Proteína C reativa (PCR) ultra-sensível. Não entendo muito bem como ele faz o diagnóstico, dado que o teste de PCR é normalmente usado para diagnosticar uma inflamação aguda sistêmica e o PCR-ultra é usado para determinar o risco de doença cardíaca.
O Dr. Azevedo também discorreu sobre a homocisteína, um aminoácido que quando presente no sangue em níveis elevados pode estar ligada ao risco de ataque cardíaco. Ele citou o estudo de David Wald et al. no BMJ. Obviamente a "dieta antiinflamatória" baixa o nível de homocisteína, o que leva a crer que é rica em ácido fólico e vitaminas B6 e B12. Apesar de não haver evidênicas dos benefícios de reduzir o nível de homocisteína, é usual recomendar a pacientes de alto risco a ingestão de ácido fólico e vitaminas B6 e B12.
O discurso do Dr. Azevedo e da Dra. Martins é típico das pseudo-ciências, em que se misturam conceitos científicos estabelecidos e referências sérias com idéias bizarras e jamais confirmadas. É incrível como na entrevista essas idéias são mencionadas como se estivessem bem estabelecidas, entendidas e aceitas pelas comunidades científica e médica. Só faltou avisar que esse não é o caso. Para minha profunda decepção, eles não explicaram exatamente em que consiste uma "inflamação anômala sub-clínica silenciosa" nem por quê uma condição supostamente tão comum é ignorada pela literatura científica. Não encontrei nada a respeito nem no Google Acadêmico nem na Web of Science.
Tentei saber mais sobre os entrevistados. Há pouco na internet sobre a Dra. Martins. Ela graduou-se em nutrição em 1991 pela Universidade de Ciências da Saúde São Camilo em São Paulo, tem mais de 10 anos de experiência em restaurantes executivos, tendo realizado banquetes de alto padrão. Tem pós-graduação em nutrição e fisiologia do exercício.
Já o Dr. Azevedo tem uma página na internet. Lá podemos saber que ele tem pós-graduação em saúde da família na USP e é "Member of the New York Academy of Sciences". Impressionante, não? Nem tanto. Qualquer um de nós pode ser membro da NYAS, bastando para isso pagar a anuidade de US$125.00. Nesse preço está incluído o certificado feito para ser emoldurado e pendurado na parede. Por menos da metade ele poderia ser membro da National Geographic Society, receber um certificado que pode ser emoldurado e pendurado na parede e ainda receber a National Geographic Magazine. O Dr. Azevedo já deu entrevistas no programa Domingo Legal com o Gugu, no Programa Mais Você, na Rede Record e no Bem Família. Esqueceram de mencionar a entrevista na RedeTV.
O Dr. Azevedo é autor de outro livro, As 11 dietas mais famosas do mundo, onde faz a apologia da dieta do tipo sanguíneo, outro exemplo clássico de pseudo-ciência que comentarei em outro artigo. Segundo sua página ele também "idealizou um tratamento para gordura localizada denominado HLPA, que hoje é sucesso em todo mundo". Ainda segundo sua página esta "é a melhor e mais segura técnica do mundo para se livrar das indesejáveis gorduras localizadas".
Para completar a salada de pseudo-ciências, ainda há informações sobre Terapia Ortomolecular, que também merecerá um artigo.
Eu não tenho a menor intenção de gastar quase R$ 120,00 em uma coleção de pseudo-ciência. Se alguém quiser arriscar é possível encontrar sem muito esforço um dos dois livros, Dieta Antiinflamatória por R$ 19,75 (em até 3 vezes) na internet. Espero que as receitas e o DVD realmente valham os R$ 100,00 restantes.

Agradeço à Lygia por ter me mostrado a entrevista na TV.

terça-feira, 11 de março de 2008

Quanto custa a medicina complementar e alternativa?

R. Barker Bausell, autor do excelente Snake Oil Science publicou um interessante artigo na Chronicle of Higher Education de 14/03/08. Durante 5 anos Barker Bausell foi o diretor científico do infame NCCAM, o Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa, financiado pelo NIH, a Agência Nacional de Pesquisa Médica americana. A operação do NCCAM já custou ao contribuinte norte-americano mais de US$ 860 milhões e essa cifra aumenta mais de US$ 100 milões a cada ano. Até agora as conclusões das pesquisas metodologicamente corretas patrocinadas pelo NCCAM sobre medicina complementar e alternativa (MCA) são claras:

1. As diversas técnicas de MCA têm efeito terapêutico mensurável.
2. O efeito terapêutico da MCA nunca é maior do que o associado ao efeito placebo.

O efeito placebo consiste na melhoria de sintomas clínicos não por uma ação eficaz do medicamento ou tratamento, mas simplesmente porque o paciente percebe que está sendo tratado. Esse assunto e os mecanismos envolvidos será tratado num artigo futuro. A conclusão final de Barker Bausell é que ao contrário da conclusão padrão dos testes do NCCAM, " mais estudos são necessários para demonstrar a ação do tratamento", o correto seria pararmos de financiar esse tipo de estudo. É realmente necessário gastar centenas de milhões de dólares em sofisticados testes controlados duplo-cego para verificar se agulhas inseridas no corpo podem canalizar o fluxo de qi (uma forma de energia vital ainda não detectada pelos físicos) por um sistema de meridianos (ainda não detectados pelos fisiologistas) para deixar o yin e o yang do paciente em equilíbrio (ainda não medido) e assim aliviar os sintomas?
Todos os testes de MCA com resultados positivos contém falhas metodológicas, algumas vezes graves. Em geral são feitos por defensores das terapias alternativas, que apesar de bem intencionados ignoram o rigor com que os protocolos de pesquisa precisam ser considerados para que os resultados sejam relevantes. Nem todo mundo foi educado para entender as sutilezas metodológicas envolvidas.
As terapias da MCA são tomadas como atos de fé: mesmo que todas as evidências mostrem sua ineficácia elas continuam e continuarão a ser usadas. A fé na MCA é muito similar à fé religiosa: os dogmas permanecem eternamente acima da razão e do bom senso. Os fiéis tendem a continuar fiéis ou mesmo passar de uma modalidade de MCA a outra.
Enquanto nos Estados Unidos propõe-se o fim do apoio financeiro a esse tipo de pesquisa, no Brasil seria um bom começo a revogação da portaria que autoriza, reconhece o valor terapêutico e incentiva as unidades de saúde a adotarem terapias como a acupuntura, a homeopatia, a fitoterapia e o termalismo. Tudo isso financiado pelo SUS. É verdade que a MCA tem um custo muito inferior ao da medicina. Por outro lado, é exorbitantemente caro pagar não importa quanto por uma terapia que não tem efeito terapêutico maior do que oferecer um copo d'água benta ou de um soprinho mágico. Ou pior, como fez a Secretaria da Saúde de São José do Rio Preto, tratar em Centros de Saúde uma doença mortal como a dengue hemorrágica com homeopatia.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Astrologia quântica

Na seção Holofote da Veja de 05/03/08 (acesso exclusivo para assinantes até 19/03/08) a ótima atriz Denise Fraga expressa seu fascínio pela astrologia, a ponto de recomendar que ela seja ensinada no primário, pois "é uma ciência fascinante". Fascinante talvez, mas certamente astrologia não é ciência. Sempre foi um mistério para mim por quê artistas são presas fáceis para as pseudo-ciências.
A ciência é talvez uma das grandes conquistas culturais da humanidade. Termos desenvolvido uma metodologia que permite verificar se nossas idéias correspondem ou não aos fatos levou a níveis de compreensão da natureza que não seriam possíveis de outra forma. A ciência é uma séria ameaça aos mitos e religiões que foram criados ao longo da história para saciar nossa necessidade de encontrar padrões e explicações para o mundo que nos cerca.
O sucesso da ciência é tão grande que mesmo crenças das mais arraigadas buscam validação científica. Isso deu origem ao que chamamos de pseudo-ciências, ou seja, a parte da cultura que se apropria da linguagem científica e aparência científica mas falha na verificação das hipóteses e mesmo assim mantém suas hipóteses, que na verdade são dogmas. A astrologia é um ótimo exemplo de pseudo-ciência, onde misturam-se elementos científicos como o cálculo da posição dos planetas (que não seria possível sem a descrição da gravitação iniciada por Galileu e Newton) com previsões relacionadas ao à posição dos astros atual em relação ao momento do nascimento de cada um de nós. Não importa se testes das hipóteses mostram que elas estão equivocadas, os verdadeiros crentes mantém suas crenças.
Infelizmente para os astrólogos, a mesma teoria da gravitação que permite calcular a posição dos planetas atesta que o efeito da posição dos planetas sobre nós não pode ser sentido pois é muito menor do que os efeitos de outras fontes mais próximas (que também não podem ser sentidos). Por exemplo, a atração exercida sobre nós por um ônibus a 1 metro de distância é muito maior do que a de Júpiter, o mais massivo planeta do sistema solar.
Ainda que existisse uma interação desconhecida, a astrologia não resiste ao paradoxo dos gêmeos: dois gêmeos nascidos no mesmo lugar com alguns minutos de diferença deveriam ter personalidades e trajetórias de vida semelhantes. Isso raramente é o caso. Eu mesmo sou pai de gêmeas completamente diferentes. Se a mudança na posição dos astros durante os 5 minutos de intervalo entre os dois nascimentos é relevante, então é impossível fazer qualquer previsão sem conhecer o local de nascimento com precisão de alguns milímetros na hora de calcular a posição dos astros, e esse cálculo necessitaria ser feito com uma precisão incompatível com as fontes de erro existentes.
O único teste científico sério da astrologia que conheço foi publicado na revista Nature (acesso exclusivo para assinantes) em 1985. O físico Shawn Carter preparou um teste em colaboração com uma instituição de astrólogos respeitada em seu meio, o National Council for Geocosmic Research (uma visita a sua página é uma aula magistral de pseudo-ciência!). A instituição indicou 28 astrólogos reconhecidos como competentes por seus pares. Foram feitos 2 testes duplo-cego: no primeiro os astrólogos prepararam mapas astrais e previsões para 83 pessoas com base em suas datas e locais de nascimento. Cada pessoa foi convidada a escolher entre 3 mapas (o seu e os de outras duas pessoas) qual seria o seu. Em 28 dos 83 casos (ou seja 1/3) a escolha foi correta. Esse é exatamente o resultado esperado pelo acaso. No segundo teste 116 pessoas passaram por um teste padrão de características de personalidade, o California Personality Index. O resultado de cada pessoa foi entregue aos astrólogos junto com mais 2 para que eles determinassem qual correspondia ao mapa astral da pessoa. Em 40 dos 116 casos os astrólogos acertaram, ou seja 1/3 das escolhas. Esse é exatamente o resultado esperado pelo acaso.

Conclusão: as previsões astrológicas não são melhores do que fazer previsões ao acaso. As previsões da astrologia não são previsões.

O que leva pessoas como Denise Fraga a acreditarem na astrologia?
Há uma conspiração de pelo menos dois fatores:
1. O efeito Forer, assim chamado em homenagem ao psicólogo Bertram R. Forer, que observou que as pessoas tendem a aceitar descrições vagas e gerais de personalidade como especificamente aplicáveis a elas sem se dar conta que a mesma descrição serve para quase todo mundo. Por exemplo: "Você é uma pessoa sensível. Você sente necessidade de que os outros gostem de você e o admirem, ainda que você tenda a ser autocrítico. Algumas vezes sente-se só no mundo, como se ninguém entendesse você." E assim vai... Isso impressiona.
2. A predisposição para a confirmação, uma forma de pensamento seletivo em que tendemos a reparar nos fatos que confirmam nossas crenças e ignorar ou desprezar a relevância dos que os contradizem. É assim que se formam os preconceitos. Em relação à astrologia isso se traduz na memória seletiva em relação aos acertos das previsões desprezando-se os erros.

Astrologia é uma pseudo-ciência. Ciência deve ser ensinada na escola. Pseudo-ciências não. Assim como a humanidade, as crianças em seu estágio inicial de desenvolvimento podem ser levadas a pensar que ciências e pseudo-ciências são equivalentes.
Pelo mesmo motivo, num estado laico o criacionismo não deve ser ensinado nas escolas.

Denise Fraga termina a entrevista dizendo que "Você vê isso quando estuda astrofísica, física quântica. A ciência e a religião convergem para um ponto no fim do túnel". Não sei o quanto ela entende do princípio da incerteza ou da equação de Schroedinger.
Eu venho estudando física quântica há quase 30 anos. Quanto mais aprendo mais me convenço que ciência e religião não convergem nem podem convergir. Devo ter entrado no túnel errado...

Agradeço ao amigo e colega Cristiano Cordeiro por ter me chamado a atenção para a entrevista.

terça-feira, 4 de março de 2008

Apocalypse Now (quase)

Meu colega Samuel Rocha de Oliveira mantém um blog muito mais abrangente do que este. Ele postou uma mensagem interessante sobre uma nova lenda urbana, o apocalipse em 2012. Um ótimo exemplo de numerologia aplicada aos calendários. Numerologia é uma pseudo-ciência que atribui aos números significados muito além de sua vã existência. Vale a pena conferir.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Pós Graduação em Acupuntura

Eu voltava para casa hoje no fim da tarde quando um out-door chamou-me a atenção: o anúncio de um curso de pós-graduação lato sensu em acupuntura, oferecido pelo Instituto Brasileiro de Acupuntura (IBRAM). Claro que não resisti e fui ver do que se trata. Está lá: "O Curso de Especialização em Acupuntura Sistêmica com duração de 2 anos e chancelado pelos conselhos de classe e também pós Graduação Lato Sensu. Sendo assim durante o curso o aluno estará apto a diagnosticar, tratar e dinamizar seu tratamento, através de aulas práticas e ambulatório atendendo a população carente.. Contamos ainda com ambulatório extracurricular em entidades."
Não entendi muito bem se é uma Especialização ou pós Graduação Lato Sensu (talvez sejam sinônimos). Não entendi também o que significa dinamizar um tratamento, mas talvez para entender isso eu precisasse assistir as aulas práticas e atender a população carente. O mais peculiar é que o curso é chancelado pelos conselhos de classe. O Brasil é um país estranho onde homeopatia é especialidade médica, mas regulamentar acupuntura... O próprio Instituto responde: Em uma página ornamentada pelo Brasão da República (provavelmente para atestar a seriedade da coisa) estão resoluções de conselhos profissionais (Farmácia, Biomedicina, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Enfermagem e Psicologia) autorizando seus membros a "exercer a técnica de acupuntura, desde que tenha concluído curso de especialização em universidade ou entidade de acupuntura de reconhecimento (sic) idoneidade científica."
[26/02/12 Update: A página do IBRAM mudou. Não tem mais o Brasão da República na página de aspectos legais.] Pareceu-me curioso que conselhos profissionais das mais diversas profissões da área da saúde decidiram paralelamente se autorizar a prática da acupuntura. Na verdade isso é um assunto bastante controverso, como indicam notícias na página do Conselho Federal de Medicina. Decisões judiciais vêm indicando o entendimento de que acupuntura deve ser praticada somente por médicos. Não vou entrar no mérito dessa discussão entre conselhos, mas a impressão que tenho é que em lugar de proteger a saúde da população os conselhos buscam defender suas corporações reservando-se uma fatia (gorda em alguns casos) de um mercado milionário.
Melhor ainda, tramita no senado uma lei que se aprovada autorizará a criação do Conselho Federal de Acupuntura [26/02/12 Update: Arquivada em 07/01/2011], que será composto por "diplomados em acupuntura nos estabelecimentos de ensino superior oficiais ou reconhecidos". Se por um lado isso talvez resolva a polêmica entre os nove conselhos, por outro abre a brecha para a criação de cursos de graduação em acupuntura, ou seja, formar profissionais de nível superior para somente aplicar terapias que não conseguem resultados melhores que um placebo. Quem duvida pode pesquisar os artigos da Cochrane Collaboration, o ambicioso projeto internacional que se propõe a reunir todo o conhecimento médico de qualidade do mundo (eu qualifiquei só como ambicioso!). Todos os que referem-se a acupuntura concluem que "The current evidence does not support acupuncture as a treatment for ..., As evidências atuais não recomendam a acupuntura como tratamento para ...." ou expressão equivalente.
No curso do IBRAM constam 120 horas aula de Metodologia Científica. Espero que nessa disciplina seja ensinado o que significa um teste duplo cego, o que é o efeito placebo, como um mecanismo de ação precisa ser compatível com o conhecimento que temos de outras áreas, etc.
Se isso não ocorrer é possível que os alunos voltem para complementar sua formação com Acupuntura Sistêmica Avançada, Acupuntura Auricular, Acupuntura Auricular Avançada, Anestesia e Analgesia pela Acupuntura. Se ainda assim não ficar contente, pode também estudar RPG/RCS, Liberação Miofascial, Massagem Terapêutica, Quiropraxia Estrutural ou Cromoflorais. O que falta em todos esses cursos é a confirmação científica de seus princípios, mecanismos e uma ação terapêutica superior ao efeito placebo.

domingo, 2 de março de 2008

A fé na ciência

Um artigo com esse nome foi publicado por Hélio Schwartsman na coluna Pensata da Folha Online. Ela faz referência a seu artigo anterior chamado Ciência sob ataque, que aborda o avanço do criacionismo no Brasil. Os dois são leitura obrigatória para quem se importa com a cultura científica e educação para a ciência. É um prazer encontrar material de tão alta qualidade num órgão da grande imprensa. Como sou um eterno otimista, espero que a mensagem se espalhe e ajude a fazer a diferença.
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