quarta-feira, 30 de abril de 2008

Dentadura robótica

A comunidade científica criou ao longo dos anos mecanismos de auto-controle. O mais importante para o desenvolvimento da ciência é talvez o processo chamado em inglês de peer review, que pode ser traduzido livremente como revisão pelos pares. As revistas científicas mais prestigiosas não publicam nada que não tenha recebido um parecer positivo de pelo menos dois ou três cientistas independentemente. Isso é uma forma de garantir que pelo menos alguns experts no assunto foram convencidos pela argumentação do(s) autor(es) e o artigo não contém resultados absurdos ou idéias malucas. É graças à estrita revisão por pares que publicar em revistas como Nature e Science dá tanto prestígio aos cientistas. O processo não é infalível, mas é o melhor que temos. Faz todo sentido portanto desconfiarmos de idéias, teorias, terapias, especialmente as mais surpreendentes ou mirabolantes, quando elas não passaram pelo crivo da revisão pelos pares.

Um cartaz afixado em uma cantina da Unicamp anuncia um curso de biocibernética bucal. Bio o quê? Essa deve ser a primeira reação dos pacatos transeuntes que o lêem. Por um módico investimento de 8 x R$ 340 (em 2008) e mais 8 x R$ 400 (em 2009) é possível fazer um Curso Básico de BioCibernética Bucal de 160 horas. Os temas dos encontros são no mínimo não-convencionais. Algumas palavras-chave como eutonia, distonia, setênios fazem acender uma luzinha de alerta. Adorei o tema do 11° encontro: "Decodificação dos sistemas através da boca; interpretação dos sistemas corporais e comportamentais. Somatotopia psicológica e comportamental dos dentes."
Não resisti a aprender mais sobre o assunto. Muita informação está na página do Instituto Brasileiro de Bio Cibernética Bucal (BCB). A BCB nasceu em Araçatuba em 1969. Na década de 70 os criadores da BCB, professores da Faculdade de Odontologia de Araçatuba lançaram seu primeiro livro. Daí para frente seguidores começaram a aparecer e atualmente há uma comunidade atuante em várias cidades.
Afinal, o que é BCB? Nas varias páginas sobre o assunto é difícil encontrar uma definição precisa. As melhores que encontrei foram:
"Na década de 60 dois odontológos paulistas, depois de muito atender, observar e tratar os pacientes e também pesquisar, criaram os princípios de uma escola de odontologia chamada de Bio Cibernética Bucal. Sua principal característica é a resposturação das funções da oralidade na expectativa de reverberação somática a distância (Baldani e Figueiredo)."

"Trata-se de ciência odontológica que considera a programação biológica contida no DNA humano, suas praxias e as suas repercussões na oralidade decorrentes, principalmente, do estilo de vida do paciente."
Se alguém entender isso por favor envie um comentário. Se conseguir conciliar as duas definições melhor ainda. Tem outras definições igualmente claras mas que ocupam meia página. Uma foi qualificada por um dentista blogueiro como conversa de vendedor de livro misturada com maçonaria.
A BCB permite um estudo de caso sobre como nasce uma pseudo-ciência. Não é todo dia que isso acontece em Araçatuba. Com todo respeito pela Faculdade de Odontologia de lá, que atualmente é uma instituição de qualidade, os proponentes e principais praticantes de BCB têm uma formação científica no máximo limitada. Todos que encontrei na web foram formados em instituições de reputação científica limítrofe, como a própria FOA (na época), a FO de Presidente Prudente, a UNIP, a UMC, a UMESP, a Unicastelo, o Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos entre outras. Locais que possivelmente formam bons profissionais mas não formam cientistas. Pessoas com treinamento científico deficiente podem se deixam levar pelo palavreado rebuscado e pelo jargão recheado por conceitos que elas não entendem direito (nesse caso específico, sinceramente, nem eu). Há um reforço comunitário na medida em que abrem-se cursos e clínicas em várias cidades. Organizam-se eventos sobre o tema. O cenário está armado.

Como é comum nas pseudo-ciências, os praticantes da BCB consideram-se vítimas de um suposto conservadorismo da comunidade científica que não aceita as idéias inovadoras e revolucionárias. Nada mais falso. Poucas áreas do conhecimento humano são tão abertas a mudanças quanto a ciência. Todo um arcabouço teórico pode mudar rapidamente quando novas descobertas assim exigem. Foi assim com o nascimento da mecânica quântica. Está sendo assim na medida em que aprendemos mais sobre o genoma. Ocorre que na BCB como em muitas otras terapias complementares e alternativas as idéias não encontram suporte nos fatos. Nesse caso fica difícil convencer os cientistas.

Os conceitos e idéias da BCB estão publicados em vários livros. Há um Instituto Brasileiro, um Grupo de Estudos (GEBICI), seguidores em várias cidades e mesmo em outros países. No entanto, não é possível encontrar um único artigo sobre o tema publicado em alguma revista científica com revisão por pares. Seria difícil convencer 2 ou 3 especialistas da "estreita correlação entre alterações na relação dos maxilares e alterações posturais" ou que "Desequilíbrios orais podem provocar desequilíbrios posturais e outras alterações biofuncionais" sem que tenha sido feito um estudo duplo cego controlado. Ou ainda que "a vida humana está programada em ciclos de sete anos". Para validar a BCB seria pelo menos prudente ter resultados publicados em pelo menos uma revista de alta reputação científica.

O GEBICI está organizando seu Décimo Encontro em Campinas de 16 a 18 de maio próximos. Como a sede do GEBICI fica aqui em Campinas, a próxima vez que eu for a um dentista vou antes me certificar que a obturação não vai interferir com a minha postura! Vai que essas coisas holísticas sejam uma via de mão dupla...

Agradeço à Juliana por ter me apontado a BCB. Esse post é dedicado ao amigo Guerreiro, araçatubense radicado em Campinas como a BCB.

sábado, 26 de abril de 2008

Picaretagem quântica

Amit Goswami vem ao Brasil em junho próximo junto com a psiquiatra Uma Krishnamurthy. Eles oferecerão um workshop de um dia inteiro sobre "Criatividade Quântica, Transformação Pessoal e Psicologia do Yoga" pela módica inscrição de R$ 675 (pode fazer em 3 vezes no cartão. Inclui um almoço vegetariano). Para os menos abonados ocorrerão palestras com 3 horas de duração sobre "A Física da Alma", "Economia Espiritual", "O Médico Quântico" e "Psicologia do Yoga e Transformação de Emoções" que custarão entre R$ 297 e 360 (pode fazer em 3 vezes no cartão. Nesses valores não dá para incluir o almoço vegetariano).
Amit Goswami é professor emérito do Institute of Theoretical Science da University of Oregon, nos Estados Unidos. Professor emérito é provavelmente a maior distinção que um professor universitário pode obter, reservada para aqueles que se distinguiram em suas carreiras a ponto de sua instituição não desejar que eles dela se afastem no momento de sua aposentadoria. Certamente o professor Goswami foi um professor exemplar. Infelizmente nos últimos anos vem se dedicando somente a difundir conceitos pseudo-científicos envolvendo mecânica quântica e consciência. Goswami é uma das estrelas do controverso filme "Quem somos nós?", que fez algum sucesso há alguns anos ao misturar misticismo com mecânica quântica.
Goswami é autor dos livros A Física da Alma, O Universo Autoconsciente, O Médico Quântico, A Janela Visionária e Criatividade Quântica. Haja quantização! No entanto, uma busca no ISI Web of Knowledge (acesso apenas para assinantes), um dos maiores bancos de dados de publicações científicas do mundo revela que há mais de 20 anos o prof. Goswami não publica nada em revistas científicas sérias usando o endereço da Universidade de Oregon.
Goswami foi o entrevistado do programa Roda Viva da TV Cultura em 2001. Há uma transcrição aqui. É longo mas divertidíssimo. Ele cita como verdadeiros estudos claramente fraudados, faz referência a uma fauna que mistura cientistas sérios com notórios pseudo-cientistas. Diz pérolas como "Na Física Quântica, o tempo é não-linear", o que não significa absolutamente nada. Goswami voltou ao Roda Viva em 2008. Não me dei o trabalho de ver. Alguém na TV Cultura deve gostar de uma programação quântica.
Parece que o Prof. Goswami tem uma interpretação muito particular da mecânica quântica. Incrivelmente muita gente está disposta a ouví-lo. No filme citado ele diz que "O mundo material que nos cerca não é nada mas movimentos possíveis da consciência. Eu escolho minha experiência a cada momento. Heisenberg disse que os átomos não são coisas, apenas tendências". Heisenberg nunca disse isso. Os átomos estão aí, independentemente de pensarmos neles ou o que pensemos deles.
Mecânica quântica é a teoria que usamos para descrever as estruturas muito pequenas (da ordem do nanômetro ou menores) do universo. Nessa escala a física clássica do nosso dia-a-dia apresenta resultados incompatíveis com as observações. As leis de Newton não podem ser aplicadas. Não podemos tratar a aceleração de um elétron sob uma força com a equação F=ma. Efeitos devidos ao princípio da incerteza de Heisenberg se tornam importantes. Portanto só podemos descrever um átomo usando a mecânica quântica. Na mecânica quântica é impossível prever a priori qual será o resultado de uma medida, mas podemos computar a probabilidade de a medida dar cada um dos muitos resultados possíveis. No instante da medida o objeto assume um dos seus possíveis estados (dizemos que a função de onda que descreve o objeto colapsa). A medida é algo sutil e pode ser entendida como uma interação do objeto com o resto do universo. Complicado, não? Místicos como o prof. Goswami costumam achar que essa medida precisa necessariamente ser feita por algum ser consciente. É como se o universo só pudesse existir na presença de uma consciência cósmica ou divina. Nada mais absurdo, como exaustivamente demonstrado por John Bell, um dos maiores especialistas contemporâneos em interpretação da mecânica quântica.
A comunidade científica reiteradamente rejeita como falsas as idéias do prof. Goswami. Já o grande público... Dada a limitada cultura científica reinante, Goswami adora o Brasil, país que visita anualmente desde 1996 a convite da Universidade da Paz (sem comentários). Pior, é venerado como um cientista que trabalha com a fronteira do conhecimento. Goswami foi um dia um cientista. Há muito não o é. As fronteiras da ciência passam longe de mistificações. Juntar misticismo com mecânica quântica é uma obsessão entre os profetas da nova era, os holísticos, os naturebólogos (ver postagem anteiror) entre outros. Alguns dispostos a pagar o que pedirem para celebrar suas crenças. E eu que tinha achado o show do Bob Dylan caro...

Agradeço ao Cristiano Cordeiro por ter me indicado a iminente visita de Amit Goswami ao Brasil.

domingo, 13 de abril de 2008

Naturebologia

Dias 17 e 18 de maio próximos ocorrerá na Universidade Anhembi-Morumbi o I Congresso Brasileiro de Naturologia. Como a organização de congressos científicos é uma forma de promover a cultura científica, achei que valia a pena conferir a programação.
Comecei por tentar aprender mais sobre Naturologia. Será que como o nome indica trata-se do estudo da natureza? Eu achava que a Física era a ciência que estuda a natureza (do grego Φύσις, que significa natureza). Para isso a página da Associação Paulista de Naturologia (APANAT) é muito esclarecedora. Ao contrário da minha primeira impressão, descobri que "A Naturologia é uma ciência que estuda métodos naturais antigos, tradicionais e modernos de cuidado, com objetivos de promover, manter e recuperar a saúde, através da estimulação e suporte à inerente energia do corpo, para a melhoria da qualidade de vida, harmonia e equilíbrio do ser humano com o meio em que vive". Boa notícia. Naturologia, como o nome indica, se define como ciência. Mais ainda, ela consiste em manter aquecidos os corpos dos enfermos, na esperança que isso reestabeleça a qualidade de vida, a harmonia e o equilíbrio. Pelo menos é isso que está escrito, pois calor, como todos sabemos, é a única forma de energia inerente ao corpo.
Existem dois cursos superiores de Naturologia no Brasil, sendo que um deles apresenta seu currículo em detalhes na web. Infelizmente, em lugar de ensinar seus alunos a estimular a inerente energia do corpo, eles dedicam 4 anos a um cardápio notável de pseudo-ciências e pseudo-filosofia. Até que começa bem, com disciplinas como Metodologia Científica e de Pesquisa ou Filosofia I, mas vai descambando até chegar em Fundamentos da Medicina Energética I a IV, Radiestesia, Antroposofia, Irisdiagnose, Geoterapia, só para citar algumas das disciplinas.
Como compatibilizar uma compreensão minimamente correta do método científico com essas disciplinas é algo que escapa minha compreensão.
Sempre pode piorar. A principal finalidade da APANAT, descrita em seus estatutos, é "Promover a elaboração de processos de pesquisas e investigações terapêuticas, a fim de se avaliar e demonstrar a eficácia das práticas realizadas pelo profissional Naturólogo, bem como apresentá-las à comunidade científica visando a sua regulamentação e/ou normatização nos Órgãos de Classe Competentes".
Os elaboradores do estatuto certamente faltaram às aulas de metodologia científica. Eles já sabem de antemão qual será o resultado das suas pesquisas, o que contradiz a investigação científica.
Grave mesmo é a intenção de regulamentar a profissão. Ou seja, em bom português, reservar o lucrativo mercado da prática de terapias baseadas em pseudo-ciências para os formados em um dos cursos privados existentes. Em troca, isso garantiria para a população que, por exemplo, o diagnóstico a partir da íris não mais correria o risco de ser praticado por charlatães. Sem comentários. Nisso ela é apoiada pela Associação Brasileira de Naturologia (ABRANA).

A programação do congresso começa com Mecânica Quântica (os naturebólogos adoram isso e a usam para justificar quase tudo. Entender conceitos como princípio da incerteza, quantização da energia ou comutadores é outra história...) e termina com Florais de Bach, passando pela "Análise comportamental e fisiopatológica dos biótipos constitucionais sob o enfoque da Acupuntura Constitucional Universal" entre outras. Acho que vai ser no mínimo divertido!

domingo, 6 de abril de 2008

Milagre! Resultado do ENEM 2007 foi 40% melhor que em ano anterior!

Todo ano é a mesma coisa. Sai o resultado do ENEM e os jornais e revistas brasileiros (e algumas vezes as autoridades também) correm para comemorar (ou lamentar) resultados que supostamente mostram como o ensino médio vem melhorando (ou piorando). A manchete esse ano é Resultado do Enem-2007 foi 40% melhor que em ano anterior. Em lugar disso deveria aparecer: Prova do Enem- 2007 foi 40% mais fácil que no ano anterior.
A ironia é que as escolas deveriam estar ensinando seus alunos a terem um pouco de espírito crítico, um dos ingredientes fundamentais da cultura científica.
Por maiores e mais eficazes que sejam os esforços das autoridades e educadores para melhorar a educação no Brasil, é pouco provável no período de apenas um ano o resultado acadêmico dos estudantes melhore em média 40%. O curioso é que poucos órgãos de imprensa parecem desconfiar que isso não é razoável.
As provas do ENEM, por mais bem elaboradas que possam ser, mudam o grau de dificuldade a cada ano. Elas envolvem questões diferentes, elaboradas por pessoas diferentes. Um mesmo estudante que resolva a prova em dois anos diferentes muito provavelmente obterá notas diferentes. Portanto é rigorosamente errado chegar a qualquer conclusão sobre a evolução da qualidade do ensino a partir da média do ENEM. Na verdade a média é muito mais sensível ao grau de dificuldade da prova.

É possível comparar como avança ou retrocede a educação em uma certa região, ou num determinado grupo de escolas (as públicas, por exemplo) em relação à média nacional ou local. Isso pode trazer informações valiosas para avaliar iniciativas e práticas de ensino. De qualquer forma, quando comparamos qualquer desempenho com a média nunca é possível saber, por exemplo, se as escolas públicas melhoraram ou se as escolas particulares pioraram. Para dificultar ainda mais a análise, no complexo universo da educação é muto difícil separar os resultados do processo educacional de variáveis interrelacionadas como nível sócio-econômico e acesso aos bens culturais.

É possível avaliar como evolui a qualidade do ensino como um todo?
Sim, e há diferentes estratégias para isso. Uma possibilidade é comparar medidas nacionais com outros países em provas internacionais como o PISA. Essa prova vem revelando que em média os estudantes das escolas de elite brasileiras são menos bem formados que a média dos piores de alguns países europeus.
Outra possibilidade é o que é feito em relação à educação básica no SAEB. Em todas as provas há questões-âncora que se repetem todos os anos. Os estudantes não sabem quais são essas questões. As médias obtidas nessas questões a cada ano são usadas para padronizar e comparar diferentes provas, estimando a evolução do sistema. Uma desvantagem desse método é que obviamente as questões das provas nunca podem ser divulgadas.

Entender os limites de um conjunto de dados e desconfiar de resultados que contrariam o bom senso são atitudes que acompanham a formação científica básica. Talvez eu esteja esperando demais de jornalistas formados em um país onde uma prática que propõe que quanto mais diluídos alguns princípios ativos mais eficazes eles ficam é considerada especialidade médica.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O juízo final em Genebra

O New York Times tem uma notícia pelo menos curiosa essa semana (na verdade ela está em vários serviços de notícias, mas citar o NYT dá um ar intelectual mais blasé). Dois cidadãos, Walter L. Wagner e Luis Sancho abriram um processo junto a uma corte federal norte-americana para salvar o mundo, e talvez o universo. O processo pede a imediata suspensão das operações do Large Hadron Collider (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo com 27km de circunferência próximo a Genebra, na fronteira entre a França e a Suíça. O LHC, que deve iniciar sua operação nem maio de 2008, vai forçar feixes de prótons circulando em sentidos contrários a colidirem com energias de até 7TeV por feixe, nunca antes alcançadas na terra. Os senhores Wagner e Sancho temem que nas colisões se forme um buraco negro que poderia causar o fim do mundo.
Por mais que isso pareça uma piada, o próprio CERN, administrador do LHC, fez um estudo sobre "Eventos potencialmente perigosos durante colisões de íons pesados no LHC". O estudo considera cenários como a formação de strangelets de carga negativa, buracos negros e monopolos magnéticos, e conclui que nenhum deles representa alguma ameaça.
Esse tipo de temor é antigo. Em 1999 o mesmo Walter Wagner trocou cartas na Scientific American com o prêmio Nobel F. Wilczeck sobre os riscos do acelerador RHIC, o mais energético daquela época e depois abriu processos em San Francisco e Nova Iorque com o objetivo de cancelar os experimentos. Ele não teve sucesso, os experimentos continuaram e o mundo não acabou. O sisudo Sunday Times publicou a alarmante manchete "Máquina do big bang pode destruir a terra" e a New Scientist buscou um pouco de serenidade com Um buraco negro comeu meu planeta. Muito antes disso, no projeto Manhattan, quando foram explodidos os primeiros artefatos nucleares, o famoso relatório LA-602 garantia que as explosões não iriam causar a ignição da atmosfera assim destruindo a vida na terra.
Um dos objetivos dos experimentos do LHC é recriar as condições do universo frações de segundo após o big bang, e dessa forma testar modelos da para a natureza e mesmo desafiar nossa compreensão da realidade física. Por exemplo, as equações de Maxwell, que descrevem os campos eletro-magnéticos precisariam ser modificadas se existirem monopolos magnéticos, até hoje nunca detectados. A construção do LHC já dura 14 anos tendo custado mais de US$ 8 bilhões.
Cientistas causando o fim do mundo ou criando monstros incontroláveis consiste em um tema recorrente na ficção. No best-seller Anjos e Demônios de Dan Brown uma garrafa contendo antimatéria (obtida justamente no CERN) é roubada e ameaça destruir o mundo.
Obviamente a sociedade deve interagir com a comunidade científica quanto a aspectos éticos da pesquisa, como é o caso da discussão atual sobre células-tronco no STF. Um experimento que pode destruir o mundo é sem dúvida um caso a ser discutido. Por outro lado, para formar opinião é fundamental estar corretamente informado e ter uma formação científica mínima. O Sr. Wagner formou-se em Berkeley em Biologia com um minor em Física. Mas ele ao mesmo tempo delira quando diz ter no início de sua carreira descoberto uma nova partícula inicialmente identificada como um monopolo magnético em um experimento com raios cósmicos em um balão, mas concede que há controvérsias sobre o assunto. Talvez ele tema que a ainda que improvável descoberta de um monopolo magnético torne o seu próprio ainda mais nebuloso. De acordo com o Hawaii Tribune Herald (precisa se registrar para ter acesso) Wagner e sua esposa foram indiciados por roubo de identidade em um processo local.
Como acontece freqüentemente nesses casos, conceitos científicos se misturam com vontades, medos e fantasias para criar uma paranóia coletiva baseada apenas na desconfiança generalizada sobre os cientistas e seus procedimentos. Esse é o mesmo ingrediente que leva incautos a terapias complementares e alternativas. No caso do LHC nem precisa invocar energias vitais, forças místicas ou a quinta dimensão.
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