sábado, 10 de maio de 2008

Parceria

A partir de hoje Cultura Científica passa a contar com a colaboração do Milton Lopes Filho, colega de Unicamp e companheiro na luta por uma sociedade mais letrada. Para o leitor isso significa a possibilidade de formar opinião também a partir de uma visão diferente, um estilo de escrever diferente, sempre com o objetivo de discutir assuntos relevantes relacionados à cena da ciência.
Benvindo Milton!

Ciência no Discurso Político

Eu ainda era criança, talvez estivesse no mestrado, quando me deparei com o filósofo Paul Feyerabend (1924-1994). Seu principal livro: “Contra o Método” (1975), traduzido pela Editora da UNESP em 2007, soa como uma escandalosa (e divertida) invectiva contra a ciência ocidental e a comunidade científica em geral. De maneira geral, Feyerabend retrata a ciência como uma grande conspiração, em que resultados são fabricados para dar aos cientistas acesso a fundos e prestígio, enquanto um grande cobertor de silêncio conspiratório encobre toda a trama do olhar do público. É claro que ler estas idéias, escritas com toda seriedade em um livro era, digamos, um pouco preocupante para um jovem cientista em treinamento. Contudo, o tom geral era tão estridente, que era natural desqualificar Feyerabend como um semi-desvairado e ficar por isso mesmo.

Algo como vinte e tantos anos depois, peguei de novo um livro de Feyerabend para ler num avião, e muito para minha surpresa, me vi gostando muito do argumento, e concordando com a maior parte do que ele estava dizendo. O livro em questão não era o “Contra o Método”, mais panfletário, mas sim o “Science in a Free Society” (1978), que não creio ter sido traduzido para o português. Finalmente eu entendi que o Feyerabend não era nem um pouco “anti-ciência”. A invectiva dele era contra o uso da racionalidade científica para esvaziar questões essencialmente políticas. A preocupação dele, formulada nos anos setenta, mas ainda bastante atual, era o uso da credibilidade da ciência e dos cientistas para declarar uma certa posição essencialmente política de “racional” ou “científica” e classificar todo mundo que discordasse como “irracional”. Isto colocava a comunidade científica como interlocutor privilegiado em qualquer debate, por ser a detentora primordial da “verdade”. Este papel de detentor privilegiado da verdade pertencia historicamente às religiões organizadas, que, aliás, gostariam muito de continuar ocupando este papel. Veja-se, por exemplo, o tom dos debates sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisa e sobre descriminalização do aborto. De fato, na sociedade mais democrática e pluralista de hoje em dia, muitos grupos buscam essa posição privilegiada de donos exclusivos da verdade: ambientalistas, patrulheiros ideológicos, grupos religiosos, e, por que não, cientistas também. Felizmente, com menos sucesso que antigamente.

O problema é que deslocar a ciência para o centro de debates políticos, além de ser uma tentativa de sabotar o debate, também desvirtua a ciência, transformando-a em pseudo-ciência. Por duas razões essenciais: a verdade científica é sempre transitória, provisional, sujeita à revisão a qualquer momento que novos fatos assim exigirem. Tornar os fatos científicos em certezas pétreas e exagerá-los com fins retóricos é distorcê-los a ponto de torná-los, sim, em pseudo-ciência. Um exemplo disso é o filme “Uma Verdade Inconveniente”, que rendeu a Al Gore um Nobel e um Oscar ano passado. Apesar de nobre em intenções e brilhante em execução, aquele filme é uma peça de propaganda política e pseudo-ciência alarmista semelhante, sob certo aspecto, a uma exposição sobre os benefícios da homeopatia. A segunda razão é algo mais sutil, mas igualmente importante. A ciência tem uma tensão conceitual irremovível com a mais importante das ferramentas da política – o bom senso. A razão disso é que a ciência só se realiza plenamente quando ela descobre o que não é óbvio, o que não está aparente. Além disso, a natureza da verdade cientifica tende a ser aplicável em situações altamente idealizadas, com ruídos e efeitos complexos removidos ou reduzidos, o mais longe possível da complexidade intrínseca à mais simples das interações envolvendo seres humanos. Retirar a ciência de seu ambiente natural no laboratório e nos sistemas naturais mais simples, e tentar aplicá-la por analogia nas preocupações quotidianas das pessoas é uma outra forma perniciosa de pseudo-ciência. Um exemplo disso é a prática de psicólogos, educadores e outros acadêmicos, que pretendem ensinar a pais e professores como educar crianças. Pesquisa sobre desenvolvimento neurológico, sobre aquisição de linguagem e desenvolvimento emocional e social são assuntos fascinantes, e frequentemente constituem-se em ótima ciência. Mas muito pouco de útil têm a dizer sobre as atividades de pais e professores.

Em resumo, para além de irracionalidade disfarçada de ciência, o rótulo pseudo-ciência aplica-se igualmente bem à ciência legítima que tenha sido retirada de seu contexto, exagerada, distorcida por analogias falaciosas e utilizada como borduna política , social ou econômica. Em seu lugar apropriado, a ciência pode subsidiar discussões, mas, carecendo de absolutos, não pode substituir ou tornar obsoleta a discussão.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Espiritualidade Quântica

Enquanto na maioria das universidades o Centro ou Diretório Acadêmico está mais preocupado com atuação político-partidária ou com invadir a reitoria, na Unifesp o Diretório Central dos Estudantes tem um Departamento de Cultura Científica (DCC). Ótima notícia. Cultura Científica é um assunto no qual temos sérias deficiências e por isso as pseudo-ciências ocupam um espaço tão importante.
No entanto, provavelmente levado pela ingenuidade e inexperiência, o DCC está se deixando seduzir por atividades que promovem a pseudo-ciência e a anti-cultura científica.
O DCC está promovendo de 4 a 7 de junho próximos na Unifesp o II Simpósio e V Congresso Nacional Universitário de Saúde e Espiritualidade. O evento é apoiado entre outros pelo NUSE - Núcleo Universitário de Saúde e Espiritualidade da Unifesp e pela AME - Associação Médica Espírita. Ele começa com o Simpósio "A saúde sob a visão do paradigma quântico" e continua com o Congresso "A Interface entre a Mente, o Cérebro e a Espiritualidade". Neste post concentro-me no Simpósio, mas não posso deixar de mencionar uma das palestras do Congresso: "Achados das Neurociências sobre os Estados de Consciência Ampliados: prece, caridade, meditação, transe, glossolalia e hipnose" . Certamente o palestrante Dr. Júlio Peres discorrerá sobre a célebre fraude ocorrida na Columbia University em 2001. Uma equipe incluindo o obstetra nascido no Brasil Dr. Rogério Lobo conseguiu burlar o sistema de revisão por pares (ver post anterior. Eu avisei que o processo não é infalível!) da prestigiada Journal of Reproductive Medicine e publicou um estudo indicando que rezar por alguém dobrava as chances de sucesso de procedimentos de fertilização in vitro desse alguém, o que na época chamou a atenção da literatura especializada. Resultado extraordinário, que merecia uma comprovação extraordinária. Em lugar disso uma fraude nos dados foi descoberta. O resultado verdadeiro (que provavelmente será enfatizado pelo Dr. Peres) é que preces têm pouca ou nenhuma influência a saúde, e essa influência é negativa. Em 2004 os nomes do Dr. Lobo e da Columbia University foram excluídos do artigo em circunstâncias nunca satisfatoriamente esclarecidas quando outro autor foi condenado a 5 anos de prisão por fraude financeira.
Melhor falar sobre o Simpósio, mais próximo de minha área de formação. Após uma apresentação artística (ótima maneira de abrir um simpósio, em lugar das enfadonhas palestras de abertura), teremos a palestra "Correlações entre Saúde, Física Quântica e Espiritualidade" pelo Dr. Fábio Nasri. Uma consulta ao Google Acadêmico revela que infelizmente nenhum de seus artigos trata desse assunto. Pena, pois eu fiquei curiosíssimo com o título da palestra. Será que as correlações de que ele fala têm a ver com a coerência da função de onda da Física Quântica? E a espiritualidade sofre efeitos de difração como os elétrons?
A próxima palestra é ainda melhor. "O Espírito sob o ponto de vista da Mecânica Quântica", proferida pelo Prof. Dr. Wladimyr Sanchez. Dessa vez o Google Acadêmico revela o perfil de um engenheiro hidráulico especialista em saneamento com 26 publicações em português e uma em inglês. Pelo Google é possível descobrir que ele é o presidente do Instituto de Pesquisa e Ensino de Cultura Espírita (IPECE) , autor de pelo menos 5 livros sobre espiritismo. Mais impressionante, ele é físico formado pela USP, engenheiro mecânico formado pela Universidade Mackenzie, engenheiro nuclear, formado em Oak Ridge, USA, engenheiro civil, pela UNESP. É Mestre e Doutor em Ciências, pela USP e PhD em Gerenciamento de Recursos Hídricos, pelo MIT, USA. Uau.
Como será a mecânica quântica dos espíritos? Difícil saber, mas podemos especular. Os espíritos apresentam várias propriedades quânticas. Por exemplo, o hábito de aparecer e desaparecer pode ser interpretado como o colapso da função de onda no momento de uma medida (sobre medidas em Mecânica Quântica, ver o post sobre Amit Goswami) . Os espíritos têm sua função de onda confinada a castelos, que podem ser pensados como poços de potencial e podemos até estimar a probabilidade de o espírito escapar por tunelamento e aparecer em outro lugar. Dado o tamanho típico de um castelo pode-se estimar a incerteza no momento espiritual, e por aí vai. Estou propositadamente fazendo uma confusão conceitual entre espíritos e mecânica quântica. A mecânica quântica não se aplica ao estudo de espíritos, pelo simples motivo que espíritos não são entidades físicas.
O simpósio continua com "Fisiologia Transdimensional" por Dr. Décio Iandoli Jr. (para sair da pseudo-mecânica quântica e entrar na pseudo-relatividade) e depois segue com "O uso do Pensamento Quântico para a Saúde integral" pelo meu xará Dr. Leandro Romani de Oliveira, que provavelmente explicará o que significa "pensamento quântico". É um conceito que não faz parte dos paradigmas da mecânica quântica.
Esse pessoal provavelmente andou assistindo "Quem somos nós?", o docudrama místico-quântico ou "O Segredo". A maioria deles, senão todos, é de alguma forma ligada ao espiritismo ou a entidades espíritas. É possível ver fotos de vários na página do I British Congress on Medicine and Spirituality, curiosamente hospedado no site da AME brasileira.
Não há nada de errado na existência de congressos e simpósios como esse. No entanto, a UNIFESP não deveria abrir espaço para esse tipo de atividade. Ciência e espiritismo são coisas diferentes. A UNIFESP é conhecida e respeitada pelo alto padrão da ciência lá produzida e não deveria emprestar essa credibilidade a atividades mistificadoras que só criam confusões conceituais e pseudo-ciência. Assim como os cientistas não devem ir aos templos espíritas para colocar em dúvida as crenças dos espíritas, os espíritas não devem tentar confundir suas crenças com ciência, que elas não são.
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