quarta-feira, 29 de outubro de 2008

I EWCLiPo

Ocorrerá dias 11 e 12 de dezembro próximos o I Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa - I EWCLiPo. A realização do encontro é um sinal muito positivo para nós que dedicamos parte de nossas vidas à divulgação científica através dos blogs. Parabéns ao Osame Kinouchi, do SemCiência pela iniciativa.
Eu estarei lá.

domingo, 12 de outubro de 2008

Picaretagem quântica lusitana atacando em terras d'além mar

Há poucos dias uma pessoa próxima me disse que ia a São Paulo submeter-se a um exame através de um "scanner" para diagnóstico desenvolvido pela NASA. Essa pessoa vem sofrendo de dor crônica e não gosta da idéia de submeter-se ao tratamento proposto pela medicina.
O tal scanner esteve em exibição no VIII Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida.
A existência de um tal aparelho e a menção à NASA despertaram meu ceticismo. Aparelhos sérios são apresentados em artigos científicos e em encontros profissionais, não congressos de qualidade de vida.
Quando eu era menino o sucesso das missões Apollo conferiram à NASA uma aura de engenharia (na época eu pensava que era ciência, mas hoje entendo que tratava-se de engenharia) de primeira qualidade. Tudo o que vinha da NASA devia ser de fronteira, muito bom. Afinal, eles conseguiram por muitas vezes mandar gente à lua e trazê-los de volta à terra em segurança. Nos últimos anos a NASA passou por crises gerenciais que culminaram nos acidentes fatais com os ônibus espaciais e mesmo de razão-de-ser (é realmente necessário mandar gente para o espaço?). Mesmo assim, José Joaquim Lupi, um engenheiro português deve pensar que a NASA ainda é um carimbo de qualidade tecnológica e decidiu adotá-lo em sua fraude.

Trata-se do SCIO (Scientific Consciousness Interface Operations) / QXCI (Quantum Xrroid Conscience Interface). Segundo a página da Neuroquantum, empresa que produz e vende a engenhoca, ela foi mesmo "desenvolvida por cientistas que trabalharam na NASA , com base nos sistemas de monitorização bio-energética dos astronautas". Monitorização bioenergética dos astronautas? Sejamos sérios... Tem mais:

Como funciona? "Depois do SCIO/QXCI ter medido os níveis de Vitaminas, amino ácidos, nutrientes, alimentos, minerais, enzimas, açucares naturais, toxinas, niveis hormonais, tónus muscular, doenças, bactérias, bolores, fungus, virus,bem como o estado de saúde e o equilibrio dos orgãos internos, então compara estes valores com uma “norma”. Revela tanto os aspectos negativos como tambem os aspectos positivos. No entanto, para tentar melhorar e revitalizar a saúde, temos tendência a focalizar-nos mais nos aspectos negativos, do que nos positivos. Em alguns casos vai acrescentar frequências,e noutros casos pode invertê-las para ou reforçar, ou contrapôr às resonâncias próprias do corpo."
Como ele obtém toda essa informação? "O SCIO liga-se ao cliente através de bandas colocadas estrategicamente na testa, pulsos e tornozelos."
Qual o princípio de funcionamento? "Por que o SCIO/QXCI se baseiam na Fisica Quântica, é dificil explicar muito brevemente como funcionam estas terapias. Durante a terapia , o SCIO/QXCI, medem os padrões de resonância/reactância do corpo e determinam que melhoria ocorreu no periodo de tempo decorrido desde a ultima medida (menos de 1 segundo antes). Se se verifica uma melhoria a ressonância de entrada é alterada energéticamente. Mantêm-se cada parâmetro benéfico enquanto for útil, e adapta-se á medida das necessidades detectadas. Para mais informação e melhor compreensão, a Internet oferece extensa informação sobre Física Quântica."
Quanto custa? "Atualmente 15 mil euros excluindo impostos."

Ah, bom, agora entendi. Vou tentar traduzir: Trata-se provavelmente de um medidor de bio-impedância conectado a um computador que pretende a partir disso medir os níveis de todos aqueles ingredientes citados acima. Claro que isso não é possível. Não tem com explicar, não porque os princípios se baseiam na física quântica, mas simplesmente porque não tem explicação mesmo.
Há mais (des)informação na página da Associação Ibero-Americana de Terapias Quânticas, fundada e presidia pelo próprio Lupi e no Instituto Neuro Quantum, presidido adivinhem por quem, e ainda na Bioquantica.

Pode piorar? Claro que sim, pois uma fraude nunca limita-se a uma engenhoca. A "tecnologia" teria sido criada pelo "Prof Dr William Nelson". Tem uma suposta biografia dele no blog Medicina Quântica, que foi traduzida do The Quantum Centre. Toda essa biografia é uma fraude, como mostrado no ótimo Occam's Donkey, uma mistura da navalha de Ockham com o burro do Shrek. Há material sobre o Sr. Nelson também no Bad Science.
Um artigo no Seattle Times levantou em novembro de 2007 muito sobre a verdadeira biografia do picareta. Citando o artigo:
"Nelson faz afirmações extraordinárias sobre sua vida. Ele diz ter trabalhado como consultor para a NASA, ajudando a salvar a problemática missão Apollo 13 quando ainda era adolescente. Ele orgulha-se de ter sido um ginasta reserva na equipe olímpica americana em 1968. Ele afirma ter 8 doutorados, incluindo em medicina e direito. Seu CV foi obtido pelo Seattle Times.
Nada disso pode ser verificado. A NASA não tem registro algum de seu emprego. Ele não foi um atleta olímpico. Seus "doutorados" vêm de universidades não reconhecidas nos EUA ou de cursos por correspondência.
O Seattle Times relata vários casos em que pacientes com câncer foram convencidos por charlatães que se utilizam de aparelhos SCIO/QXCI a substituir seus tratamentos médicos pela SCIO/QXCI, resultando em mortes inevitavelmente dolorosas. Eles provavelmente morreriam de qualquer forma, mas os charlatães retiraram deles qualquer esperança de sobrevivência. O marido de uma das vítimas é um diretor aposentado da Microsoft e analisou o código-fonte do software. Ele gera resultados ao acaso. Uma fraude completa.
Obviamente Nelson teve problemas com a FDA, a agência americana que regula esse tipo de equipamento. Ele foi condenado em 9 processos e fugiu dos Estados Unidos. Hoje ele vive em Budapest, de onde controla seus negócios e também se apresenta no Club Bohemian Alibi com o nome artístico de Desiré Dubounet. É isso mesmo, nosso genial inventor faz um biquinho como travesti depois do expediente. Os 15 mil euros por máquina aparentemente não são suficientes para garantir o leitinho das crianças.

Que podemos esperar do senhor Lupi, representante luso do grande Nelson/Dubounet? Filho de peixe peixinho é, diz o ditado. Uma rápida olhada em seu currículo revela um amontoado de fraudes. Ele é supostamente professor/autor da Faculdade Integrada da Grande Fortaleza, que ficou na posição 574 na categoria "Outros" do Indice Geral de Cursos divulgado pelo MEC. Não é bem um brilho acadêmico. Na verdade muito ruim. Lá eles oferecem os seguintes cursos de extensão a distância: Anatomia, Especialista em Biofeedback SCIO, Fisiologia, Terapias Quânticas, Profissional avançado de biofeedback SCIO, Técnico de aplicação profissional de biofeedback SCIO, Técnico de operação e navegação e Educador quântico.
Oba, vou me formar Educador quântico!!! Ou quem sabe em Anatomia a distância?
O Sr. Lupi diz ser "SCIO / QXCI Advanced TRAINER" formado pela IMUNE, ou International Medical University of Natural Education. Na página institucional em lugar de medicna encontramos trailers de vários filmes sobre a gloriosa vida do "Professor" Bill Nelson, inventor do SCIO / QXCI.
O senhor Lupi oferece certificação em SCIO (até o nível de master!), com uma lista de pessoas certificadas que inclui brasileiros! Pela lei brasileira não cabe ao Sr. Lupi certificar profissionais de saúde quaisquer que sejam.

Espero que os conselhos profissionais brasileiros e portugueses tenham o bom senso de evitar em nossos países o que ocorreu nos Estados Unidos. Gente que usa o SCIO para diagnóstico e tratamento deve ser punida por exercício perigoso e ilegal de profissão da área da saúde.

Agradeço à Lygia por ter me falado sobre o "scanner desenvolvido na NASA". Esse foi um dos posts mais surpreendentes que já escrevi.

PS: Depois de escrever esse texto descobri que há vídeos do próprio senhor Lupi mostrando sua máquina quântica milagrosa no You Tube.
Ele afirma coisas desse teor:
"A função dessa terapia quantica é permitir levar de novo o ser humano a sua dimensão integral de corpo, mente e espírito.
O diagnóstico é feito pelo corpo energético. Então o corpo elétrico da pessoa, através da sua reatividade eletrofisiológica medida nos níveis mais inconscientes, nos meridianos de acupuntura, no sistema nervoso autônomo e até na reatividade do cérebro vai permitir um diagnóstico completo, rápido.
O princípio do reequilíbrio bioenergético, tocando os quatro níveis de cura do ser humano: físico, emocional, mental e energético, permite tocar todo o tipo de perturbação de saúde e bem estar. A terapia quantica, ao entrar na base da essência do quantum, que está na base de tudo, vai permitir inter-relacionar os aspectos físicos, mentais, emocionais e energéticos da pessoa e então levar uma abordagem integrada que é mais rápida e definitiva."


Desnecessário dizer que isso é um monte de frases sem sentido mas que impressionam os incautos. O corpo energético, o corpo elétrico, a reatividade eletrofisiológica, os quatro níveis de cura, a base da essência do quantum...
Pra piorar, no vídeo aparece a célebre equação E=mc2. O único problema é que essa equação é uma expressão relativística, que não tem absolutamente nada a ver com mecânica quântica. Desconfio que a compreendsão que o Sr. Lupi tem de mecânica quântica seja bastante limitada.

Grave mesmo é ele afirmar que seu equipamento "permite tocar todo o tipo de perturbação de saúde e bem estar". Vender um aparelho que cura todos os males tem um nome, que é o mesmo em português do Brasil e de Portugal: charlatanice.

Prefeitura astrológica

Uma notícia no mínimo curiosa chamou a atenção depois das eleições 2008 no Brasil: A influência dos astros na política. Em Recife, tanto o prefeito que sai João Paulo quanto o prefeito eleito no primeiro turno João da Costa são adeptos da astrologia e mantiveram até uma assessoria astrológica para consulta. O trabalho foi comandado pelo astrólogo Eduardo Maia, que há cinco anos e meio opina sobre a gestão do prefeito, no cargo desde 2001. Maia é astrólogo profissional, professor de Astrologia, fundador e diretor da Academia Castor & Pólux, pesquisador e conferencista nas áreas de astrologia, simbologia, mitologia, cinema, teatro, poesia e arte tradicional. A Academia Castor & Pólux, segundo o gabinete do prefeito de Recife, "é uma das mais antigas do país e trabalha na reconstituição da astrologia enquanto ciência, arte e conhecimento tradicional, partindo do estudo do simbolismo contido em várias áreas do saber humano."
Qualificar astrologia como ciência é no mínimo equivocado. Talvez alguns astrólogos a percebam assim, mas isso ocorre apenas porque essas pessoas não sabem o que é ciência. A confusão aumenta porque em astrologia se mistura pensamento positivo com conhecimento científico da astronomia observacional. Os astrônomos usam conhecimento científico para determinar com alguma precisão a posição dos astros. Quando Eduardo Maia afirmou, por exemplo, que Urânio entrou em Aquário, ele na verdade utilizou conhecimento científico para determinar a posição de Urânio no céu. Talvez ele não saiba, mas só é possível fazer esse cálculo porque muita gente observou muitos astros no céu e registrou suas posições durante séculos. Foi preciso entender as leis da gravitação para poder formular esses softwares que os astrólogos usam para determinar a posição dos astros a qualquer momento em qualquer lugar do planeta.
Astrologia não é ciência, é . Seus praticantes acreditam que a posição dos astros tem influência sobre o que acontece na nossa vida, sem nunca terem tido evidência alguma para isso ou proporem um mecanismo pelo qual isso ocorre. Quem nunca esteve numa conversa em que alguém pergunta seu signo? Ao responder segue-se inevitavelmente o comentário "Claro, óbvio, agora entendo você". Durante um tempo eu passei a dizer o signo que me passava pela cabeça ao acaso. Curiosamente o comentário era sempre "Claro, óbvio, agora entendo você". As supostas características de cada signo são suficientemente gerais para abraçar todo mundo. Tem mais sobre o assunto aqui.
João da Costa votou exatamente às 12:05h, momento determinado pelo astrólogo no qual uma conjunção astral lhe seria particularmente favorável. Chegou a pedir para que as pessoas na fila lhe deixassem passar. O candidato acreditou que votando às 12:05h sua chance de ser eleito seria maior. Ele efetivamente foi eleito no primeiro turno. Quem poderá convencê-lo que o efeito não se deve à causa que ele supõe, e que sua eleição é na verdade resultado de sua preferência popular e que ele poderia ter votado em qualquer momento do dia e o resultado seria o mesmo, independentemente dos humores de Urano?
Isso é o resultado de uma aplicação intuitiva e equivocada do método científico. Imaginemos que alguém levantasse a hipótese de que bananas são venenosas, porque alguém passou mal e morreu por alguma causa qualquer depois de comer bananas. Aí deixamos de comer bananas e continuamos vivos. "Confirmamos" nossa suspeita e passamos a acreditar que a hipótese da banana venenosa estava correta. Essa nossa conclusão, bananas são venenosas, não tem efeito importante algum. Sobrevivemos sem comer bananas, apesar de a vida perder um prazer imenso. Estabelecemos um falso positivo.
Para evitar cair nas ciladas dos falsos positivos é preciso entender o método científico. Verificar uma hipótese pode ser mais complicado do que imagina nossa vã filosofia. Infelizmente as pessoas em geral buscam validar suas crenças pela experiência cotidiana em lugar de desafiá-las.
Desejo sucesso à nova gestão de Recife, independentemente do que os astros lhe reservam...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Preço da Cura

A recente divulgação dos prêmios IgNobel 2008 chamou a atenção no Brasil pelo prêmio de Arqueologia atribuído a pesquisadores da USP que publicaram no periódico Geoarchaeology um artigo mostrando o quanto um tatu pode esculhambar um sítio arqueológico a ponto de falsear resultados. Trata-se de pesquisa séria, apesar do óbvio toque de humor. Os prêmios IgNobel são atribuídos a "pesquisas que fazem a gente rir, depois pensar." Não se trata de premiar a pseudo-ciência.
O IgNobel 2008 que mais me impressionou foi o da Medicina. Um estudo publicado em 2008 no prestigioso JAMA (Journal of the American Medical Association) mostrou uma face curiosa do efeito placebo: placebos supostamente caros apresentam um efeito placebo superior a placebos supostamente de baixo custo. Atribuimos maior eficácia a drogas mais caras. Os autores compararam dois grupos de 41 voluntários são cada um. Cada participante recebeu a informação de que testaria um novo analgésico opióide aprovado pela FDA, com efeito similar ao da codeína mas com ação muito mais rápida. Na verdade todos receberam um mesmo placebo. O grupo I foi informado que suas pílulas custavam US$2.50 cada. O grupo II foi infirmado que suas pílulas foram adquiridas com desconto, por US$0.10 cada. O estudo foi feito em duplo-cego, como devem ser feitos estudos de qualidade sempre que o efeito placebo pode estar presente.
A metodologia utilizada foi comparar a intensidade de dor devido a um choque elétrico aplicado a um pulso do voluntário em função da voltagem aplicada, até 80V (NÃO TENTEM REPETIR O ESTUDO EM CASA!).
O grupo que recebeu o placebo "caro" mostrou de forma consistente um efeito de analgesia (devido apenas à autosugestão pois não receberam analgésico algum) muito mais elevado do que o grupo que recebeu o placebo "barato". Para valores altos da voltagem aplicada inclusive o placebo "barato" não foi eficaz.
O resultado mais óbvio do estudo tem implicações importantes sobre a eficácia de medicamentos. Em muitos casos parte importante do efeito de um remédio está associado ao efeito placebo. Pessoas próximas (inclusive médicos) já me garantiram que medicamentos genéricos têm efeito mais fraco, apesar de terem exatamente o mesmo princípio ativo dos similares de marca. Isso provavelmente está relacionado à expectativa dos pacientes, associando qualidade à marca.
Outra conseqüência importante vai muito além de medicamentos: associamos qualidade a marcas de prestígio, e estamos dispostos a pagar mais por isso. É por isso que pessoas aceitam pagar preços muito mais altos para adquirirem produtos de marcas prestigiosas. O poder de sedução das marcas está arraigado em nossa percepção de qualidade. O efeito placebo é muito mais geral do que o que vivenciamos com medicamentos!
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