sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Criacionismo no Mackenzie de novo

O pai de uma aluna toma conhecimento de que as apostilas usadas na escola de sua filha apresentam o criacionismo como modelo para o aparecimento da vida na terra. O pai procura a direção da escola, que imediatamente substitui as apostilas por livros didáticos mais de acordo com a compreensão que a ciência tem do fenômeno. Nada de mais se o pai não fosse ninguém menos que Fernando Haddad, o Ministro da Educação. A escola era a unidade de Brasília do Instituto Mackenzie. A direção da escola depois minimizou o ocorrido, afirmando que a reclamação dizia respeito a erros gramaticais no material (isso só deveria deixar a direção envergonhada). A unidade de São Paulo continuou usando o material, como contado no Ciência em Dia.
O Instituto Presbiteriano Mackenzie é uma tradicional instituição educacional presbiteriana, presente no Brasil há mais de um século. As instituições presbiterianas, que incluem universidades de prestígio internacional como Harvard e Princeton se caracterizam pela liberdade para pesquisar qualquer tema, não sendo permitido qualquer tipo de censura por tradição ou crenças religiosas. Pelo menos assim deveria ser. No entanto, a direção do Mackenzie vem se deixando seduzir pelas idéias de alguns fundamentalistas cristãos norte-americanos e está se tornando uma das mais importantes vozes do criacionismo tupiniquim. Há pouco tempo realizaram um encontro sobre darwinismo que na verdade foi uma celebração do criacionismo e do Intelligent Design.
Não deixa de ser lamentável que uma instituição que representa uma tradição tão rica e importante para o desenvolvimento da cultura científica nos Estados Unidos e no mundo escolha um caminho tão obscuro. A ciência não se contrapõe à religião. Ela busca evidências e a compreensão dos fenômenos que nos cercam. Suas idéias não dependem da fé das pessoas. Por mais que alguém não acredite na evolução e na seleção natural, há evidências suficientes para que esse modelo esteja bem estabelecido. Não é uma questão de fé.
O que está errado com os criacionistas é adotar a interpretação literal dos textos sagrados de uma determinada religião como verdade absoluta. Isso é perigoso quando passa para os textos didáticos pois começa a mexer com cabeças em formação.
Alguém consegue imaginar como seriam as apostilas do Mackenzie se ele fosse uma instituição umbandista? Ou do candomblé?

sábado, 13 de dezembro de 2008

Tabula Rasa

Em 1994, o lingüista do MIT Steven Pinker publicou um livro intitulado “The Language Instinct”, cujo tema central é uma discussão ampla da capacidade humana para a linguagem. A questão central é entender que o milagre aparente da aquisição da linguagem por uma criança humana é, de fato, a operação de um órgão complexo, alicerçado na fisiologia do cérebro e desenvolvido pela evolução. Dá para argumentar que o desenvolvimento deste “órgão lingüístico” é o fato central da evolução humana, ou seja, que a operação deste órgão é a característica mais distinta do acidente evolucionário que conduziu à aparição do bicho homem.

O funcionamento do órgão de linguagem é um assunto científico extremamente relevante e interessante. Ele representa a junção de diversas tradições científicas importantes, principalmente de neurofisiologia, de lingüística e de psicologia cognitiva, com aplicações no tratamento e compensação dos distúrbios da linguagem e na educação. Este estudo representa também um ponto de vista bastante ilustrativo sobre o que nos faz humanos.

A voz do autor do “The Language Instinct” é de um pesquisador apaixonado pela sua área, que vê no progresso alcançado pela sua disciplina um achado valioso, que pode e deve ser amplamente divulgado. Houve uma reação negativa considerável ao livro de Pinker, veja, por exemplo, o sítio do livro “The Language Instinct Debate” na amazon.com e o debate associado a ele. É claro que os criacionistas de plantão são bastante hostis às idéias exploradas por Pinker. Contudo, as críticas mais azedas vieram de uma outra direção – da comunidade de ciências humanas e sociais. O problema é muito simples. De maneira geral, as ciências humanas e sociais do século XX são construídas sobre um modelo bastante específico da natureza humana, e a proposta de um “instinto de linguagem” parece ser um ataque violento aos alicerces deste modelo.

Em 2002, Pinker publicou um outro livro, “The Blank Slate”, ou “Tabula Rasa” que é primariamente uma resposta a todo o ultraje suscitado pelo “The Language Instinct”. De fato, o objetivo do livro de Pinker é delinear cuidadosamente as hipóteses por trás deste modelo hegemônico de natureza humana das ciências sociais, explorar suas origens históricas e contrapor argumentos racionais, ao que é, em última análise, uma construção de natureza ideológica e política. O autor de “The Blank Slate” é zangado e ácido, muito menos simpático que o autor do “The Language Instinct”, mas sua argumentação continua a ser bastante efetiva.
De acordo com Pinker, o modelo padrão das ciências sociais inclui três hipóteses centrais:

1) Tabula Rasa: o cérebro humano é um instrumento computacional que emerge do útero sem nenhuma estrutura a priori, e é completamente formado pelos condicionantes sociais operantes após o nascimento.

2) O Bom Selvagem: os seres humanos são intrinsecamente bons, e são corrompidos pela sociedade.

3) O Fantasma na Máquina: o locus da livre-escolha, independente e desvinculado da biologia humana.

Colocadas desta maneira, essas três hipóteses são obviamente absurdas. Em particular, elas rejeitam o papel criativo da evolução e dos condicionantes biológicos da natureza humana, e representam, de fato uma negação completa do que significa ser humano. Mais ainda, essas hipóteses absurdas estão refletidas em muitas das práticas modernas em política, nas leis, na educação e nas práticas sociais de governos e instituições. É curioso observar que muitas das práticas sociais vigentes, aquelas que parecem mais sem sentido e contrárias ao senso comum estão formalmente apoiadas nesta negação sistemática da natureza humana feita pelas ciências sociais do século XX. Tome, por exemplo, o discurso hegemônico sobre a natureza das instituições penais – em que todos os “especialistas” concordam na mais absoluta essencialidade dos mecanismos de resgate e resocialização dos presos. Isto é algo que todos sabem, pela mais elementar experiência com pessoas, ser quase inteiramente irrelevante.
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