sábado, 28 de fevereiro de 2009

Vitamina C e cama!

Quando eu era jovem lá pelo início dos anos 70 passava na TV (em preto e branco) o comercial de um medicamento para gripe e resfriado. Uma pessoa espirrava, uma voz dava o diagnóstico:"Resfriado?!". A outra rebatia com "É gripe!" e logo iniciava uma discussão entre as duas sobre qual o procedimento a ser seguido. A primeira voz sugeria "Vitamina C e cama!", a outra "Analgésico!". A discussão continuava com cada um repetindo sua receita até que uma terceira voz apontava a solução para o conflito: Coristina, "que é analgésico, contém vitamina C e ainda por cima é descongestionante". Logo tocava o jingle grudento que dizia "Deixe sua gripe na farmácia, e troque por Coristina!".
Os tempos mudaram. Hoje em dia Coristina virou Coristina d e não contém mais vitamina C. No entanto o mesmo laboratório comercializa Coristina Vitamina C, aproveitando-se da crença ainda largamente disseminada de que uma suplementação de vitamina C previne ou mesmo trata gripes e resfriados. Só tem um detalhe: Na bula da Coristina Vitamina C não há menção a gripes ou resfriados, mas diz que a vitamina C está indicada como:

- suplemento vitamínico auxiliar do sistema imunológico e como antioxidante;
- suplemento vitamínico na convalescença;
- para a suplementação de vitamina C na gestação e aleitamento;
- para a suplementação de vitamina C na cicatrização.

Outra marca comercial de vitamina C, Redoxon recomenda seu produto apenas nos casos de:

Carência de Vitamina C (pré-escorbuto, escorbuto, doença de Moeller-Barlow). Sintomas principais: petéquias, equimoses, edema e sangramento das gengivas, hiperqueratoses acompanhadas de obstrução dos folículos pilosos e manifestações da síndrome de Sjögren. Quando ocorre agravamento da carência, surgem manifestações psíquicas (histeria, hipocondria, depressão).

Uma terceira marca popular, Cebion começa bem mas logo passa às indicações duvidosas:

Para rápida correção de estados carenciais de vitamina C; como estimulante das defesas orgânicas nas épocas de maior perigo de infecção; para suprir o aumento das necessidades que ocorrem em estados normais (gestação, lactação, atividade desportiva, trabalho intenso) e patológicos (doenças infecciosas e estados febris).

Gripe é uma infecção viral que tem os seguintes sintomas: febre que começa rapidamente, calafrios e suor, dor de cabeça, dores nos músculos e articulações, tosse seca, fatiga, perda de apetite, náusea. Na maior parte das pessoas com um sistema imunológico saudável a gripe passa em uma ou duas semanas, sem que façamos nada. Recomenda-se que pessoas com gripe bebam bastante líquido e se necessário usem analgésicos, antitérmicos e descongestionantes (olha a Coristina D aí, gente!) para reduzir os sintomas. Resfriados podem ser causados por mais de uma centena de vírus e em geral apresentam sintomas similares mas mais brandos. Os resultados com medicamentos antivirais para essas doenças são discretos e não justificam sua ingestão. A única maneira reconhecida de prevenir a gripe é a vacina, que devido às constantes mutações dos vírus deve ser repetida anualmente.

Então por que tanta gente usa altas doses diárias de vitamina C para prevenir gripes e resfriados?

A resposta passa obrigatoriamente pelo genial químico norte-americano Linus Pauling. Pauling foi a única pessoa na história a receber o prêmio Nobel sozinho duas vezes, um de química em 1954 por ter usado a mecânica quântica para elucidar a natureza da ligação química e outro da paz em 1962. Apesar dessa carreira invejável (além disso ele quase acertou a estrutura do DNA nos anos 50) a partir dos anos 60 ele passou a disseminar a idéia de que a ingestão diária de mega-doses de vitamina C combateria ou mesmo previniria gripes e resfriados. Essa idéia foi defendida de maneira entusiástica por Pauling até o final de sua vida. Essa idéia nunca foi demonstrada cientificamente, mas ganhou a cultura popular. É comum ainda hoje encontrarmos pessoas que ingerem vitamina C não para tratar do escorbuto, doença ligada a sua carência que dizimava marinheiros no século XVI, mas contra gripes e resfriados.

O mais completo estudo sobre vitamina C e resfriados, Vitamin C for preventing and treating the common cold foi publicado em 2007 no Cochrane Database Systematic Review , um compêndio que tem o modesto objetivo de sistematizar TODO o conhecimento médico do mundo. Conclusão do meta-estudo colossal, envolvendo 11350 participantes e seguindo critérios de qualidade em relação aos dados primários: "O insusesso da suplementação de vitamina C para reduzir a incidência de resfriados na população normal indica que profilaxia de rotina por mega-doses não se justifica racionalmente para uso pela comunidade. No entanto as evidências sugerem que ela pode se justificar em pessoas expostas por breves períodos de exercícios severos ou frio."

Ou seja, na próxima vez que você tiver uma gripe ou resfriado pode até tomar vitamina C. Nesse caso você estará curado em uma a duas semanas. Se não tomar provavelmente estará curado em 7 a 14 dias... Mas não deixe de ingerir muito líquido e ficar em repouso!

Este é o primeiro de uma série de textos sobre vitaminas que pretendo publicar aqui.





Creative Commons License
Os direitos de reprodução de Cultura Científica são regulados por uma Licença Creative Commons.