segunda-feira, 16 de março de 2009

Acupuntura, um tratamento milenar?


No meio do caderno de tv&lazer do Estadão dos domigos há um anúncio de página inteira de um acupunturista.  Começa com a afirmação Tratamento Milenar ao lado de um daqueles símbolos Yin-Yang. Não bastasse a hilária observação Fala Português junto ao nome do Prof. Liu, para mostrar que é coisa séria está seu número 36325 de matrícula no CRT. CRT? Conselho Regional de Terapeutas? Eu achava que essa profissão não tinha conselho... 
E não tem mesmo: Segundo o SINTE, Sindicato dos Terapeutas, "CRT é a marca registrada que abrevia CRT - CARTEIRA DE TERAPEUTA HOLÍSTICO CREDENCIADO, a qual atesta a filiação ESPONTÂNEA do profissional ao SINTE - SINDICATO DOS TERAPEUTAS, o que resulta em compromisso contratual ao cumprimento dos requisitos éticos e qualitativos de seu órgão de classe." O próprio SINTE exclarece:"O fato do Terapeuta Holístico possuir ou não CRT - CARTEIRA DE TERAPEUTA HOLÍSTICO CREDENCIADO - ou estar filiado a qualquer entidade de nossa área, do ponto de vista legal, é irrelevante, uma vez que inexiste obrigatoriedade por Lei Federal.", ou seja, o número apresentado pelo Prof. Liu (assim como de todos os demais acupunturistas que o divulgam) não tem nada a ver com autorização para o exercício da profissão. É usual nas profissões regulamentadas na área de saúde os profissionais apresentarem seu número de registro junto ao conselho profissional, o CRM dos médicos, o CRO dos dentistas. No entanto, o CRT seguido de um número atesta a filiação a um sindicato. Com certeza as pessoas que registraram a marca CRT pensavam em CaRTeira, jamais em fazer os incautos pensarem que se trata de um Conselho Regional de Terapeutas Holísticos... A pseudociência agora inventou o pseudoregistro profissional!!!

O anúncio apresenta resultados de emagrecimento devido a tratamentos com acupuntura, mas esclarece: "Utilizando um método natural e sem medicação, a pessoa aprende a buscar o equilíbrio geral do organismo através da reeducação alimentar e da mudança de hábitos trabalhando com a ansiedade do paciente". Ou seja, além da acupuntura o prof. Liu prescreve uma dieta. Manter uma dieta é um exercício mental muito difícil, e é mais fácil motivar um paciente espetando agulhas e convencendo-o que é isso que o emagrece do que conversando. No entanto, não é a "liberaçào de pontos de gordura" devido à acupuntura que causa a diminuição do peso. 

Acupuntura é uma técnica de inserir e manipular agulhas muito finas em pontos específicos do corpo com fins terapêuticos ou para reduzir a dor. Segundo a hipótese da medicina chinesa tradicional, esses pontos ficam em meridianos por onde flui a energia vital Qi. Esses meridianos não correspondem a nenhuma estrutura anatômica no nosso corpo. Apesar de numerosos estudos, nunca foi demonstrado de forma convincente que a acupuntura tem um efeito maior que o placebo. Dez entre dez adeptos de Medicina Complementar e Alternativa recorrem à acupuntura ou suas variantes auriculares para os mais diversos fins. Seus praticantes como o prof. Liu a reverenciam como uma técnica milenar chinesa. Será?
Um artigo recente no Skeptic coloca em dúvida a idade e a origem da acupuntura. Estudando os documentos mais antigos disponíveis, o renomado sinólogo Paul Unschuld passou a suspeitar que na verdade a idéia da acupuntura pode ter se originado do grego Hipócrates de Cos e depois ter se espalhado na China. Os textos médicos chineses mais antigos (esses sim milenares), do século 3AC não a mencionam. Na verdade a tecnologia necessária para fazer agulhas finas de aço só passou a existir há aproximadamente 400 anos. O primeiro ocidental a mencionar a acupuntura, Wilhelm ten Rhijn, em 1680, não mencionou pontos específicos nem Qi. Através do início do século XX, nenhum relato ocidental de acupuntura menciona os pontos. As agulhas eram inseridas próximo ao ponto da dor. Qi era o nome que os chineses davam ao vapor que sai de comida quente. O francês George Soulié de Morant foi o primeiro a usar o termo "meridiano" e relacioná-lo à energia Qi em 1939.

Tudo indica que a acupuntura como é praticada atualmente não é milenar, provavelmente não é chinesa, e seus praticantes brasileiros apresentam um número de registro que não é de um conselho profissional. Mas afinal, para muita coisa não precisamos de mais que um efeito placebo...

quarta-feira, 4 de março de 2009

A Cultura Pop encontra a Cultura Científica

Essa eu encontrei no Pharyngula, e está também no simpático e ótimo Coletivo Ácido Cético.

Algumas manifestações da cultura pop fizeram história. Muito antes de inventarem os vídeoclips, lá por 1965, Bob Dylan, então com vinte e poucos anos fez um clip inesquecível pela linguagem visual, pela música e pela enigmática participação do poeta Allen Ginsberg, o careca barbudo que atravessa a rua no final.



Alguns anos mais tarde a banda britânica de rock-pop T-Rex apareceu com uma música pegajosa e meio brega chamada Children of the Revolution.



E o que acontece quando um grupo de alemães irreverentes, celebrando o Ano de Darwin propõe mudar a o feriado do Dia da Ascenção, que celebra o dia em que Jesus supostamente ascendeu aos céus para o Dia da Evolução? O resultado é o clipe hilário que mistura os dois anteriores.



Talvez fosse legal projetar esse vídeo na abertura do encontro que vai acontecer no Mackenzie, pra ir descontraindo o pessoal enquanto esperam o brilho criacionista...

Criacionismo no Mackenzie 3, a missão

A Universidade Presbiteriana Mackenzie adotou uma política de promoção de idéias obscurantistas que deve ser motivo de atenção pela comunidade científica e pelos que se preocupam com cultura científica. Em 2008 organizou o "I Simpósio Internacional Darwinismo Hoje", um evento que apesar do nome foi nada mais que uma celebração do criacionismo e do intelligent design. Comentei aqui no blog. Depois disso foram divugadas as apostilas para o ensino fundamental onde a criação divina era apresentada como explicação para a diversidade e "perfeição" da natureza. Comentei aqui no blog.
Agora está anunciado o "II Simpósio Internacional Darwinismo Hoje". Espero que a série pare por aí. 

Na apresentação há a justificativa para o evento:

O II Simpósio trata basicamente dos mesmos temas, mas avança um pouco, ao ampliar o número de palestrantes e debatedores representantes do Darwinismo, do Design inteligente e do criacionismo. Dessa forma, o Mackenzie procura manter o espírito da Academia como o local adequado para o debate, para o contraditório.

O grifo é nosso. Essa última afirmação faz parte da tática que os criacionistas e adeptos do intelligent design vêm usando no mundo todo. Equiparar sua leitura literal e fundamentalista da Bíblia judaico-cristã, em particular do Gênesis às descobertas da ciência e afirmando que a postura razoável e compatível com o "espírito da Academia" deve ser a do debate.
No entanto, devem ficar claro que isso é um argumento falacioso e mal intencionado. Não há espaço para debate científico quando não se aceitam evidências que contradizem suas idéias (na verdade idéias de quem escreveu as escrituras que eles adotaram como verdade absoluta). É comum criacionistas argumentarem que a terra tem menos de 6 mil anos, ainda que NENHUMA evidência aponte para essa afirmação exceto o Gênesis (que NÃO é e nem pode ser tratado como evidência). Recentemente num debate na TV o biólogo Mário de Pinna da USP afirmou com ótimo humor que "é impossível você achar que a história do universo tem menos do que o tempo de domesticação do cachorro".
A ciência é uma invenção humana. O Gênesis foi escrito muito antes de a humanidade criar a ciência ou o método científico. Trata-se sim de uma descrição da natureza e suas origens, feita a partir do que se conhecia na época em que foi escrito. Se fosse escrito hoje certamente seria diferente, evolucionista, compatível com o estágio atual do conhecimento.

Mais adiante na apresentação:

Não se pode mais, diante do avanço científico e das recentes descobertas da bioquímica, insistir-se numa única teoria como a explicação exclusiva da realidade. É necessário que todas as vozes sejam ouvidas nessas questões fundamentais, que tocam praticamente em todas as áreas do conhecimento e nos mais diversos setores da nossa vida.

De novo o grifo é meu. Existem dois tipos de teorias: as que correspondem aos fatos e as que não correspondem aos fatos. A ciência é uma metodologia para determinar quais as teorias que correspondem aos fatos e devem continuar sendo estudadas e quais as que não correspondem aos fatos e devem ser abandonadas. Não podem duas teorias contraditórias estar corretas. Devemos sim insistir em uma única teoria. Uma teoria que postule que os objetos caem para cima certamente desafia as observações experimentais e rapidamente é esquecida. O mesmo deveria ocorrer com o criacionirmo e o intelligent design.

Na apresentação dos palestrantes há um rótulo ao lado do nome de alguns deles, indicando a que religião pertencem: criacionista, evolucionista, Design Inteligente(que na verdade é uma forma de criacionismo). Curiosamente isso é omitido em alguns:
  • Paul Nelson, notório criacionista e membro do Discovery Institute. Ainda segundo a apresentação é "Autor de vários artigos científicos em revistas especializadas." O Dr. Nelson é efetivamente autor de vário artigos. Nenhum sobre criacionismo foi publicado em uma revista científica.
  • John Lennox, apologético cristão e criacionista, vem participando de debates em que argumenta em favor da existência de Deus.
A programação é mais do mesmo: equiparar visões religiosas a visões científicas.

Quais serão os resultados do Simpósio? Eles são perfeitamente previsíveis.
Do ponto de vista acadêmico e científico nenhum. Ocorrerá mais um debate em que um grupo adota uma posição pseudocientífica e recusa-se a aceitar qualquer idéia ou evidência que desafie (literalmente) sua Bíblia. Os fósseis não são evidências para eles, a datação radiométrica não é evidência para eles. Nenhum criacionista abandonará sua religião. O bom da ciência é que ela está, ao contrário, sempre pronta para avançar quando aparecem novas evidências. 
Do ponto de vista midiático, certamente ocorrerá a exposição de idéias religiosas travestidas de científicas. Para o pacato cidadão não há diferença entre uma revista científica séria e um pasquim criacionista, entre uma instituição de pesquisa científica e um instituto de divulgação do intelligent design. O criacionismo aparecerá como uma alternativa séria à teoria da evolução. No Brasil real, desafiar a palavra divina ainda é visto com maus olhos. Ponto para eles.

Sempre que a ciência é colocada no nível de crenças e superstições a humanidade perde. Não devemos prestigiar de eventos como esse. Não devemos cair na armadilha de um suposto debate aberto, franco e pluralista. Não é isso que vai ocorrer no Mackenzie.
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