sábado, 10 de outubro de 2009

Hierarquizar a blogosfera

Minha fala no II EWCLiPo causou reações muito além do que eu imaginava. A Maria Guimarães do Ciência e Idéias entendeu que eu estava criticando os jornalistas. A Adriana Carvalho do Karapanã viu uma contradição (só uma?!) nas minhas idéias: "por um lado, é boa a expressão livre, mas depende de quem ou do que se fala?". Eu acho que não critiquei os jornalistas nem quis tolher o direito de alguém expressar o que pensa. Se o fiz peço desculpas em público. Nunca foi essa minha intenção.

Eu devia falar sobre anti-ciência. Falei um pouco sobre isso mas também sobre informação e poder. Sobre hierarquia e autoridade. Autoridade no sentido de credibilidade e fé pública.

Falei sobre como a civilização ocidental mudou de forma irreversível com a invenção da imprensa por Gutenberg em 1454. Antes disso os livros eram manuscritos ou impressos em quantidades muito pequenas. Isso permitia que a difusão de idéias fosse controlada pelos poderosos, em particular pela igreja. Com a imprensa o controle da difusão de idéias escapou da igreja. Quem tinha acesso a máquinas de imprimir podia editar livros e panfletos com suas idéias, independentemente da vontade dos poderosos. A imprensa foi um instrumento tão perigoso e subversivo que cem anos depois a igreja publicou o Index Librorum Prohibitorum, o qual só foi revogado 4 séculos mais tarde em 1966, 15 anos antes da bitnet.

A internet, e o aparecimento de ferramentas simples para blogs pode ter a longo prazo um efeito comparável à invenção da imprensa. Acabou o poder dos editores e donos do poder na imprensa. Qualquer pessoa com acesso à web (até eu!) pode escrever e difundir suas idéias, sua arte, sua ciência para quem quiser ouvir (ou ler). Isso tem uma conseqüência maravilhosa em termos de difusão de idéias. Mas tem também um lado sombrio. Para citar um exemplo radical, a web está cheia de blogs nazistas, racistas, homófobos, xenófobos e com todo tipo de preconceito e incitação à violência. Basta procurar que você os encontrará.

Outro aspecto da democratização radical da difusão de idéias tem a ver com qualidade. Isso vem preocupando intelectuais e artistas e deve preocupar também os que se importam com a cultura científica. Eu ouvi essa conversa pela primeira vez de artistas mais ou menos na época em que comecei meu blog. Ela materializou-se no livro O culto do amador de Andrew Keen. Ele diz que a web "É a celebração do amadorismo: qualquer um, por mais mal-informado que seja pode publicar um blog, postar um vídeo no YouTube ou alterar um verbete na Wikipedia. Esse anonimato da web põe em dúvida a confiabilidade da informação". No início de setembro o Nouvel Observateur publicou uma entrevista com Emmanuel Hoog, presidente do Institut National de l'Audiovisuel francês. Ele preocupa-se com a ausência de hierarquia para bens culturais na rede, e o consequente nivelamento por baixo da atividade cultural. Ele afirma que a hierarquização é feita pelos mecanismos de busca (Google, Yahoo, etc) e sugere, dentro de uma visão absolutamente francesa de mundo, que o governo estabeleça mecanismos de busca de qualidade. Obviamente isso não resolveria nada. Uma entrevista parecida saiu no Le Monde.

Todas as áreas do conhecimento construíram mecanismos de validação e de suporte à qualidade. Como nós não-artistas podemos decidir quais tendências em arte contemporânea podem ser relevantes? Podemos ir a um museu. Por exemplo o Museu de Artes Visuais Ruth Schneider em Passo Fundo. Com todo respeito por Passo Fundo, se você tiver possibilidade e quer saber sobre as últimas tendências seria melhor ir ao MOMA em Nova Iorque. Lá você poderá até encontrar trabalhos que talvez não entenda se não estiver muito por dentro do que acontece em arte hoje. Talvez uma instalação que consiste numa sala com o piso de madeira coberto por estopa. Você pode mexer na estopa a vontade e achar isso uma bobagem, mas é possível que isso mexa com você. Por que o MOMA tem mais prestígio que o MAVRS? Porque a sociedade atribuiu ao MOMA uma autoridade maior do que ao MAVRS.

A ciência criou toda uma sociologia própria (vou escrever especificamente sobre esse assunto em breve). Rituais, meios de divulgação, procedimentos de validação, universidades, meritocracia (que não tem nada a ver com democracia), títulos acadêmicos, revisão pelos pares, etiqueta, encontros, etc... A comunidade científica atribui à Nature mais credibilidade que ao Journal of Chiropractic Medicine. Quem trabalha com ciência conhece a diferença. A maioria das pessoas não já que os dois têm políticas de publicação seletivas, revisão por pares, etc.

A internet é o paraíso da informação de qualidade duvidosa. Ela está cheia de arte de segunda categoria posando de relevante e de blogs e discussões citando periódicos do padrão do citado JCM como se fossem sérias. Como pode o pacato cidadão entender e qualificar essas coisas? Não existe o MOMA da internet. Nem os mecanismos de validação usados pela ciência.

Eu disse claramente em Arraial do Cabo e repito aqui que não sei a resposta para essas inquietações. O bom de ser cientista é que ao contrário das culturas dogmáticas nós temos o privilégio de discutir sem saber as respostas. Sugeri um mecanismo primário de validação, copiado da sociologia da ciência, o tal selo de qualidade. Alguma autoridade científica (qual?) poderia certificar blogs com algum critério de qualidade da informação. Isso é uma espécie de revisão por pares a priori. Isso não impediria a difusão de blogs pseudo-científicos, mas eles não conseguiriam jamais o status de blogs científicos.

Estou velho demais para achar, como alguns blogueiros por aí, que com informação de qualidade as pessoas em geral (jornalistas incluídos) deixarão de se fazer enganar. Não consigo imaginar nada além de algum mecanismo hierárquico para validação de qualidade. Ou alguém tem outra idéia?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cura magnética

Participar do II EWCLiPo foi uma experiência muito gratificante. Rever amigos, conhecer novos, discutir ciência e cultura científica, aprender com pessoas que pensam parecido comigo e especialmente com pessoas que pensam diferente. Acima de tudo ver nossa pequena comunidade crescendo e fazendo alguma diferença. Infelizmente eu não pude ficar no domingo para ouvir algumas palestras que devem ter sido excelentes. Eu precisava viajar para a Colômbia ao meio dia e precisei sair cedo. Para minha felicidade ainda levei até Niterói uma carona com quem mantive uma conversa tão boa e envolvente que nem notei passar as duas horas e meia entre Arraial do Cabo e o Rio. Então de alma leve embarquei no vôo da Copa Airlines. Como cheguei ao aeroporto em cima da hora não tive tempo para comprar um livro para ler na viagem. Apelei para a revista de bordo. Qual não foi minha surpresa quando dei de cara com uma manchete na página de Ciência (uma revista de bordo ter uma página de Ciência em si só já é uma boa notícia. O exemplo poderia ser seguido pelas companhias aéreas brasileiras): “Pesquisa invalida eficácia de terapia magnética”. Trata-se de um estudo feito na Pontifícia Universidad Javeriana de Colômbia, em Bogotá. Descobri mais na revista “Pesquisa” dessa universidade: Foi feito um estudo duplo-cego aleatorizado sobre o efeito de imãs sobre a dor no pós-operatório de 165 voluntários. O estudo concluiu o que qualquer pessoa de bom senso esperaria: o efeito dos ímãs é zero. Nenhum. Nada além do efeito placebo. O trabalho foi publicado na Anesthesia and Analgesia e foi o assunto de três editoriais.

Por que estudar um assunto como esse? Porque por incrível que pareça a indústria de imãs com supostos efeitos terapêuticos é um negócio bilionário no mundo inteiro. No Brasil várias empresas os vendem para diferentes propósitos. Por sorte magnetoterapia não foi elevada à condição de especialidade médica, ao contrário de uma outra terapêutica que após anos e anos de estudo nunca apresentou efeito superior ao placebo.

O que mais me intriga nisso é o que leva as pessoas a acreditar que a presença de um imã poderia trazer algum efeito benéfico. Magnetismo é tido por muitos como algo misterioso. Já vi gente argumentar que a hemoglobina contém ferro e portanto os imãs poderiam influenciar beneficamente o fluxo sanguíneo. Claro, todos sabemos que imãs atraem ferro metálico. Felizmente o ferro na hemoglobina não é metálico. Ele está num estado eletrônico fracamente diamagnético, que na verdade é muito fracamente repelido por um campo magnético Para obtermos algum efeito detectável é preciso aplicar campos muito maiores que os presentes em pewquenos ímãs. Por isso não somos arrastados pelos vários campos magnéticos presentes no nosso dia a dia.

A maior parte das pessoas que usam terapias magnéticas não lê revistas científicas. Aproximar um ímã de um ponto doloroso não causa nenhum dano. Usar ou não essas terapias é uma questão de fé. Sé espero que ninguém as use em lugar de um tratamento convencional. Na ausência de regulação oficial os fabricantes continuarão fazendo afirmações pseudo-científicas em seus produtos. Um comerciante apresenta a assinatura de um geriatra em um"parecer médico". Eu lembro de um fato ocorrido quando eu ainda era um mestrando na Unicamp. O colchão magnético Kenko Patto solicitou um laudo de toxicidade à Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Como ele não apresentava toxicidade, recebeu um laudo de que não apresentava riscos à saúde. O fabricante passou a destacar em sua publicidade “aprovado pela Unicamp”. Só parou depois de um processo judicial.

É triste ver tanta gente se deixando enganar.

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