domingo, 6 de dezembro de 2009

O Viagra cor-de-rosa e a referência que não existe

Excesso de atividades profissionais deixaram escapar várias manifestações públicas de pseudo-ciência recentes como a terra quadrada (ou retangular), o Cacique Cobra Coral e o apagão, o chefe de estado visitante que nega parte da história recente da humanidade, etc...
Não resisto a uma que saiu na Época da semana passada. A matéria de capa tem o sugestivo nome Em busca do Viagra cor-de-rosa:Uma nova droga está em testes para combater a falta de desejo feminino. Ela funciona mesmo ou é apenas uma jogada da indústria farmacêutica? A matéria fala sobre a suposta eficácia de uma substância chamada flibanserina no tratamento de mulheres com baixa libido. Um estudo financiado pela dona da patente da substância, a multinacional Boehringer Ingelheim, foi apresentado recentemente "em um encontro médico na França". O que mais me chamou a atenção foram as seguintes frases: "O estudo reuniu dados recolhidos por sete grupos de testes envolvendo mais de 5 mil europeias e americanas ao longo de 48 semanas. Enquanto tomavam o novo medicamento, pediu-se a elas que relatassem eventos sexuais de qualquer espécie. Valiam relação sexual, sexo oral, masturbação ou estimulação genital pelo parceiro. O questionário perguntava se o ato foi satisfatório ou não. As 738 participantes do teste publicado na revista científica Journal of Sex Research relataram um aumento médio de 96% no número de “eventos sexuais satisfatórios” por mês." Isso me pareceu obviamente efeito placebo. Na página seguinte num quadro obtido a partir de dados fornecidos pela própria Boehringer Ingelheim é dito de forma um pouco confusa que no grupo com flibanserina o número médio de eventos satisfatórios passou de 2,8 para 4,5 por mês e no grupo com placebo ele foi de 2,7 para 3,7. Para mim esse número não é exatamente satisfatório: 1 por mês com placebo, 1,7 com a droga... Em um mês!!! Como não trabalho nessa área, a primeira coisa que fiz foi ver se o Journal of Sex Research é indexado no ISI Web of Knowledge. Trata-se de um índice de publicações científicas que atendem a alguns critérios importantes como revisão por pares e periodicidade. Uma tentativa de hierarquizar as publicações científicas (piada interna, ver o texto anterior). Estar indexado não é uma garantia de qualidade (por exemplo, Homeopathy é indexado), mas não estar indexado é uma indicação de falta de qualidade e rigor da publicação. O JSR é indexado. Ótimo. Então fui procurar o artigo e não encontrei. Época não dá a referência completa e uma busca no periódico ou no Google Acadêmico usando como critério "flibanserin" ou "738" ou "2,7, 3,7, 2,8, 4,5" resulta em nada! O artigo citado não existe. Consegui aprender mais sobre o assunto num press release da própria Boehringer Ingelheim. Para ter acesso precisei declarar que sou jornalista (pelo menos amador...). Lá descobri qual foi o "encontro médico na França" citado na Época. Descobri mais sobre os dados: participaram do estudo 1378 mulheres norte-americanas pre-menopausa (como isso se transformou em 738 é um mistério que a numerologia deve explicar...) nas quais verificou-se o resultado citado. Sobre as 634 européias pre-menopausa apenas é afirmado que foram detetadas melhoras estatisticamente significativas no nível de desejo sexual. Os estudos duraram 24 semanas. O release termina com 10 referências, nenhuma no JSR. Provavelmente as 48 semanas da Época resultam da soma das 24 semanas do estudo europeu com as 24 do estudo americano. Como ela chegou a 5 mil mulheres quando a soma dos dois estudos corresponde a cerca de 2 mil é um mistério.
Conclusão minha: a jornalista da Época leu o press release da Boehringer Ingelheim, entendeu pouco do que ali está escrito, misturou números e ainda citou um artigo de periódico científico que ela nunca viu porque não existe. Em ciência nós sempre lemos os artigos antes de citá-los.
Cá entre nós, uma diferença de 0,7 eventos prazerosos por mês da droga em relação ao placebo, por mais estatisticamente significativo que seja não é grande coisa. É um evento a cada 43 dias. Melhor tomar um bom vinho, comer num bom restaurante, enfim, buscar outros prazeres na vida...

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