domingo, 25 de julho de 2010

Vale a pena blogar sobre ciência?

Eu participei recentemente em uma mesa redonda no CBPF sobre A prática da divulgação científica e as novas mídias sociais. A mesa era parte da programação da VIII Escola do CBPF. Deve ser mais que elogiada a idéia dos organizadores de abordar esse assunto num evento voltado para jovens estudantes de Física. Os demais componentes da mesa eram o Dulcídio Braz Jr. do premiado Física na veia! (que tem a nobre missão de levar a Física às pessoas de idade avançada do sexo feminino) e a Fernanda Poletto do Bala Mágica.
Nossas falas foram diferentes mas parecidas. Dulcídio falou sobre como motivar o numeroso público de seu blog a entender e discutir Física, provando seu slogan "A Física é pop". Fernanda abordou a importância que os blogs vêm ganhando na divulgação, inclusive citando o célebre editorial da Nature It's good to blog. Eu tentei falar sobre a importância de uma formação que todo cidadão deveria ter em método científico para entender minimamente a natureza. Isso é uma parte fundamental da cultura ocidental. Já que estava entre físicos, não pude deixar de falar também sobre a direção oposta, a importância que deveria ser dada a uma formação mínima em humanidades, estética e artes para os estudantes de exatas. Em algum momento da nossa história algum positivista deve ter achado que ensinar fundamentos de ciência para estudantes interessados em humanidades ou ensinar humanidades para estudantes interessados em "exatas" era uma perda de tempo. Deu no que deu, uma sociedade de cidadãos (e de intelectuais) com conhecimento fragmentado e com baixa capacidade de entende qualquer conceito que fuja de seus interesses mais imediatos.
O que mais gostei foi uma pergunta feita no final da discussão sobre que tipo de reconhecimento institucional nós blogueiros temos. Fernanda é farmacêutica e doutoranda em Química. Seu blog é reconhecido e estimulado por suas orientadoras. O Dulcídio é físico e trabalha em uma grande instituição privada de ensino médio. Seu blog é reconhecido e inclusive festejado e mencionado cada vez que ganha um prêmio. Nada mais justo.
Minha percepção pessoal, como professor de uma prestigiosa universidade pública, é que em meus colegas de instituto consideram minha dedicação ao Cultura Científica uma perda do precioso tempo que eu deveria estar dedicando a "coisas sérias" como publicar mais artigos em revistas indexadas. A atitude da grande maioria dos cientistas acadêmicos em relação à divulgação e discussões com grande público é meio esquizofrênica: queremos muito mas não fazemos muito, e damos pouca importância ao que é feito. Parece que no Brasil blogueiros científicos com mais de 40 anos são uma raridade.
Esperemos que essa cena mude e num futuro próximo falar de ciência e entender ciência e suas relações com a sociedade seja parte da nossa cultura geral.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cotas infladas

Estou cada vez mais prestando atenção na Cultura Científica (ou a ausência dela) na grande imprensa brasileira. O azedíssimo (isso é um elogio!) blogueiro Ben Goldacre, do Bad Science atribui à falta de um mínimo conhecimento científico de editores e jornalistas do Reino Unido grande parte do sucesso de tratamentos milagrosos com pílulas, ervas e vitaminas naquelas bandas. Ele sempre insiste que os editores em geral têm formação mais próxima das humanidades e das ciências sociais, com uma percepção bastante incompleta sobre o que é a ciência e como ela funciona.
Li hoje no Jornal da Ciência, clipping de ciência da SBPC, um artigo curioso sobre cotas no acesso ao ensino superior. O artigo original saiu no jornal O Estado de São Paulo. O título é: "País tem 148 instituições públicas de ensino superior com sistema de cotas". Eu estive bastante envolvido na elaboração do projeto de Ação Afirmativa da Unicamp e conheço os debates que até hoje vêm ocorrendo. Achei o número um pouco exagerado. O artigo ainda menciona que "Enquanto projeto [de lei] sobre o tema tramita no Congresso, as universidades têm autonomia para criar seus próprios modelos". A fonte da informação é uma compilação feita pelo Educafro, entidade que vem há anos defendendo cotas com todos os meios que dispõe. Resolvi olhar os dados originais do Educafro (que no meu browser pelo menos aparecem com caracteres estranhos). Parece ser uma compilação bastante completa de tudo o que há em ação afirmativa no Brasil.
A conclusão a que se pode chegar a partir da compilação é bem distinta da oferecida pelo Estadão. Segundo os dados do Educafro 48 instituições de ensino superior (1/3 do total) têm programas de bônus, que não é a mesma coisa que cotas. Não se pode classificar instituições que oferecem bônus como se oferecessem cotas. Cotas consistem em reserva de vagas. Bônus não. Mais de 2/3 do total, ou seja 102 instituições adotaram programas de ação afirmativa por força de decreto ou lei (municipal, distrital, estadual ou federal), o que é o contrário de "autonomia para criar seus próprios modelos". Há no meio acadêmico debate sobre a legitimidade de uma lei determinar como uma universidade deve selecionar seus estudantes.
Cada uma das 12 FATECs do Rio de Janeiro e das 38 São Paulo foi listada como se fosse uma instituição diferente. Na verdade são braços de uma só. As decisões são tomadas para o conjunto delas. Ou seja, 48 das 148 instituições não são instituições independentes.
O texto do jornal não chama a atenção para nenhum desses aspectos. A dificuldade de ler e entender textos, números, tabelas e gráficos não é exclusividade de artigos jornalísticos sobre ciências da natureza, como o Bad Science sempre insiste. Ela está presente também em artigos mais próximos às ciências sociais mesmo em jornais de prestígio.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Isto É um milagre!

O artigo de capa da Isto É de 30 de junho chamou-me a atenção. A revista, que tem seu conteúdo aberto na web, o que é louvável, apresenta-se como "a revista mais combativa do Brasil". Deve ser combate à razão.
O artigo chama-se "Milagres Contemporâneos". Ele trata literalmente de supostos "milagres" que estariam ocorrendo em torno de nós atualmente no Brasil. Ora, todo mundo sabe que milagres são eventos fora do normal que envolvem a intervenção divina. Coerentemente eles estão em geral descritos com detalhes nas escrituras. Mas milagres ocorrendo no início do século 21, no Brasil, sob nossos narizes...
O artigo apresenta casos médicos, alguns triviais e alguns mais especiais como milagres. não apresenta nenhuma informação científica para ajudar o leitor a entender o que realmente ocorre. Ao contrário, numa demonstração de proselitismo católico barato diz que "A maioria das denominações religiosas crê em milagres, mas os católicos são os únicos que usam o rigor científico para conferir o selo apostólico romano de miraculosidade. Não podia ser diferente. Para os cristãos, o primeiro a fazer milagres foi Jesus Cristo, que multiplicou pães, transformou água em vinho e fez um morto voltar à vida, entre outros gestos, segundo contam os evangelistas no Novo Testamento. Para estar à altura de um ato que já foi executado pelo Filho de Deus, dois mil anos depois de sua passagem pela Terra, um caso só é considerado milagre depois do aval de uma comissão mista de teólogos e cientistas do Vaticano." O negrito e texto maior aparecem na versão impressa. Esse parágrafo é uma contradição em si: Se usasse realmente rigor científico, o Vaticano se recusaria a reconhecer TODOS os milagres relatados no artigo e tantos outros mais. Eu fico imaginando quem são os "cientistas" que compõem as comissões mistas com teólogos para validar os milagres. Que experiência científica têm? Costumam publicar seus resultados em periódicos especializados? Conhecem realmente o método científico e o aplicaram aos supostos milagres?
Tomo como exemplo um dos "milagres" relatados, o do jovem João que sofreu um terrível acidente e teve grave traumatismo craniano e parada cardiorrespiratória, com pequenas chances de sobreviver. Mas ele sobreviveu, graças aos competentes cuidados médicos aos quais foi submetido (mesmo com a infraestrutura limitada disponível em Barra Bonita, onde o acidente aconteceu) e à incrível capacidade de recuperação que do corpo humano. O artigo atribui a cura à oração praticada pelos colegas de João. Cita também a opinião do neurologista Odérzio Marcato, de Barra Bonita, que acompanhou João (a revista não esclarece se foi ele quem prestou atendimento primário): "A medicina não explica uma melhora tão rápida e plena". Acho curioso um médico falar em nome da Medicina. Como infelizmente não conheço nenhuma instituição de pesquisa médica em Barra Bonita, busquei mais informações sobre a atuação científica do Dr. Marcato. Não encontrei nenhum artigo científico de sua autoria. No entanto, encontrei alguns artigos que indicam que a opinião do Dr. Marcato deve ser tomada com cautela. O Diário da Região de São José do Rio Preto publicou pelo menos 2 artigos que citam o Dr. Marcatto. Em 2005 ele foi citado no processo de beatificação do Padre Mariano, justamente atribuindo a cura de João a esse religioso espanhol que viveu no Brasil. Só tem um problema: o Padre Mariano faleceu em 1983. O acidente de João aconteceu em 1996. Imagino que esses milagres não dependem da presença física do milagreiro entre nós. Outra citação ao Dr. Marcatto é de 2007, quando o Padre Mariano foi beatificado. Sou absolutamente solidário à família de João e seu sofrimento que felizmente terminou bem. Daí para atribuir sua cura a um milagre há uma enorme distância.
O artigo da Isto É vai mais longe. Afirma que "São muitos os estudos que comprovam que a fé tem efeito positivo sobre a saúde...Está provado, por exemplo, que crer em Deus ou em algo transcendente provoca reações no organismo que reduzem a produção de substâncias como o hormônio cortisol.". Busquei na Medline as palavras "cortisol" e "god". Nenhum dos 3 resultados apóia essa afirmação. Pode piorar: "Para o neurocirurgião Raul Marino Júnior, professor de bioética da Faculdade de Medicina da USP e autor do livro `A Religião do Cérebro` (editora Gente), ter algum tipo de fé é sempre melhor que ser ateu. `A vida fica sem propósito se a pessoa achar que é formada de carbono, cálcio, fósforo e magnésio', afirma." O Currículo Lattes do Prof. Marino Jr. lista a invejável marca de 144 artigos publicados. Nenhum deles trata da questão da fé e de ateísmo. Ao contrário de livros (e blogs), para publicar um artigo é preciso convencer outros cientistas de que suas afirmações fazem sentido. O Prof. Marino Jr. não tentou ou não conseguiu esse feito em sua longa e produtiva carreira. Eu pessoalmente entendo que ser ateu é melhor que ter algum tipo de fé. Mas não tento convencer ninguém disso a partir de argumentos duvidosos.
Um famoso estudo duplo cego aleatorizado sobre o efeito de rezas sobre a saúde de pacientes mostrou claramente que o efeito é ZERO. Sua versão original, que mostrava o efeito contrário, revelou-se uma fraude. Isso foi parar nos tribunais, pois o principal autor da fraude abriu um processo contra um médico que sistematicamente desafiava as falsas conclusões do artigo. A decisão judicial no ano passado favoreceu o médico. A Isto É ignora isso e insiste em atribuir poderes terapêuticos à reza e à fé. Ela termina com mais proselitismo religioso: "Traduzindo, os propósitos divinos seriam insondáveis. Para quem crê, o que importa é que Ele continua estendendo sua mão para a humanidade." É difícil acreditar que isso tenha saído numa das supostamente boas revistas semanais do Brasil.
Se os jornalistas envolvidos tivessem um mínimo de senso crítico e de formação científica talvez teriam buscado informação de verdade para seus leitores.

Eu passei há alguns anos por uma situação terrível. Minha mãe teve câncer de pâncreas, diagnosticado já em um estado avançado. Todos sabíamos que não havia muito a fazer para curá-la. A medicina (olha ela de novo aí) ainda não consegue oferecer uma cura para essa doença. Ela submeteu-se a quimioterapia usando o que havia de mais avançado na época, uma droga chamada gemcitabina, comercializada com o nome Gemzar. Mesmo com o tratamento, a mediana de sobrevivência é de 6 meses. Ela resistiu por um ano, chances de 18% para pacientes tratados com Gemzar. Seria isso um milagre? Claro que não. 18 de cada 100 pacientes tratados com Gemzar sobrevivem um ano. Por sorte ela foi um deles. Sem que ninguém rezasse para isso. Há casos (raros) de pacientes que sobrevivem 5 anos. Eu queria muito que um milagre acontecesse e ela fosse um deles...
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