quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cólera, epidemiologia e celular

Em meados do século XIX Londres era castigada por freqüentes surtos de cólera. As pessoas que a contraíam a doença quase sempre morriam em poucos dias. Havia pouco a fazer pelos pacientes. Sabia-se que pessoas próximas às já infectadas tinham tendência a também contrair a doença. Com essas evidências e sem ainda ter sido estabelecida a conexão entre doenças contagiosas e micróbios, o melhor modelo para a propagação da doença era a teoria do miasma. O miasma era um suposto vapor ou névoa invisível contendo partículas de matéria em decomposição (miasmata) que carregaria a doença. Ele supostamente podia ser identificado pelo cheiro nauseabundo característico. Um modelo que fazia sentido e tinha suporte parcial nos dados disponíveis na época.
John Snow era um médico inglês reputado por seus estudos em anestesia. Ele era um cético em relação ao modelo do miasma, que nem sempre se verificava. Por isso ele fez algo simples que mudou a história da medicina: marcou em um mapa o número de mortos por cólera em cada casa da Broad Street no surto de 1854. Com o auxílio do mapa acima ele mostrou que o número de mortos em cada casa diminuía na medida em que se afastava de uma bomba usada para o abastecimento de água potável. Mais que isso, não havia nenhum morto na cervejaria (BREWERY no mapa), onde os operários bebiam a água da fonte usada para a fabricação do precioso líquido em lugar da água bombeada. Snow concluiu corretamente que a transmissão da cólera devia estar relacionada com o consumo de água contaminada. Para provar isso e evitar mais mortes Snow usou seu prestígio para fazer com que a alavanca de bombeio fosse retirada. O surto desapareceu graças à primeira intervenção de um médico sanitarista na história.
E estava criada a epidemiologia. Desde então a interpretação de dados demográficos é uma ferramenta fundamental para ajudar a entender relações sutis de causa e efeito em saúde. Um trabalho bem feito pode mudar a história. Há uma excelente palestra legendada sobre o assunto no TED.
Lembrei disso ao ler uma matéria publicada na Folha há algumas semanas. Uma tese de doutorado defendida na UFMG afirma associar proximidade da antena de celular a maior probabilidade de câncer.
Uau. Finalmente a mecânica quântica foi desmentida (ver artigo anterior) e fótons de alguns mili eV estão conseguindo causar danos em ligações químicas de mais de 3 eV em moléculas de DNA. Será verdade?
Lá vou eu em minha eterna busca por informação. Infelizmente a UFMG não disponibiliza suas teses on line, de forma que não é fácil obter uma cópia eletrônica. Mas um resultado epidemiológico de tal importância certamente foi publicado em uma revista importante. Peço ajuda ao Google Acadêmico. Nada. Ou seja, uma pesquisadora mineira mostra definitivamente que a proximidade a antenas de celular aumenta a incidência de câncer e não publica isso numa revista de impacto? Sempre pode piorar. Basta entrar na página da MRE Engenharia, uma empresa que ganha dinheiro explorando a desinformação e o medo de radiações invisíveis que foi incutido nas pessoas ao longo dos últimos 30 anos. Por exemplo, ali aprendemos que "Radiações eletromagnéticas dos linhões preocupam" e podemos agendar uma "Medição de radiações eletromagnéticas Industrial, Empresarial, Ocupacional, Residencial e de Público em Geral".  Não só isso, lá podemos comprar a tese de mestrado da autora, "com impressão colorida, 175 páginas e encadernação com capa dura, enviada por Sedex, preço sob consulta". Há também referências a uma série de artigos da revista Patophysiology, lamentavelmente célebre por seus baixos padrões editoriais e por publicar regularmente artigos mostrando que tudo causa câncer, do tipo de cama (isso mesmo!!) a qualquer campo eletromagnético, ou as maravilhas da drenagem linfática. Desnecessário mencionar a ligação próxima entre a autora das teses e a empresa. Pelo menos eles não prestam serviços de des-fantasmização. A Folha também publicou uma entrevista com a "epidemiologista" Devra Davis, que afirma um amontoado de besteiras sobre celulares e câncer. Um recente What's New questiona a qualificação da Dra. Davies como epidemiologista.
Existe epidemiologia como a feita por Snow e seus seguidores 150 anos depois e que através de rigorosa análise de dados continua produzindo resultados científicos relevantes. Existe pesquisa mal feita, com metodologia furada e sem rigor algum, que nem consegue ser publicada em uma revista internacional como as citadas acima.
Enquanto isso, o Science Based Medicine abre um artigo dizendo que "Telefones celulares continuam sendo o foco de estudos epidemiológicos e preocupação pelo público, apesar de até hoje não ter aparecido evidência convincente de qualquer qualquer risco à saúde a eles associado". Aliás, uma das autoras do SBM fez uma declaração com o bom senso dos médicos em lugar da pretensão dos físicos ao Skeptic Magazine: "Não existem boas evidências de que telefones celulares causem câncer. Até hoje não estou convencida que os mecanismos propostos possam causar câncer". Gostei muito disso. É possível que os celulares causem câncer, mas se esse for o caso, certamente não é através dos mecanismos propostos. No entanto, até hoje não há evidências epidemiológicas confiáveis que sugiram isso. Nem os estudos mineiros.
O mesmo vale para vários tratamentos alternativos sem base científica: É possível que acupuntura tenha um efeito analgésico, mas isso não se deve a correções do fluxo de qi pelos meridianos. É possível que quiropraxia alivie dores nas costas, mas isso não se deve à ação da inteligência inata nem ao realinhamento das vértebras. É possível que as pessoas melhorem enquanto usam homeopatia, mas isso não se deve ao potencial das diluições infinitas nem ao reforço dos sintomas. O perigo das pseudociências para nossa compreensão é justamente esse: propor mecanismos sem pé nem cabeça e acreditar neles mesmo quando as evidências apontam em outra direção.
Celulares são equipamentos extremamente perigosos para nossa saúde, quando na mão de motoristas. Pelo menos aqui em Campinas vejo todo dia gente dirigindo enquanto fala ao celular (ou será que é falando ao celular enquanto dirige?) sem medo nenhum de punição, multa ou de causar um acidente grave. Algum dia alguém fará um estudo epidemiológico sério mostrando que celular associado a automóvel põe em risco usuários e transeuntes. Mas através de um mecanismo de mecânica que nada tem a ver com as emanações de microondas ou mecânica quântica.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Extra Terrestres, NASA e sonhos de infância

Para todos nós que crescemos nos anos 60/70 a palavra NASA tem um significado quase mítico. Dez entre dez dos meus colegas de jardim de infância tinha uma resposta pronta quando nos perguntavam "O que você vai ser quando crescer?". Astronauta.
A NASA significava a descoberta de outros mundos, o desafio para os corajosos, a aventura. Nós achávamos que a NASA era O lugar onde trabalhavam os cientistas. O grande sonho era um dia eles encontrarem vida em outros planetas.
De lá para cá o mundo mudou e mudei eu. Hoje eu sei que a NASA era um ambiente muito mais de realizações de engenharia do que da ciência. Sei também que diferentes formas de vida não precisam ser antropomórficas nem mesmo baseadas no DNA que conhecemos.
Mesmo depois de falhas graves como os dois acidentes com o ônibus espacial que resultaram a cada vez na morte de toda a tripulação, e outros erros patéticos como a perda de uma espaçonave não tripulada devido a confusão entre os sistemas de unidades métrico e o americano (essa foi difícil de acreditar mas aconteceu), o nome NASA continua associado a alta tecnologia e é continua usado para vender de travesseiros até geringonças pseudocientíficas inúteis.
Mas nos Estados Unidos, onde os contribuintes pagam as contas da NASA, ela hoje em dia não é uma unanimidade. Críticos questionam os pesados investimentos demandados pela agência argumentando que os avanços científicos dela advindos não se justificam. Bob Park, do clássico blog What's New, é um ácido crítico da insistência da NASA em missões tripuladas enquanto segundo ele os mesmos resultados poderiam ser obtidos de forma mais barata e menos arriscada através e missões não-tripuladas. Claro que isso tiraria grande parte do charme que me fascinava na infância...
A NASA vem buscando justificativas para sua existência. Então, na semana passada eu estava numa conferência sobre educação para todos na UNESCO quando recebi da amiga Sabine Righetti da Folha de São Paulo uma notícia que quase me fez ter um treco: Pesquisadores descobrem bactéria com DNA "ET". Será que tinham descoberto vida fora da terra? Lendo a notícia fica claro que não é bem isso, como o press release da NASA dava a entender com uma aura de mistério. Nossa imprensa seguiu o script da NASA. Teve até um blog ao vivo.
Afinal, qual era a novidade? Para citar o título do artigo publicado na Science e está aberto ao público: Uma bactéria que pode crescer usando arsênio no lugar de fósforo. Isso é uma notícia muito importante, mas não exatamente extra-terrestre. Afinal, os ácidos nucléicos conhecidos até hoje são compostos dos elementos carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre e fósforo. Uma forma de vida que substitui o fósforo pelo arsênio é improvável do ponto de vista energético mas não impossível sob condições extremas. É o fato do arsênio substituir o fósforo mas não realizar processos metabólicos vitais que o torna tão tóxico para os seres vivos. Isso seria portanto realmente uma novidade importante. Mas daí para sugerir que essa forma de vida tem origem extra-terrestre é um longo caminho. Não dei muita atenção ao fato, mas de volta ao Brasil assisti na TV a uma entrevista com  Felisa Wolfe-Simon, a principal autora do artigo. Fiquei um pouco perturbado pela atitude dela de usar evidência limitada para fazer afirmações profundas e significativas. Hoje decidi ver o que há na web sobre o assunto. E o resultado não cheira bem. Talvez cheire a arsênico...
Comecemos pelo blog da Felisa. Poucas vezes vi algo tão metido na internet. Adorei a parte: "Eu sou intrinsicamente multidisciplinar". Vai piorar. Através do The Scientist descobri que o blog RRResearch da microbióloga Rosie Redfield faz sérias críticas metodológicas ao artigo. Qual a reação da NASA? Desqualificar as críticas porque elas não foram feitas em um periódico com revisão de pares. Isso é um absurdo. Artigos científicos precisam de revisão pelos pares (e ainda assim o processo não é infalível), não críticas. A atitude da NASA só me deixou ainda mais desconfiado. Atualmente acho que é bem provável que o artigo nem consiga provar o que afirma.
Em lugar de encontrar vida nas luas de Saturno ou em Marte, Felisia e seus colegas isolaram uma linhagem de uma bactéria que eles chamaram de GFAJ-1 nas águas ricas em arsênio do lago Mono, na Califórnia. No laboratório, eles cultivaram a bactéria numa sopa de nutrientes. Quando eles diminuíram a oferta de fosfatos e o substituiram por arsenatos a bactéria sobreviveu e se reproduziu, ainda que mais lentamente. Eles então examinaram o DNA dessas bactérias e concluíram que ele continha arsênio. Mas não convenceram a todos.
Os críticos simplesmente dizem que não foram feitos experimentos simples que poderiam mostrar além de qualquer dúvida que o fósforo do DNA realmente foi substituído por arsênio. Mais que isso, eles não mostram que o DNA supostamente arseniado é capaz de replicar-se como o DNA comum.
The Loom, da Discover juntou numa página os 9 mais relevantes críticos ao artigo. Carl Zimmer do Slate vai além: Esse artigo nunca deveria ter sido publicado. Numa era de afiados blogs científicos só mesmo a NASA para insistir em ignorá-los.
Uma coisa é clara: Ciência mal feita não é usada só para validar crenças sem fundamento, mas também para justificar investimentos bilionários também com fundamento limitado. A sociologia da ciência certamente tem muito a dizer sobre como cientistas como a Felisia e seus chefes se comportam.
Não foi dessa vez que se demonstrou vida extra-terrestre. Mas também não se mostrou sua impossibilidade. Posso continuar sonhando tranquilo...

PS: Levei vários dias escrevendo esse texto. Quando comecei verifiquei os blogs mais óbvios para ver se já tinha saído algo. Não tinha. Acontece que viajei e não conferi se no momento que terminei já tinha saído algo. Tinha. Então tardiamente faço referência ao Brontossauros em meu Jardim, ao Gene Reporter, ao Geófagos e ao Quiprona.
Creative Commons License
Os direitos de reprodução de Cultura Científica são regulados por uma Licença Creative Commons.