segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Época do kW/h

Durante meus anos coordenando o vestibular da Unicamp eu recomendei sempre que os candidatos lessem jornais e revistas para se manterem informados. Mas tenho ficado surpreso pela baixa qualidade das matérias que envolvem ciência. Um amigo jornalista uma vez me corrigiu ironizando sobre o fato de eu entender melhor os assuntos ligados à ciência que os demais...
Aqui registro mais um de uma longa lista. A revista Época da semana passada publicou um diagrama para explicar a nova iluminação do Cristo Redentor no Rio que é um amontoado de erros e equívocos.
A partir de 1º de março o Cristo será iluminado por LEDs. Época se atrapalha ao tentar explicar o que é um LED. Segundo ela, as lâmpadas comuns "tem filamentos que propagam calor e se queimam. A luz se dispersa mais facilmente." Já o LED "é baseado em um condutor elétrico (diodo). A luz é dirigida, melhorando o foco."
Se você consegue entender alguma coisa a partir dessa explicação deve ser um gênio.
O que a revista queria dizer é que o funcionamento das lâmpadas de filamento é baseado na radiação térmica emitida devido à alta temperatura do filamento (cerca de 2800 a 3000ºC). Somente uma pequena parte da energia emitida corresponde à parte visível do espectro eletromagnético, sendo o resto perdido na forma de calor. É possível modelar a emissão do filamento como se esse fosse um corpo negro.
Isso caso o Cristo ainda fosse iluminado por lâmpadas de filamento. Há décadas a iluminação é feita por lâmpadas de haletos metálicos, nas quais a luz é resultado de uma descarga elétrica em um gás a alta pressão, que são muito mais eficientes. Não há filamento aquecido, mas um arco de alta voltagem. Essas lâmpadas emitem algum calor devido à alta potência dissipada no arco, mas muito menos do que as lâmpadas de filamento.
Já os LEDs baseiam-se na emissão de luz devido à recombinação de portadores em uma junção de semicondutores. Essa emissão tem um espectro bastante estreito comparado às lâmpadas de filamento e de descarga de gases e por isso são ainda mais eficientes. Praticamente toda a energia é emitida na forma de radiação visível.
Pode piorar? Claro que sim. Quando Época decide explicar a sustentabilidade a confusão só aumenta. Eles desenham um diagrama mostrando corretamente que atualmente as lâmpadas (que não são de filamento!) emitem luz e calor para frente. Na verdade elas emitem em todas as direções mas um refletor atrás da lâmpada projeta toda a radiação para frente. Mas segundo eles nas lâmpadas LED a luz sai pela frente e o calor por trás. Como elas conseguem essa façanha é impossível saber. Desconfio que isso seja resultado de um entendimento muito raso do processo por parte de quem fez o diagrama. Os LEDs também emitem calor em todas as direções, mas a quantidade de calor emitida é muito pequena comparada com a energia luminosa.
E a pérola maior: o consumo. Segundo a revista o consumo vai cair de 72 para 17,2 kW/h. Potência (medida em kW) por unidade de tempo (medida em horas) é uma grandeza sem significado nesse contexto.
É possível entender de onde vem essa confusão. A concessionária de energia elétrica cobra pela energia que fornece, não pela potência. Ela usa uma unidade prática de energia que é o kWh (kW*hora, e não kW/hora). Um kWh corresponde a um dispositivo com 1000 W de potência operando durante uma hora. Por exemplo, um banho de 12,5 minutos (0,208 hora) em um chuveiro elétrico de 4800 W consome 1 kWh. Um banho de 25 minutos no mesmo chuveiro elétrico na posição "verão", de 2400 W consome também 1 kWh.
O que a revista provavelmente queria dizer é que a potência do novo sistema de iluminação é de 17,2 kW. O /h apareceu para o consumo ficar parecido com a conta de luz. Só que kW/h é muito diferente de kWh.
Enfim, um assunto que poderia ser esclarecedor numa das mais importantes revistas semanais brasileiras virou uma peça de desinformação com uma seqüencia de erros primários. Uma revista desse tamanho poderia, a exemplo de similares estrangeiras, pagar um bom consultor científico.

Update: Numa parceria inédita, há uma continuação muito aprofundada desse post no ótimo Física na Veia!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

(Des)Equilíbrio Poderoso

Esse assunto foi motivo de vários textos no passado, como o do Ceticismo Aberto e mais recentemente do Coletivo Ácido Cético (eu realmente adorei o nome deste blog). Ele voltou a mim ontem com uma ligação Equilíbrio e Saúde da Folha de São Paulo, enquanto eu comprava frutas para garantir uma alimentação equilibrada. Ele queria saber se pulseiras com hologramas podem afetar o equilíbrio de uma pessoa. Imediatamente pensei no que ele queria dizer com equilíbrio. Equilíbrio mental? Emocional? Financeiro?


de um jornalista da editoria
Power Balance (literalmente Equilíbrio Poderoso, ou Equilíbrio do Poder, ou Equilíbrio da Potência), uma empresa com sede em Orange County na California, foi fundada em 2007 "por atletas com uma grande experiência em cuidado holístico". Essa empresa só comercializa quatro produtos: uma pulseira de silicone (que existe em 16 cores), uma faixa de neoprene (em 10 cores),  um pendente em liga de zinco (em duas cores) ou um pendente em prata de Bali. Os produtos são vendidos por US$ 29.95 na página da empresa (US$ 79.95 em prata) e têm em comum o holograma reproduzido ao lado. Até aí tudo bem. Gosto não se discute. Todo cidadão tem o direito de carregar os penduricalhos que bem entender e pagar por eles o que achar razoável. No entanto, o fabricante afirma que "Power Balance é baseado na idéia de otimizar o fluxo de energia do corpo natural, semelhante aos conceitos que sustentam muitas filosofias orientais. O holograma em Power Balance foi projetado para entrar em ressonância e responder ao campo de energia natural do corpo". Aí complicou. No Brasil elas passaram a ser chamadas de "pulseiras bioquânticas". É curioso como freqüentemente as pessoas acham que todo tipo de picaretagem em saúde tem a ver com mecânica quântica.
Um holograma é um registro de imagem baseado em padrões de interferência de luz. Para descrever o fenômeno, que rendeu o Prêmio Nobel de 1971 a Dennis Gabor, é preciso usar uma descrição sofisticada da teoria eletromagnética clássica. Nadinha de Mecânica Quântica.
Nenhum holograma pode entrar em ressonância com o campo de energia natural do corpo porque hologramas não entram em ressonância e não existe campo de energia natural do corpo.
Em agosto de 2010 a ANVISA determinou através da Resolução 4092 a suspensão de todas as propagandas dos produtos Power Balance e similares "pelo fato dos produtos apresentarem indicações de uso em saúde e não possuírem o devido cadastro junto à Anvisa".
Na Austrália eles foram muito mais longe: A Comissão de Concorrência e Consumo obrigou a empresa a reconhecer que fazia alegações sem fundamento em sua página e a publicar o seguinte Anúncio Corretor:
"Em nossa publicidade afirmamos que as pulseiras Power Balance melhoram sua força, equilíbrio e flexibilidade.
Admitimos que não há evidências científicas confiáveis que sustentem nossa alegação e portanto nós tivemos uma conduta enganosa, violando o artigo s52 do Trade Practices Act de 1974.
Se você acha que foi enganado por nossas promoções, queremos pedir desculpas sem reservas e oferecer um reembolso total.
...
Este Anúncio Corretor foi pago por Power Balance Australia Pty Ltd e publicado seguindo um compromisso com a Comissão Australiana de Concorrência e Consumo de acordo com a  seção 87B do Trade Practices Act de 1974."

Para provar que a Power Balance respeita o consumidor também no Brasil, eles mostram um alerta contra falsificações já na página de entrada brasileira. Como todo o produto que é vendido por um preço muito acima do custo (segundo o próprio representante é impossível vender por menos de R$120 no Brasil) eles são vítimas de imitações. Eles alertam para a venda de produtos clandestinos em "sites piratas e pequenos comércios" e dão uma série de orientações ao consumidor. A melhor de todas:

"- Se você comprou seu Power Balance em sites de venda - DESCONFIE, Provavelmente você adquiriu um produto falso sem utilidade."

Falso sim, mas tão (in)útil quanto o original. E o representante já afirmou que ao contrário da Austrália, no Brasil não haverá devolução de dinheiro aos incautos.

Provavelmente existe um efeito similar ao placebo nas pessoas que usam as tais pulseiras. Basta ver o depoimento do piloto Rubens Barrichello, que "sentiu uma diferença muito forte na pista". Pelo menos uma coisa é verdade: o fabricante nunca afirmou que o uso das pulseiras pode fazer um piloto andar rápido! Há vários vídeos no YouTube mostrando uma suposto melhor equilíbrio quando as pessoas sabem que estão usando a pulseira. Mais placebo impossível.



Mesmo estando claro que os hologramas não melhoram nem seu equilíbrio nem sua capacidade de pilotar um carro de Fórmula 1, ter alguns hologramas no bolso não causam dano algum à saúde. No entanto, seu equilíbrio financeiro pode ser duramente afetado se você tem uma tendência a se afastar dos hologramas presentes nas notas de R$20, ou pior ainda, não souber controlar o poder oferecido pela águia ou pelos dois mundos que aparecem nas imagens holográficas dos cartões de crédito mais utilizados. Nesse sentido, certamente alguns hologramas afetam o equilíbrio. Negativamente...

Update: Tem Power Balance de barbada aqui.
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