quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Homeopatia não é ciência

ResearchBlogging.orgOs eventos ocorridos às 10:23 do último sábado 5/2/2011 chamaram mais uma vez a atenção para o status da homeopatia na sociedade brasileira. Isso fez com que a Associação Médica Homeopática Brasileira se sentisse incomodada a ponto de manifestar-se através de Nota Oficial em seu periódico "A Gazetinha". Nota oficial, como seu pomposo nome indica, é um recurso utilizado quando algum fato é grave o suficiente demandando uma atitude formal e solene. Aqui vou analisar e comentar a nota e as informações nela contidas dentro de uma visão científica.
O cabeçalho da Gazetinha, reproduzido aqui, já chama a atenção. Além de uma estranha imagem de Samuel Hannemann, o criador da doutrina homeopática e do logo da associação, aparecem os logos da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, como se eles fossem parceiros da AMHB na publicação. A presença do logo da AMB se justifica. Trata-se de uma associação à qual a AMHB é filiada. Já a presença do CFM causa desconfiança. O que o logo de um conselho que possui atribuições constitucionais de fiscalização e normatização da prática médica faz na Gazetinha? Seria a Gazetinha um instrumento de fiscalização e normatização? Obviamente não. Por exemplo, na capa do boletim Circulação da Associação Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular há o logo da AMB mas não o do CRF.
O título da Nota Oficial é "Céticos versus homeopatia: conflitos de idéias e interesses". Abaixo reproduzo em azul e comento somente as partes principais que estão em desacordo com os fatos e com a Cultura Científica.

"Com apelos publicitários expressivos, lançam mão agora de falsos conceitos sobre a ciência, para enganar a opinião pública e principalmente tentar ludibriar as INSTITUIÇÕES de ensino, de pesquisa e de profissionais."
Não sei exatamente a quem a nota se refere, mas não li nenhuma linha crítica à homeopatia empregando "falsos conceitos sobre a ciência para enganar a opinião pública".

"Os motivos verdadeiros que os movem, naturalmente se escondem atrás das fontes de seus financiamentos. E estas fontes não são oriundas da ciência nem daqueles que são sinceros com os interesses da mesma!"
A velha e paranóica afirmação em relação aos cientistas que mostram que homeopatia não é ciência. Este blog, como vários outros, tem reiteradamente afirmado que homeopatia não é ciência. E nunca recebeu um centavo da indústria farmacêutica. Aliás, ele não tem fonte de financiamento alguma.

"A homeopatia tem sido uma ferramenta a mais nas mãos das ciências médicas há mais de 200 anos, prestando serviços à saúde das populações. Ao longo destes anos, os HOMEOPATAS jamais se furtaram ao debate acadêmico e científico."
Aí está a primeira confusão conceitual: Ciência não é debate. É método. Ao contrário do que ocorre nas humanidades, o debate acadêmico científico só existe balizado por uma metodologia que permite verificar hipóteses. As idéias de Hannemann jamais foram validadas pelo método científico. Ao contrário.

"E do ponto de vista da ciência, existe algo que nunca se pode abrir mão: SÃO OS FATOS."
Eu não poderia concordar mais com essa passagem da nota.

"É importante salientar que a Organização Mundial de Saúde, além de constatar o crescimento do uso da homeopatia nos diversos continentes, vem também adotando como estratégia o incentivo aos seus países membros, para que adotem o uso da homeopatia como recurso terapêutico e adotem pesquisas sobre a segurança e a eficácia de seu uso."
Essa frase longa contém uma verdade e uma mentira.
É verdade que a OMS publicou em 2010 um "Guia de Segurança para a preparação de remédios homeopáticos, que pode ser obtido diretamente na página da OMS. Nada mais apropriado: vários remédios homeopáticos são preparados a partir de substâncias altamente tóxicas ou letais, sacudidas e diluídas até que não sobre nenhuma molécula da substância original no remédio que será tomado. É muito importante o farmacêutico que prepara essa diluição ter certeza de que nenhuma molécula tóxica está presente no produto final, caso contrário conseqüências desagradáveis podem ocorrer.
É mentira que a OMS incentive o uso da homeopatia. Em 1999 B. Poitevin, então presidente da "Associação Francesa de Pesquisas em Homeopatia" publicou um artigo de opinião no Bulletin of the World Health Organization, no qual ele propunha a integração da homeopatia nos sistemas de saúde. Esse artigo reflete a opinião do Sr. Poitevin, não da OMS.  Em meados de 2010 o grupo Voice of Young Science Network enviou uma carta aberta à OMS sugerindo que a OMS condenasse o uso de homeopatia para tratar de tuberculose, diarréia infantil, gripe, malária e HIV. Todas doençcas que podem levar ao óbito do paciente. A carta foi devidamente criticada na página da ABMH. No entanto, a OMS pronunciou-se claramente NÃO recomendando homeopatia para tratar essas doenças. Isso está documentado no Counterknowledge e pela BBC.

"SÃO OS FATOS OBSERVADOS PELA EVOLUÇÃO CLÍNICA DOS PACIENTES E DOENTES que atestam e cientificamente definem o valor de um tratamento, pois a prova final será dada pela qualidade dos resultados clínicos, em termos de segurança e eficácia, para a medicina."
Quem escreveu a nota mostra desconhecimento do que é o método científico. Testes clínicos científicos exigem um protocolo rígido a ser seguido, o do estudo duplo cego. Todos os meta-estudos feitos a partir de estudos duplo-cego até hoje mostraram que a homeopatia não tem efeito maior que o placebo. Isso é definitivo, motivou em 2005 um editorial da Lancet sugerindo que não se gaste mais recursos em pesquisas com homeopatia. O resultado não surpreende, dado que os remédios homeopáticos não contém concentração relevante de princípio ativo.

"Por isso, o nosso repúdio a este movimento de pseudo-céticos ingleses, que procuram expandir mundo afora os seus ataques à Homeopatia, que insultam deliberadamente a inteligência, a autonomia, as instituições, a auto-determinação e a soberania da nação brasileira!"
Não sei por que a nota qualifica o movimento 10:23 britânico como pseudo-cético. A frase final de tom emocionado-nacionalista mostra um certo exagero. Eu venho há anos dizendo que a homeopatia não é uma prática científica sem insultar essa lista de instituições.

Para finalizar esse longo texto, quero chamar a atenção para o que o NCCAM afirma sobre homeopatia em sua página. O National Center for Complementary and Alternative Medicine é uma instituição de pesquisa do National Institutes of Health norte-americano que foi estabelecida para estudar medicina complementar e alternativa. Ele foi criado por pressão de membros do congresso adeptos dessas práticas que esperavam assim validá-las. Milhões de dólares do contribuinte americano foram investidos nessas pesquisas. Está na página deles:
"A maior parte das análises da pesquisa em homeopatia concluiu que há pouca evidência para apoiar homeopatia como um tratamento efetivo para qualquer condição de saúde específica, e que muitos estudos foram falhos. No entanto, existem alguns estudos observacionais individuais, estudos duplo-cego controlados por placebo, além de pesquisa laboratorial que apontam resultados positivos ou propriedades físicas e químicas únicas de remédios homeopáticos".

Eu adoraria ver esses raros estudos.

O maior problema com a Nota Oficial da ABMH é que ela pretende validar cientificamente o que não pode ser demonstrado cientificamente. E apelam para outras formas de validação de autoridade, como o logo e a menção ao CRM e a falsa recomendação da OMS.

Não seria a hora, como sugeriu aqui nesse blog o ex-conselheiro e ex-diretor do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) Dr. Celio Levyman, de o CRM rever o status de especialidade conferido à homeopatia? Não poderíamos seguir o exemplo do Voice of Young Science Network e buscar formar opinião nessa direção?

Referências: 
Shang, A., Huwiler-Müntener, K., Nartey, L., Jüni, P., Dörig, S., Sterne, J., Pewsner, D., & Egger, M. (2005). Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy The Lancet, 366 (9487), 726-732 DOI: 10.1016/S0140-6736(05)67177-2

The Lancet, . (2005). The end of homoeopathy The Lancet, 366 (9487), 690-690 DOI: 10.1016/S0140-6736(05)67149-8

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desespero homeopático, ou beba gotas de água e vá em cana

Era 2004. As mais importantes companhias de seguros de saúde belgas dobraram-se à pressão popular e passaram a cobrir os custos de tratamentos homeopáticos. Um grupo de 23 céticos caiu em profunda depressão devido à decepção com o fato de as seguradoras encorajarem a charlatanice (nas palavras deles). Isso teve uma conseqüência terrível, e os levou a decidir pela única saída. Suicídio em massa em praça pública. Eles resolveram tomar um coquetel de venenos mortais que incluiu arsênico, veneno de cobra e beladona. Para o horror dos homeopatas, eles aumentaram a potência da mistura da melhor maneira homeopática. Diluíram uma parte em 100 de água, obviamente tomando o cuidado de sacudir o frasco vigorosamente antes da diluição para potencializar o efeito. Essa diluição foi repetida 30 vezes, obtendo assim um preparado mortal diluído 30C. Qualquer homeopata que se preza garantirá que numa diluição dessas é preciso tomar muito cuidado com os remédios. Todos os jornais e TVs foram convidados para acompanhar a lenta agonia dos 23 suicidas, entre os quais renomados professores de medicina. A cobertura da mídia foi um sucesso. A tentativa de suicídio um fracasso.

Hoje lembrei dessa história que na época apareceu no What's New e no Skeptical Enquirer.

Em poucas horas, às 10:23 da manhã de 5/2/2011 ocorrerá em Natal, São Paulo e Porto Alegre, assim como em várias outras cidades do mundo, o Desafio 10:23 2011. Várias pessoas (inclusive eu, não fosse um imprevisto doméstico que me impede de viajar até São Paulo) tomarão overdoses de preparados homeopáticos para mostrar de uma vez por todas que homeopatia é feita de nada. 10:23 é uma alusão ao número de Avogadro, que implica que qualquer coisa diluída acima de 10²³ (aproximadamente 12C) não contém nenhuma molécula do produto original. Tem mais sobre o protesto muito bem humorado no Ceticismo Aberto

Claro que isso causaria a ira das várias organizações homeopáticas. No entanto uma delas passou dos limites do risível. Segundo a Associação Brasileira de Farmaceuticos Homeopatas (ABFH) todos aqueles que estiverem bebendo água ou engolindo bolinhas de açúcar em praça pública às 10:23 do dia 5/2/2011 devem ser presos. Isso mesmo: ir em cana. A página deles tem a seguinte chamada: Movimento dos céticos contra homeopatia pode cometer crime se consumir medicamentos em praça pública. Não resisto a reproduzir a declarações de Márcia Gutierrez, a presidente da associação: “Um ato de irresponsabilidade contra a saúde pública que pode ser impedido pelas autoridades, tanto sanitárias quanto da segurança”. A matéria continua dizendo que "De acordo com a lei penal, este ato pode configurar crimes de indução ao suícidio, infração de medida sanitária preventiva e incitação ao crime."
Como foi mostrado acima, a última tentativa de suicídio homeopático na Bélgica foi um fracasso total. Pelo contrário, talvez se mais suicidas fossem adeptos da homeopatia e utilizassem seus venenos em diluições acima de 12C teríamos uma redução na taxa de sucesso dos suicidas.
Márcia vai além: "A prática proposta por esse grupo torna-se perigosíssima à saúde dos manifestantes, tendo em vista que os medicamentos homeopáticos devem ser tomados observando as prescrições e recomendações médicas, podendo desenvolver em pacientes, sensíveis a eles, uma série de sinais e sintomas peculiares ou mesmo a gravação (sic) de sintomas de enfermidades pré-existentes. Também a prática proposta pode levar insegurança e pânico aos milhares de pacientes que no Brasil e no mundo fazem uso da homeopatia como escolha terapêutica e que influenciados por este episódio poderão optar pela interrupção do tratamento vigente expondo-os também a sérios riscos de comprometimento de seu estado saúde."
Essa é realmente boa. Já imagino o pânico nos pacientes adeptos da homeopatia quando algum dos manifestantes tomar sua overdose homeopática.
A ABFH continua reduzindo o protesto a uma disputa comercial britânica (a velha inimiga indústria farmacêutica, que como se sabe não é nenhuma flor de ética) e insiste que "os estudos sobre a eficácia do medicamento (sic) homeopáticos são divulgados quase que exclusivamente no âmbito científico, médico e farmacêutico." Desnecessário repetir aqui que os estudos publicados nas mais prestigiosas revistas científicas têm sempre demonstrado que o efeito da homeopatia nunca é maior que o efeito placebo.
O desespero demonstrado pelo tom da notícia da ABFH e ao sugerir a prisão das pessoas que cometerão o crime de beber uma overdose de água sacudida só mostra que o protesto está tendo um efeito colateral antes mesmo de começar. Parabéns aos organizadores!

Esse texto é dedicado ao Omo, o simpático rapaz de 3 meses e meio dessa foto, que conquistou a todos da casa. Quando cheguei em casa hoje ele estava machucado e caído. A veterinária diagnosticou um rompimento da bexiga, talvez devido a um atropelamento. O estado dele é grave e só poderá ser operado amanhã cedo. Espero que ele resista a essa noite e amanhã tudo dê certo na cirurgia.




Update 1. O Omo infelizmente não resistiu até poder ser operado.


Update 2. Há um post legal sobre o mesmo assunto no Bule Voador.



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