sábado, 5 de janeiro de 2013

Foi sem querer...

Estou sem escrever há muito tempo. Uma agenda de viagens pesada não tem me permitido a paz necessária para pensar em artigos que sejam ao mesmo tempo interessantes e instigantes.
Quando não é possível ter idéias originais e relevantes o melhor é não publicar nada.
Infelizmente parece que essa não foi a postura do Prof. Rui Curi, membro da Academia Brasileira de Ciências e diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
Em 2011 o prof. Curi foi coautor de 25 artigos científicos publicados. Isso corresponde a mais que 2 artigos a cada mês, além das atividades administrativas que a direção do ICD certamente exige. É muito pouco provável que o Prof. Curi tenha conseguido ler cuidadosamente cada um dos 25 artigos que levam sua assinatura, mas seguindo uma prática muito comum tem seu nome associado a todos eles. Eu tive um chefe na França que tinha seu nome em mais de 50 artigos publicados em um ano!
No entendimento das financiadoras e de boa parte da comunidade científica brasileira esses números inflados são sinal de alta produtividade científica. Tudo anda bem e o prestígio do pesquisador só aumenta, até que algum chato decide olhar os artigos com atenção. E aí a casa pode desabar...
A Folha de São Paulo e o Herton Escobar do Estadão publicam hoje notas mencionando a retratação de um artigo publicado pelo Prof. Curi e colaboradores em 2007. Eles mencionam também o quiproquó internacional no qual o prof. Curi se envolveu recentemente e que provavelmente causou a retirada do artigo.
O blog Retraction Watch, mantido por Adam Marcus, editor do Anesthesiology News e Ivan Oransky, editor executivo da Reuters Health, considerou a retratação "irônica". Ela ocorreu logo depois do fechamento do blog Science Fraud. O blog foi encerrado dia 2/1/2013 devido a uma sucessão de ataques legais (ou seja, mensagens de advogados ameaçando o autor com um processo) que ocorreu após alguém ter enviado a mais de 100 pessoas (com suspeitas de fraude científica apontadas pelo blog) o e-mail do editor do blog. Ele depois veio a público, identificando-se como Paul Brookes, um pesquisador da Universidade de Rochester. Uma carta enviada por um advogado representando o Prof. Curi foi a primeira dessa série. Por que isso correu? 
Tudo começou quando em 15/11/2012 o Science Fraud notou em seu artigo Reuso de imagens por Brasileiros (*) que a mesma imagem de controle foi usada em dois artigos diferentes, publicados em 2012, um no Journal of Cell Physiology e e um no Cellular Physiology and Biochemistry submetidos com meses de diferença.
Dia 5/12/2012, em CURIosidades nos dados, o Science Fraud mostra que em um artigo na Life Sciences de 2006 a mesma imagem foi usada para representar duas condições diferentes, que num artigo de 2007 no Journal of Lipid Research "quase todas as figuras apresentam problemas" e que num artigo de 2010 no Free Radical Biology and Medicine o reuso de imagens é tão evidente que é de se perguntar como isso passou pelo processo de revisão pelos pares.
Dia 7/12/2012, em CURIoso e mais CURIoso é mostrado que já em 2008 o mesmo truque de repetir a mesma imagem em várias figuras foi usado num artigo no Journal of Cell Physiology. E o mais curioso é que o que o artigo de 2012 mencionado dia 15/11 cita o artigo de 2008!
O Prof. Curi ficou indignado com as alegações do Science Fraud. Decidiu tomar medidas legais contra o site. Para isso buscou ajuda de um escritório de advocacia que enviou uma carta ameaçadora, a primeira recebida pelo editor do blog e postada em 17/12/2012 em Nossa primeira carta "Pare e desista". O texto, escrito em um inglês que denuncia a origem brasileira do autor, segue:
"Dear Sir or Madam, 
We do hereby inform you that we represent Professor Dr. Rui Curi, Dean of ICB-USP,  (Instituto de Ciências Biomédicas), the Biomedical Sciences Institute of the University of São Paulo in Brazil, Professor Dr. Rafael Herling Lambertucci, and other professors and researchers linked to the ICB which have been and still are the object of denigrating postings on your site. 
This is a fraud website, but there has never been a fraudulent action neither taken nor proven. Even worse is being publicly disclosed: prejudice and prejudgement not only against their authors but as well against all the involved institutions ICB, USP, FAPESP and Brazilian scientific community. 
Furthermore, these unfairly and anonymously accused Brazilian professors and researchers are also having their papers and article denied for further publications. Their students are becoming not secured anymore and everything regarding their conduct and scientific performance is being challenged. 
We inform you that such postings are triggering irreversible effect on their scientific activities since they cause the interruption of the flow of funds to their ongoing research projects at the ICB institute among others. 
One of its main public supporters, namely the FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), the Research Support Foundation of the State São Paulo has very strict regulation determining immediate suspension of funding.
http://www.fapesp.br/boaspraticas/FAPESP-Code_of_Good_Scientific_Practice_jun2012.pdf
5.9. Upon becoming aware of an allegation of scientific misconduct, FAPESP may, taking into account the seriousness of the alleged misconduct and the supporting evidence available, temporarily suspend the grant or scholarship related to the allegation if such actions are deemed necessary to protect the interest of science or preserve public health, safety and resources.
(...)
5.10.3. FAPESP may also take contractual measures, such as the cancellation of existing grants or scholarships for which those guilty of the misconduct are beneficiaries or are responsible.
We therefore urge you to remove the referred denigrating postings from your site until further clarification on the subject matters dealt with therein, under the penalty of your being held liable on a civil and criminal sphere. 
We are at your entire disposal for further comments or proceedings you may deem necessary or applicable in the present case. 
Yours very truly,"
O editor do Science Fraud não quis identificar o advogado ou o escritório por trás da mensagem. Apesar das passagens macarrônicas, é possível traduzi-la mais ou menos como:

"Caro senhor ou senhora, 
Informamos que nós representamos o Professor Dr. Rui Curi, Diretor do ICB-USP, o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, no Brasil, o professor Dr. Rafael Herling Lambertucci e outros professores e pesquisadores ligados ao ICB, que foram e ainda são objeto de postagens que os denigrem em seu site. 
Este é um site de fraude, mas nunca houve uma ação fraudulenta feita ou provada. Pior ainda, está sendo divulgada publicamente: preconceito e prejulgamento não só contra seus autores, mas também contra todas as instituições envolvidas ICB, USP, FAPESP e a comunidade científica brasileira. 
Além disso, esses professores e pesquisadores brasileiros acusados injusta ​​e anonimamente também estão tendo recusados para publicação seus trabalhos e artigos. Seus estudantes estão inseguros e tudo que diz respeito a sua conduta e desempenho científico está sendo posto em dúvida.
Informamos que as postagens estão provocando efeitos irreversíveis em suas atividades científicas já que elas causam a interrupção do fluxo de fundos para os seus projetos de pesquisa em curso no instituto ICB entre outros. 
Um de seus principais financiadores públicos, nomeadamente a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), tem um regulamento muito estrito determinando a suspensão imediata do financiamento. 
http://www.fapesp.br/boaspraticas/FAPESP-Code_of_Good_Scientific_Practice_jun2012.pdf 
5.9. Ao tomar ciência de uma acusação de má conduta científica, a FAPESP poderá, tendo em conta a gravidade da falta alegada e os elementos de prova disponíveis, suspender temporariamente a concessão ou bolsa de estudos relacionados com a alegação se tais ações são consideradas necessárias para proteger o interesse da ciência ou preservar a saúde pública, a segurança e os recursos.(...)5.10.3. FAPESP também pode tomar medidas contratuais, tais como o cancelamento de subsídios existentes ou bolsas de estudo pelas quais os culpados de má conduta são beneficiários ou responsáveis.
Por isso, solicito a imediata remoção dos referidos posts denegridores do seu site até mais esclarecimentos sobre os assuntos ali tratados, sob pena de ser responsabilizado nas esferas civil e criminal.
Estamos a sua inteira disposição para esclarecimentos adicionais ou procedimentos que julgar necessário ou aplicável no presente caso.
Atenciosamente,"

Se realmente não houvesse sinais de fraude, bastaria o Prof. Curi ter demonstrado isso. No entanto, a carta do seu advogado lança mão de argumentos preconceituosos, estapafúrdios e mentirosos, como apontado pelo próprio Paul Brookes assinando como Frances DeTriusce (um anagrama de Science Fraudster). Minha análise, baseada nos argumentos de Brookes:

  1.  A palavra "denegrir" é usada duas vezes na carta. Eu ensinei minhas filhas a jamais usar termos de conotação racista e preconceituosa. O advogado, que acusa Brookes de preconceito e prejulgamento deveria fazer o mesmo.
  2. O advogado acusa o Science Fraud de tornar públicas as acusações de fraude. Na verdade os artigos já são públicos. Brookes apenas aponta os indícios de fraude em vários artigos diferentes escritos durante um período 8 anos.
  3. O advogado afirma que artigos dos envolvidos estão sendo recusados devido à acusação de fraude. Devido ao curto tempo decorrido entre as publicações do blog e a carta, é virtualmente impossível que algum artigo tenha sido recusado por esse motivo. Em geral os periódicos científicos levam no mínimo de 3 a 5 semanas para decidir se um artigo será recusado ou publicado. Não houve tempo para que um novo artigo dos autores fosse recusado. Essa afirmação é mentirosa.
  4. O mesmo vale em relação à FAPESP. Não é razoável a FAPESP cortar algum financiamento sem uma investigação criteriosa. Na minha opinião, as acusações são suficientemente consistentes para que isso seja feito.
  5. O advogado usa a velha tática de aumentar a acusação para o ICB, a USP, a FAPESP e toda a comunidade científica brasileira. A enorme maioria dos cientistas brasileiros não manipula dados ou imagens, ou seja, não se sente em nada diminuída quando é descoberto que algum colega o faz.
  6. O advogado afirma que não há uma ação fraudulenta comprovada. No entanto, na figura abaixo há um forte indício de fraude. Eles são o resultado de uma técnica chamada western bloting. As manchas pretas sobre cinza, que em princípio deveriam ser retas, assumem formas irregulares devido a fatores fora do controle do experimentador. Cada vez que o experimento é repetido a forma muda. O Science Fraud mostrou que mesma imagem foi usada em artigos assinados pelo Prof. Curi como representando diferentes medidas. Isso poderia ser só um "engano", o que já seria grave numa publicação científica. No entanto, numa das aparições a banda marcada em rosa girou meia volta, e em uma das aparições as bandas marcadas em vermelho foram deslocadas uma coluna. Isso NÃO acontece sem que algum dos autores do artigo tenha tido a intenção de faze-lo, apesar do que afirmou o Prof. Curi na Folha.



Mesmo que pessoalmente não tenha sido o autor das manipulações de dados e imagens apontadas, o Prof. Curi foi no mínimo conivente com elas ou pior, nem leu os artigos em que aparece como autor. E buscar a ajuda de um advogado não é a atitude que se espera de um cientista de seu prestígio. A pressão por publicar muito e a qualquer preço deveria ser revista pelas financiadoras brasileiras.

Quando terminava de escrever esse artigo notei que ele está sendo discutido também no Gene Reporter do Roberto Takata e pelo Ciência Brasil do Marcelo Hermes.


(*) Os links para o Science Fraud são na verdade para o cache do Google, dado que o blog está fora do ar.

Upideite 26/2/2013: Há um artigo intrigante na página da ADUSP sobre o assunto. Aproveito para agradecer os comentários e links neles postados.

Upideite 6/8/2013: O Herton Escobar do Estadão tem seguido de perto esse caso. Ele publicou que o Prof. Curi foi inocentado pela Comissão de Integridade na Atividade Científica (Ciac) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)e também por uma comissão interna da USP. O presidente da CIAC do CNPq afirmou em nota que "a CIAC verificou que há erros na composição de figuras e na apresentação de dados, erros reconhecidos pelos autores denunciados, que indicam descuido nos procedimentos empregados na elaboração e revisão dos manuscritos em pauta. A CIAC conclui que houve falha no exercício de rigor na condução e divulgação de resultados, indispensáveis à pesquisa de qualidade.”
Eu acredito que a comissão tenha tido acesso a todos os fatos e agido dentro da maior lisura. No entanto, em tempos de imagens digitais, é muito pouco provável que uma figura apareça de ponta cabeça misteriosamente sem que alguém tenha cuidadosamente feito isso.
Durante meu doutorado eu usei muito microscopia eletrônica. Naquela época ainda não haviam sido inventados os sensores de imagem de alta resolução digitais atuais. As imagens eram registradas em filme fotográfico e reveladas por nós mesmos num laboratório fotográfico contíguo ao microscópio. Fazia parte da rotina de obter imagens marcar as placas fotográficas para saber qual o lado certo. Antes de publicar qualquer coisa nós verificávamos que não houve inversão alguma de imagem usando as marcas que tínhamos feito. Mesmo que alguma imagem tivesse sido invertida seria muito difícil alguém detectar pois cristais são simétricos e sem as marcas não é possível saber o lado certo. Esse não é o caso dos blots mostrados acima. As imagens não são simétricas, mas como elas são arquivos binários no computador não há o risco de serem processadas viradas inadvertidamente. Elas só apareceram viradas porque um dos autores propositalmente as virou.  Não precisa de CIAC para saber isso.

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