quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Cultura da Burocracia, ou a Anti-Cultura Cientifica

Cultura vai muito além do que tem nos livros e bibliotecas, museus e auditórios. Cultura é parte do que faz de um grupo de pessoas um povo. É parte dos pactos não escritos e valores que regem as relações humanas. É parte dos ritmos e imagens que nos provocam, agradam ou desagradam. No Brasil infelizmente estabeleceu-se uma cultura local do saber que torna muito difícil o avanço do conhecimento. Não é a toa que aqui é tão difícil transferir conhecimento da universidade para a indústria. Não sei como identificar as origens disso, talvez uma mediocridade geral e ignorância por parte das pessoas que construíram nossa sociedade. O que mais me perturba é o entendimento implícito generalizado de que tudo o que fazemos deve estar sujeito a regulamentações, regras, aprovações e certificações. Nunca vou esquecer do dia em que o grande Prof. Luiz Bevilacqua, então reitor da UFABC, contou gargalhando que decidiu se demitir do Conselho Nacional de Educação depois da terceira ou quarta reunião para discutir quantos minutos tem uma hora. É sério. Essas discussões culminaram no Parecer 261/2006 que felizmente em seu artigo 3o garante que uma hora tem 60 minutos. Que sorte. O perigo é quando este tipo de discussão contamina as mentes dos cientistas que passam a tratar com naturalidade situações completamente absurdas, ninguém sabe muito bem por que. Isso remete a uma pauta imensa, que vai desde o atual debate em torno da regulamentação da profissão de cientista, o exagerado número de profissões regulamentadas (devem ser mais de 50 de nível superior) até as peripécias exigidas de quem estudou no estrangeiro. Por algum motivo os brasileiros sempre desconfiam da qualidade da formação e da autenticidade dos diplomas obtidos fora.
O Brasil tem uma estranha fixação em validade de documentos. Outro dia fui reconhecer minha firma em um cartório (duas excrecências locais: o reconhecimento de firma ainda exigido em vários documentos banais e o cartório para consumar o fato) e a simpática balconista achou meu documento de identidade expedido em 16/01/1975 pela SSP/RS sem nenhuma indicação de data de validade muito velho (certamente mais velho que ela).  "Dessa vez vou deixar passar, mas na próxima o senhor vai precisar de outro." Dias depois uma situação similar ao embarcar em um vôo doméstico. "O senhor precisa providenciar outro RG pois em 2014 com a copa não vamos aceitar mais RGs antigos". Não consegui entender o que a copa do mundo de futebol tem a ver com meu RG de 1975. Será que acham que vou tentar passar por algum jogador? Ou pior, por cartola? Nem que tentasse não adiantaria...
Pior mesmo é o tratamento que damos aos diplomas expedidos no estrangeiro. Eu tive o privilégio de fazer meu doutorado no exterior. Era o fim dos anos 80. Eu achava que nunca ia conseguir trabalho no Brasil e estava um pouco resignado à perspectiva de viver em outro país, de forma que não estava muito preocupado com a burocracia brasileira. No entanto, eu conhecia alguns funcionários do consulado brasileiro em Tel Aviv, que me recomendaram fortemente "consularizar" as assinaturas no diploma, ou seja, te-las autenticadas por um funcionário consular (que age como um cartório nesses casos). A propósito, quando precisa certificar uma assinatura em Israel as pessoas não procuram um cartório (isso não existe lá com essa função), mas sim um lugar onde autenticar a assinatura é realmente importante. Sim, são os bancos que autenticam as assinaturas e não cobram nada pelo serviço, ao contrário dos cartórios brasileiros.
Mas que diploma? Como no mundo menos burocratizado o diploma não serve nem para decorar parede de consultório, a universidade não tinha pressa alguma em expedir o meu. No final do meu doutorado o diretor de um laboratório francês passou pela universidade para dar um seminário. Ele estava buscando um pós-doc com o perfil similar ao meu. Aceitei. Fui contratado como pesquisador do CNRS, o CNPq  francês. Mesmo não sendo cientista ou pesquisador uma profissão regulamentada na França e portanto sem um conselho profissional ou carteira de identidade profissional diferente dos demais mortais, assinei um contrato de trabalho, recolhia impostos e contribuía para a previdência social (francesa, claro). Muito diferente da prática brasileira de conceder bolsas sem direito trabalhista ou previdenciário algum aos pós-docs. Na dúvida, eu consultei o CNRS para saber como proceder pois não tinha diploma, muito menos tradução juramentada para o francês ou autenticação pelo consulado da França. Nada disso. Bastava uma carta em inglês (nada de tradução juramentada) do meu orientador ou do coordenador do programa de pós certificando que eu tinha defendido a tese. Assim foi, e no início de 1990 mudei para Caen sem ter o diploma, sem autenticação no consulado, sem tradução juramentada, sem ser francês, em um trabalho que exigia doutorado (Pesquisador Classe II).
Um belo dia recebi um telefonema em casa de um professor da Unicamp, oferecendo uma posição temporária de professor, que era o caminho para uma posição permanente. Apesar de ter adorado o tempo fora do Brasil, eu queria muito voltar. Cheguei na Unicamp no início de 1991 com a carta do coordenador do programa de pós-graduação em Física da Universidade de Tel Aviv atestando que eu tinha terminado o doutorado que tinha servido para os franceses (o diploma só foi expedido muitos meses depois) e algumas cópias da tese, que tinha rendido algumas publicações em periódicos. No entanto, como meu doutorado não foi feito no Brasil eu fui contratado como mestre (eu fiz o mestrado na própria Unicamp) até que a Unicamp "reconhecesse" meu doutorado. Na época existia (não sei se ainda tem) um processo de reconhecimento interno que só é válido na própria instituição, mas que ainda assim levou meses. Só então meu doutorado, obtido a partir de um trabalho apresentado à Universidade de Tel Aviv passou a ser reconhecido pela Unicamp, que só tinha me contratado porque eu tinha feito o doutorado. Maluco, não? Claro que podia piorar: algum burocrata decidiu que a Unicamp não pagaria a diferença retroativa entre os salários de mestre e doutor, pois a universidade só me reconhecia como doutor a partir daquela data. Fiquei furioso. Pensei em voltar para a França. Como podiam ter me contratado para uma posição que exigia um doutorado se achavam que meu doutorado não valia nada até a data do "reconhecimento"? Com alguma conversa e argumentação as coisas se resolveram favoravelmente. Mesmo assim, quando o diploma foi expedido, pedi a um amigo levá-lo ao consulado brasileiro para autenticar a assinatura do reitor da Universidade de Tel Aviv antes de enviá-lo para mim. Ironia das ironias, o consulado pediu para ele mesmo providenciar uma amostra da assinatura do reitor! Reconhecimento de firma meio frouxo, mas duvido que o reitor aceitasse ir até o consulado para isso.
Por essas e outras uma recente notícia no Jornal da Ciência chamou-me a atenção: Mestres e doutores com diploma no exterior buscam revalidar título. Segundo a notícia, em pleno século XXI todo semestre um grupo de mestres e doutores formados no exterior acampam junto à reitoria da UnB para garantir um dos 6 (isso mesmo, SEIS) primeiros lugares na fila para solicitar a "revalidação" do diploma. A UnB só abre seis processos desse tipo por semestre. Existe até uma pomposa Associação Nacional dos Pós-Graduados em Instituições Estrangeiras de Ensino Superior, ANPGIEES. A associação busca por todas as maneiras tornar automático o "reconhecimento" dos diplomas obtidos no exterior. Na verdade o processo de "reconhecimento" é demorado por vários motivos. Além da burocracia interna e aprovação por diversas comissões, ao "reconhecer" o diploma a universidade reconhecedora está afirmando que o mestrado ou doutorado do candidato é equivalente ao seu. Aí as coisas se complicam.
A verdadeira pergunta deveria ser: Por que isso é importante? Eu virei doutor numa tarde fria e ensolarada lá em Tel Aviv, não no dia que a Unicamp atestou que meu título é equivalente ao outorgado por ela. Um doutorado em Tel Aviv vale o que vale um doutorado em Tel Aviv. Um doutorado em Assunción vale o que vale um doutorado em Assunción. Um doutorado a distância na UBA vale o que vale. É de uma pretensão infinita as universidades públicas brasileiras julgarem se doutorados estrangeiros são equivalentes aos delas. Um doutorado em Cambridge equivale a um doutorado na UFRR (a última colocada do RUF)? Não preciso radicalizar: e na USP? Como bem lembrou recentemente em outro contexto Richard Dawkins, só o Trinity College de Cambridge tem 32 prêmios Nobel, mais que o Brasil todo (não vou aqui entrar na desagradável tarefa de contar todos os prêmios Nobel brasileiros)!
Por que somos tão fixados na validade de documentos? Um doutorado "reconhecido" no Brasil faz do doutor um pesquisador mais qualificado? Mais competente? Infelizmente, um ato acadêmico ou burocrático não muda a realidade. Não dá para mudar o número de minutos de uma hora por uma decisão de conselho, por mais egrégio que ele seja. Não dá para fingir que um doutorado de segunda ou terceira linha é equivalente ao de uma universidade de primeira do Brasil. Nem dá para fingir que um doutorado em Harvard não significa nada no Brasil se não for "reconhecido" (duvido que algum doutorado em Harvard tenha dificuldade para ser "reconhecido" em uma universidade brasileira. Se esse for o caso há algo de errado com a universidade brasileira, não com o doutor). Se durante o doutorado o estudante publicou em periódicos de prestígio, ou teve a tese publicada como um livro importante, provavelmente seu trabalho tem qualidade, mesmo que tenha sido feito em uma instituição de menor prestígio. Como é possível países como a França ou os EUA terem uma ciência muito mais desenvolvida do que a nossa sem se preocupar com "reconhecimento" de diplomas?
Antes que alguém reclame, não estou aqui dizendo que os médicos estrangeiros contratados pelo programa Mais Médicos devam ser automaticamente autorizados a exercer a medicina. Medicina, como Direito, é um caso específico no qual sim a profissão só deveria ser exercida depois de a pessoa provar uma capacitação mínima. Isso seria muito mais bem feito submetendo os médicos (não só estrangeiros) a testes e controles periódicos como o Revalida. Nos Estados Unidos nenhum médico pode chegar perto de um paciente sem antes passar por um rigoroso processo de acreditação.

Uma cultura leva muito tempo para mudar, mas para isso começar precisamos repensar nossas práticas sociais. E pensar em abolir a exigência de "reconhecimento" de diplomas de doutorado e da maioria das graduações. Um doutorado em Harvard sempre será um doutorado em Harvard, um doutorado em Assunción, especialmente a distância, sempre será um doutorado em Assunción a distância.

Em breve escreverei sobre a (equivocada) proposta de regulamentar a profissão de cientista.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Saude Quântica 2, o retorno (quântico)

São esperados até 2500 participantes, que é a capacidade do Palácio de Convenções Anhembi, no que se anuncia como "o maior evento de Saúde Quântica do planeta". Nos dias 13, 14 e 15 de setembro próximos ocorrerá o III Simpósio Internacional Saúde Quântica e Qualidade de Vida. Como é que é? Saúde Quântica? Pode ficar tranquilo que o gato de Schroedinger continua bem (ou morreu envenenado, nunca se sabe), e o píon não está causando a doença da vaca louca como seu xará príon.
Quem pagar R$ 1024 (2¹⁰, ou 1 kibi R$) poderá assistir a 3 dias de palestras versando sobre temas como "O Paradigma Quântico", "A Mente Quântica", "Os Fundamentos Quânticos da Medicina Energética e da Psicologia Energética", "Soluções Práticas para a Saúde Quântica", "Física Quântica e Espiritualidade". Como brinde extra, poderá assistir ao show com o Coral Quântico do Planeta (que provavelmente interpretará clássicos da música quântica, seja lá o que isso for). Santa quantização, Batman!
Haverá também Workshops Quânticos de 3 ou de 6 horas (pagamento a parte) e apresentação de "trabalhos científicos". Como todo simpósio sério, esse tem uma Comissão Científica.
Com um público esperado tão grande e assuntos tão relevantes, o que esse encontro tem de errado? Tudo. Trata-se provavelmente do maior encontro pseudo-científico já organizado no Brasil.
Mas afinal o que é a tal Saúde Quântica? Eu escrevi sobre o tema anteriormente. A resposta dessa vez é mais elaborada. Como aparece no resumo da palestra de abertura: ¨A dimensão quântica da realidade resgata a multidimensionalidade da existência humana e os princípios quânticos possibilitam a compreensão da interconexão entre todas as coisas e nos coloca como co-criadores da realidade desejada, convidando-nos a aprender a fazer as melhores escolhas capazes de transformar o nosso mundo interior e consequentemente a termos mais saúde e qualidade de vida." Entendeu? Nem eu. O que parece ficar claro é que dentro do melhor espírito new age, por não entenderem o que é a mecânica quântica nem a que contexto ela se aplica, essas pessoas acreditam que é possível alterar a realidade do universo invocando princípios que elas acham que estão associados à teoria. Claro, para isso tentam dar uma roupagem científica através de um linguajar rebuscado e com referências nebulosas a conceitos que o grande público não conhece mas que os conforta em suas crenças e práticas. É como uma religião na qual o deus todo poderoso é substituído por uma teoria com resultados que não fazem parte de nosso dia-a-dia (como as divindades). Nenhum dos palestrantes abordará os fundamentos e as limitações da teoria quântica, mas certamente utilizarão conceitos como o princípio da incerteza, dualidade onda-partícula, emaranhamento, colapso da função de onda em contextos nos quais eles não se aplicam. E assim "explicarão" homeopatia, acupuntura, quiropraxia, medicina ayurvedica, energias, psicoterapias transpessoais e tudo o mais que você quiser.
Na verdade a mecânica quântica nada mais é do que a teoria que usamos para descrever o universo na escala atômica ou sub-atômica. Ela foi desenvolvida a partir de observações que indicaram que nessa escala as ondas se comportam também como partículas e as partículas como ondas. Isso não é parte do nosso cotidiano, e tem consequências no mínimo surpreendentes, como a difração de partículas por uma fenda, como se fossem ondas.
O simpósio contará com a participação do simpático ex-físico transformado em guru quântico Amit Goswami, sobre o qual já escrevi um texto, e também personalidades do universo pseudo-científico além de ícones da auto-ajuda. Vale a pena conferir na página do simpósio.
O encontro é organizado por Wallace Limma ou Wallace Liimaa, que se apresenta como "físico quântico" e depois como engenheiro eletrônico. Inicialmente achei que as letras do nome dele poderiam ter sofrido alguma alteração quântica, talvez ao passar por uma fenda, mas logo me convenci que trata-se provavelmente de um teclado defeituoso pois no seu currículo Lattes Lima volta à grafia usual.
O organizador do encontro não fez mestrado ou doutorado, e provavelmente jamais realizou pesquisa séria em algum assunto que envolva a mecânica quântica (um engenheiro eletrônico com boa formação deve ter passado por cursos introdutórios sobre o assunto) e nunca publicou um artigo em alguma revista arbitrada. Ou seja, suas credenciais acadêmicas não são exatamente as de um físico ativo cientificamente. O evento tem o suporte acadêmico da Universidade Holística do Brasil (o uso da denominação universidade deveria se melhor controlado, o MEC tem uma série de exigências) , que não aparece no RUF mas oferece formação holística em Eneagrama, Sonhos, Biodanza (sic), Xamanismo, Constelação Familiar, Couraças, Caminhos da Cura, Transpessoal, Reprogramação Neural e... Física Quântica.
Os organizadores acham que eles estão ajudando a divulgar a Física Quântica no Brasil, e que já existem pesquisas e cursos na área na USP e na Unifesp. Santa ignorância, Batman! Há mais de 50 anos estudamos e ensinamos Física Quântica onde quer que haja algum curso Física pelo país. Nem nisso eles acertam.
Se você insistir em ir lá, não deixe de passar na Expoquantum, onde o "público será atendido gratuitamente nos ambulatórios com Terapias Energéticas e Quânticas". Pelo menos sai energizado. E talvez quantizado...

Agradeço ao Marcelo por ter me chamado a atenção para o evento.

Upideite: A Folha de São Paulo publicou um artigo sobre o Simpósio, adotando uma postura bastante neutra. Perdeu uma boa chance de informar as pessoas sobre esse espetáculo de pseudo-ciência.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

RUF: um ano depois, o que mudou?

Hoje foi publicada a edição 2013 do Ranking Universitário da Folha, o RUF. Como no ano passado, não posso deixar de elogiar a iniciativa de termos um ranking independente das avaliações oficiais (apesar de considerá-las na sua receita no indicador Ensino) Brasil. Isso ocorre em muitos países e tem sido um indutor de uma busca por qualidade. Não se pode desprezar nesses países a importância dos rankings na escolha da instituição por parte dos estudantes. Ao contrário do Brasil, com raríssimas exceções o ensino superior público cobra taxas dos estudantes e há uma saudável competição por talento e por recursos. Isso fica explícito no caso da Forbes, que indica junto com o resultado de seu ranking o custo anual de estudar nas instituições. Com uma média próxima a US$ 60 mil por ano entre os Top 20, trata-se de um serviço com um custo que pode ser pesado para as famílias de classe média. Os americanos economizam um dinheiro durante toda a vida para garantir uma educação de qualidade a seus filhos.

No Brasil a Folha escolheu indicadores que me parecem bem adequados à realidade brasileira: Ensino, Pesquisa, Mercado, Inovação e Internacionalização. Esse último indicador foi aplicado pela primeira vez neste ano, seguindo as tendências mundiais de considerar internacionalização um elemento indispensável na formação com qualidade. Os indicadores escolhidos deixam claro que mais do que ser um ranking fortemente voltado para os resultados em pesquisa como o ARWU (que desencadeou em 2003 a febre mundial por rankings), o RUF busca ser a exemplo do US News e do Forbes um indicador para o estudante brasileiro: onde é melhor estudar?

Um ranking que se preza precisa ser minimamente estável, ou seja, não mudar radicalmente as posições de um ano para o outro. Nesse sentido, o RUF é bem coerente: Algumas top 20 mudaram um pouco de posição mas apenas uma não estava entre as top 20 do ano passado. Poucos rankings internacionais conseguem essa façanha.

Mas será que o RUF está avaliando consistentemente todos os indicadores? Uma rápida análise gráfica pode ajudar a responder a essa pergunta. Eu representei cada um dos parâmetros em função da colocação geral no ranking.

O indicador Pesquisa é o que tem a melhor correlação com a classificação geral. Isso é um pouco óbvio se levamos em consideração que pesquisa corresponde a 40% do ranking (menos que os 55% de 2012). A segunda melhor correlação é para o Ensino, que corresponde a 32% (era 20% em 2012). Metade das instituições não pontuaram em Inovação, mas mesmo assim a correlação é boa até a centésima colocação, e a partir daí fica tudo empatado. Mesmo valendo apenas 4%, é de se esperar que a inovação esteja nas instituições onde há pesquisa.  Pesquisa foi avaliada a partir do número de patentes depositadas no INPI, ou seja, devem ser resultado de atividades de pesquisa aplicada. Esse indicador é um pouco injusto com as instituições menores, dado que não foi ponderado pelo número de docentes. Que é melhor para o estudante? Estar numa instituição onde poucos professores de um universo extenso submetem patentes ou onde quase todos os poucos professores submetem patentes?
E aí aparecem os indicadores problemáticos: Mercado e Internacionalização. Já na versão anterior eu havia chamado atenção para a fragilidade do indicador Mercado: uma pesquisa de opinião feita junto a 1681 responsáveis pela área de recursos humanos de empresas que atuam na área dos 30 cursos de graduação avaliados pelo RUF. Como argumentei no ano passado, essa metodologia não pode trazer resultados confiáveis. Basta olhar o gráfico que mostra a total ausência de correlação entre a avaliação do Mercado e a classificação no ranking, mesmo com esse indicador valendo 18% do total. Mais que isso, aqui sim ocorrem instabilidades importantes: A Unicamp estava em 42 no ano passado pulou para 11 nesse ano. A UNESA saltou de 56 para 16 no mesmo período. É pouco provável que de um ano para o outro o mercado tenha mudado tanto. O problema não está no indicador mas na metodologia incrivelmente frágil que a Folha adotou. Por exemplo, a Forbes avalia esse indicador considerando o grau sucesso dos egressos em suas profissões escolhidas. Para isso ela avalia o salário médio dos  formados, o número de egressos em posições de direção em empresas selecionadas e em listas do tipo Who's Who (tenho dúvidas sobre essa última, já me pediram autorização para me colocar nela várias vezes...). De qualquer forma são indicadores de sucesso no mercado muito mais robustos do que perguntar para responsáveis por RH.  É mais importante formar o diretor de uma empresa ou ser lembrado pelo responsável por RH?

O novo indicador de Internacionalização padece de problemas similares (mas por razões distintas) e como consequência apresenta também baixa correlação com o resultado do RUF. Ele considerou as citações internacionais por docente (essencialmente um resultado de pesquisa de qualidade), as publicações em coautoria internacional (interessante, mas restrito às universidades que publicam e sujeito a efeitos do tamanho da instituição) e o percentual de docentes estrangeiros (esse é usado no mundo todo). Faltou o indicador mais importante e relevante para os estudantes, que é a presença de estudantes estrangeiros. Várias universidades estão há anos fazendo um esforço enorme para atrair estudantes estrangeiros em graduação e pós, mas isso foi ignorado pela Folha.  Da mesma forma, especialmente depois do Ciência sem Fronteiras, é importante considerar o percentual de estudantes da instituição em intercâmbio no exterior. Tendo participado de vários eventos de internacionalização do ensino superior nos últimos anos, tenho claro quais as universidades mais internacionalizadas do Brasil. Várias não figuram entre as Top 20 do RUF neste indicador.

A Folha tem dado uma atenção especial à qualificação e à internacionalização do ensino superior brasileiro, inclusive tendo proposto o RUF. É muito importante que ela preste atenção a detalhes que por menores que pareçam podem ter uma forte influência no resultado.

Dia 10 de setembro será divulgada a edição 2013/14 do QS World University Ranking, que tem um perfil muito similar ao RUF (Disclaimer: Sou membro do Advisory Board).

Vale a pena conferir o que aparecerá por lá e tentar entender as eventuais diferenças em relação ao RUF. Cada ranking tem suas qualidades e limitações. Não devemos considerá-los como verdades absolutas. Aliás, nada deve ser considerado dessa forma...
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