domingo, 12 de outubro de 2014

O Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente


Entre 14 e 16 de novembro próximo ocorrerá no sofisticado hotel Royal Palm Plaza em Campinas o Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente. Eu não errei na edição nem você leu errado. Trata-se do Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente (SPCBDI). O Primeiro Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente ocorreu (ou pelo menos foi anunciado) em 10 e 11 de dezembro 2010 no mesmo local. O SPCBDI não seria mencionado aqui no Cultura Científica se não fosse por dois motivos:
  1. Ele se apresenta à sociedade como um congresso científico, mas como vou argumentar adiante ele é na verdade um evento pseudo-científico.
  2. Mais grave, os organizadores pretendem divulgar o "Primeiro Manifesto público TDI-BRASIL sobre o ensino da evolução e do Design Inteligente em nossas escolas e universidades públicas". Ou seja, pretendem trazer ao Brasil o ensino de pseudo-ciência como se fosse ciência, repetindo a tática que usaram e foi refutada nos Estados Unidos.
A aula de hoje sobre "design inteligente" em biologia terminou. Agora vamos começar a aula de "geografia inteligente"...
A Teoria do Design Inteligente (TDI) é uma manifestação contemporânea do argumento teleológico.  Esse argumento consiste em supor a existência de uma entidade inteligente no universo, baseado na percepção de supostas evidências para um projeto deliberado na natureza e no universo físico. No TDI, essa percepção envolve conceitos como complexidade irredutível, ou homoquiralidade em sistemas biológicos, que seriam evidências de que o processo evolutivo não poderia ter ocorrido por acaso. Na verdade, ela resulta de uma compreensão limitada e enviesada da Teoria da Evolução e da origem do universo por parte de seus proponentes. Não por acaso, eles escolheram Charles Darwin como seu inimigo maior não cansam de afirmar que a base da biologia contemporânea "é apenas uma teoria".
Já ha muitos anos o movimento TDI perde importância nos Estados Unidos, onde ganhou muita visibilidade nos anos 1980 e 90. Lá há uma forte tradição religiosa que entre outras fez com criacionismo fosse ensinado nas escolas públicas como uma alternativa ao modelo científico das origens do universo e da vida.  Em 1987 a Suprema Corte decidiu no processo Edwards vs. Aguillard que o ensino de criacionismo nas escolas violava a Constituição. O criacionismo voltou aos bancos escolares na forma de TDI. Adeptos da TDI se dizem cientistas e afirmam que sua teoria é científica. Só que o TDI não segue o metodo científico e não pode ser considerada ciência. Isso desagradou pais de 11 alunos no Distrito de Dover, Pennsylvania, que abriram o processo Kitzmiller vs. Dover Area District. Eles não queriam que pseudo-ciência fosse ensinada a seus filhos na escola. Em 2005 o juiz decidiu que TDI é uma forma disfarçada de religião e não deve ser ensinado como ciência nas escolas públicas. Esse episódio é muito bem contado no documentário da BBC A War on Science, que apresenta a argumentação do TDI e da ciência.
Cabe sempre lembrar que artigos usando argumentos de TDI nunca foram aceitos para publicação nos periódicos científicos mais prestigiosos. TDI não é ciência, mas tem todas as características de pseudo-ciência: ideias não-científicas ou anti-científicas apresentadas com roupagem científica. Obviamente, se seus argumentos fizessem sentido ou trouxessem uma explicação melhor para a evolução do que o que temos, atualmente ela seria aceita nos meios científicos.
No Brasil o movimento de TDI se confunde com o criacionismo cristão e uma leitura literal do Novo Testamento. Ele está intimamente ligado ao crescimento das religiões protestantes e a uma forma particular de pregação religiosa. Isso tem consequências na política, nos meios de comunicação e obviamente na sociedade como um todo.
Ultimamente, entidades e pessoas religiosas vêm buscando legitimar o TDI no meio acadêmico brasileiro. A Universidade Presbiteriana Mackenzie organizou eventos para "discutir" o darwinismo hoje. Esses eventos na realidade eram um palco para adeptos do TDI mostrar suas ideias em uma universidade. Nunca um especialista em evolução esteve entre os palestrantes. Essa certamente não é uma boa estratégia para uma universidade protestante privada brasileira que busca ganhar prestígio científico com iniciativas como um Centro de Pesquisas em Grafeno. Isso foi comentado aqui no Cultura Científica mais de uma vez.
No ano passado um evento de TDI na Unicamp foi cancelado na última hora devido a manifestações de professores (eu entre eles) preocupados com as consequências simbólicas que ele poderia ter para a universidade. A Unicamp é uma das melhores universidades da América Latina. Ganhou esse prestígio a custa de muito trabalho e publicações em periódicos sérios. Não havia nenhuma razão para emprestar esse prestígio a um movimento pseudo-científico.
Então começou a ser organizado o Congresso de TDI, em Campinas mas fora da Unicamp. É um direito das pessoas se reunirem para tratar de qualquer assunto, científico ou não, desde que não violem as leis do país. Só que o congresso foi anunciado na lista de emails oficial da Unicamp como "um evento histórico", o que causou novamente protestos. Rapidamente o anúncio foi retirado de sua página. A mesma coisa ocorreu na página da Sociedade Brasileira de Química, onde um anúncio similar apareceu e foi retirado em 2 dias. Ironicamente, imediatamente foi anunciada a conferência de Donna Blackmond sobre "A Origem da Homoquiralidade nos Seres Vivos" na 38ª Reunião Anual da SBQ. A Profa. Blackmond é uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Homoquiralidade é uma das supostas evidências para a TDI, propalada por pessoas que têm um entendimento limitado da termodinâmica, como já demonstrado pelo grupo da Dra. Blackmond.

O Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente apresenta sina
    is de ser de um encontro pseudo-científico. Como comparação, busque na web qualquer encontro científico sério para notar as diferenças:
    1. Na página de Notícias do SPCBDI há links para notícias sobre o evento. Todas (ou quase) são para páginas evangélicas como Púlpito Cristão, Gospel Prime, ANAJURE, etc. Congressos científicos são noticiados em páginas de sociedades científicas, financiadoras da ciência e universidades sérias. Não há nada mais óbvio para um evento de cunho religioso do que ser noticiado em blogs e páginas religiosas.
    2. O SPCBDI tem um "Comitê Científico", que corresponde ao Comitê de Programa. Esses comitês são em geral formados por professores experientes e exponentes da pesquisa na indústria ou institutos sérios, e têm como função decidir o programa do evento. Não precisa apresentar os currículos dos membros pois a comunidade os conhece e respeita. No SPCBTDI os 104 membros (da última vez que contei, mas está aumentando a cada dia) apresentam um currículo. Pouquíssimos se descrevem como especialistas em TDI (na verdade um ou outro). O comitê é na verdade um grupo de apoiadores do movimento, creio eu que em sua enorme maioria evangélicos, muitos com credenciais científicas incompatíveis com a participação em um comitê de programa. Nenhum membro do comitê científico tem em seu currículo publicações científicas sérias envolvendo TDI porque TDI não consegue ser publicada em periódicos científicos sérios. TDI é pseudo-ciência.
    3. Congressos científicos têm como patrocinadores em geral agências de fomento, universidades prestigiosas, fabricantes de equipamento relevante para o meio. Congressos pseudo-científicos podem ser patrocinados por fábricas de esquadrias, concessionárias de veículos, fábricas de colchões e universidades evangélicas.
    Causa especial preocupação o tal documento que tentará introduzir pseudo-ciência nos currículos escolares ou de ensino superior público, como uma alternativa "democrática" à ciência, para que os estudantes "possam ouvir todos os lados" e fazer escolhas. Infelizmente argumentos desse tipo costumam ser usados com pessoas de boas intenções, com espírito democrático mas que não conhecem ciência e o processo de pesquisa científica. Teoria científicas não se impõem porque estão escritas em livros sagrados, mas porque são as que melhor dão conta dos fatos.

    Ensinar religião como se fosse ciência nas escolas seria um enorme retrocesso para nossa educação. Nenhum cientista em sã consciência iria a um terreiro de candomblé dizer que os orixás não criaram e controlam o mundo, ou na igreja evangélica dizer que o mundo não foi criado em 6 dias.

    Melhor deixar a ciência na escola, a religião nos templos.

    Upideite 14/10/2014: Foi publicado hoje no blog Teoria de Tudo, do Rafael Garcia, um ótimo texto acerca do debate científico sério sobre evolução. Ele faz referência a dois artigos na Nature em que são confrontadas as ideias dos defensores da chamada Síntese Evolucionária Estendida  (SEE) com a Teoria Evolucionária Padrão (TEP). Os defensores da primeira afirmam que há uma revolução da compreensão que temos da biologia no horizonte pois segundo eles "indutores importantes da evolução, que não podem ser reduzidos a genes, devem ser incorporados ao âmago da teoria evolucionária". Os defensores da TEP dizem que não há dificuldades fundamentais em incorporar mecanismos não-genéticos à compreensão da evolução. Eu particularmente concordo com o Rodrigo na análise: Se por um lado a SEE pode ter ingredientes importantes para expandir nossa compreensão do processo evolutivo, ela não apresenta nenhum rompimento paradigmático com a TEP. É assim que a ciência de verdade avança. Sem recorrer ao sobrenatural ou a divindades inteligentes.

    Upideite 11/11/2014: O programa do encontro está fechado. O evento vai terminar "com chave de ouro" com a palestra de um Físico. Para provar o ouro da chave o currículo do palestrante é apresentado, com uma certa pompa e aparece até o título do artigo publicado no J. Vac. Sci. & Tech. A em 1992. Só tem um problema: Em geral currículos de Físicos não citam o nome de cada artigo publicado. Uma rápida busca no Lattes confirmou o que eu temia: O palestrante publicou um único artigo em toda sua carreira. Isso não é errado nem negativo, mas dá uma ideia do padrão científico do evento.


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