domingo, 24 de maio de 2015

Why Dawkins matters?

Richard Dawkins está de volta ao Brasil para participar da série Fronteiras do Pensamento. Ele dará palestras em Porto Alegre e São Paulo.

Richard Dawkins é talvez um dos intelectuais mais importantes do nosso tempo. Não por acaso, é o cientista que os criacionistas e adeptos do intelligent design mais adoram odiar e criticar.

Richard Dawkins Cooper Union Shankbone.jpgRichard Dawkins é um biólogo evolutivo que ganhou fama com seu livro O gene egoísta, que foi publicado originalmente em 1976. Esse livro tem como ideia central o protagonismo dos genes no processo evolutivo. A partir dessa ideia Dawkins resolve um paradoxo que me preocupava muito nas aulas de biologia sobre evolução no ensino médio: o que os professores chamavam de instinto de preservação da espécie. Isso faria com que os animais fossem solidários e adotassem estratégias de sobrevivência como um grupo. Eu nunca entendi bem o que faria com que um peixe ou um caramujo ou um polvo sacrificasse sua vida para que seu coleguinha de espécie sobrevivesse. Parecia muito paradoxal para animais com capacidade de raciocínio muito limitada ou nula. Até hoje pessoas escrevem artigos invocando esse "princípio". Na verdade não tinha mesmo o que entender. Usando seu modelo e alguns algoritmos matemáticos Dawkins desvenda o enigma: a razão é simples. Espécies que não apresentam traços de altruísmo e solidariedade simplesmente desaparecem ao longo do processo evolutivo. São extintas. Altruísmo é uma estratégia estável evolutivamente. Ausência de altruísmo não é. Depois de ler a argumentação de Dawkins parece óbvio. A favor de minhas professoras de biologia, é importante notar que que estudei exatamente quando o livro era publicado e naquela época ele não deve ter chegado ao Brasil tão rapidamente. Quando li esse livro, na edição comemorativa ao seu trigésimo aniversário, fiquei tão fascinado que me perguntei se eu não teria seguido uma carreira em biologia evolutiva se o tivesse lido na época certa. As ideias de Dawkins foram fortemente criticadas por pesos pesados da biologia como Ernst Mayr ou Stephen Jay Gould. A ciência funciona assim: evolui a partir de críticas bem embasadas e consistentes.

Richard Dawkins não parou por aí. A Zero Hora propõe a leitura de 5 livros para entendê-lo. Um que eu gosto muito é o Relojoeiro Cego de 1986. Nesse livro Dawkins explica com uma linguagem acessível como é possível a evolução resultar em seres mais complexos sem a intervenção de uma mente suprema. Em outras palavras, é uma excelente aula de recuperação para os adeptos do intelligent design que faltaram à aula sobre segunda lei da termodinâmica, ou nunca a estudaram ou pior, não a entenderam.

Richard Dawkins provavelmente não teria sido convidado para o evento do Fronteiras porque propôs uma teoria que explica o instinto de preservação da espécie,  ou por ter explicado em linguagem simples a segunda lei da termodinâmica para adeptos do intelligent design. Dawkins aborda uma questão fundamental na sociedade contemporânea em seu livro de livro Deus, um Delírio (eu gosto muito mais do título em inglês, The God Delusion). Nesse livro Dawkins toma uma posição extremamente lúcida e corajosa sobre o diálogo ciência-religião. Segundo Dawkins, a existência ou não de um Deus (ou vários Deuses) é uma hipótese científica e pode ser testada. A resposta dos testes até agora tem sido: "Tudo indica que não existe um Deus (ou vários Deuses) determinando os processos naturais." Isso é muito diferente do que outros intelectuais/cientistas vinham afirmando. Para preservar uma boa convivência com o establishment religioso, o já citado Stephen Jay Gould criou a expressão magistérios não-interferentes (Non-overlapping magisteria, ou NOMA). Segundo Gould, "A ciência busca documentar o caráter factual do universo natural e desenvolver teorias que descrevem e explicam esses fatos. A religião, por outro lado, atua no igualmente importante, mas completamente distinto, reino dos propósitos humanos, significados e valores - assuntos que o  domínio factual da ciência pode iluminar mas jamais resolver." Esse dois reinos são o NOMA. Obviamente a visão de Gould é diplomática num contexto em que a grande maioria da população crê em um ou mais Deuses. Dawkins insiste que as pessoas são livres para acreditarem no que querem, mas é um erro estratégico a religião buscar legitimidade no domínio científico. A ciência tem sido bastante compatível com a ideia de que não existe um ou mais Deuses. É exatamente por isso que as ideias de Dawkins vão muito além da sua contribuição à teoria da evolução. É por isso que os religiosos e adeptos do intelligent design odeiam Dawkins e tentam sempre colocar em dúvida sua contribuição à ciência. É por isso que as ideias de Dawkins importam.

Richard Dawkins mantém a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência.

Para quem como eu não poderá assistir as palestras de Dawkins, recomendo assistir os documentários The Root of All Evil e The Enemies of Reason.

O título desse texto é inspirado no livro de Michael Shermer Why Darwin Matters.

Esse post é dedicado a Norma e Duda, minhas professoras de biologia lá nos idos dos anos 70. 

Upideite 29/05/2015: Azar dos azares, Dawkins tropeçou ao entrar no avião e caiu quando ia embora do Brasil. Teve um corte na cabeça que precisou de uma sutura. Contra sua vontade (ele queria ir embora) foi levado a um hospital onde foi suturado. Dois comentários dele dignos de nota:

  1. Ficou impressionado por ter tido que esperar pouco no hospital, comparado com o que esperava a partir de sua experiência com hospitais britânicos.  Ele provavelmente não foi levado a um pronto socorro do SUS.
  2. Nenhum enfermeiro ou paramedico que o atendeu falava uma palavra em inglês. O médico era fluente em inglês. Mais um retrato da sociedade brasileira.

3 comentários:

Clarissa disse...

Sem contar que ele é o criador do "meme", uma idéia linda linda linda...e depois que a gente conhece e entende mais óbvia impossível.

Mário disse...

Olá Dr. Leandro,

Nós cristãos não odiamos ninguém não Sr. Leandro, mas pelo contrário o amamos e sentimos muita pena dele e das pessoas que vivem nesse mundo sem ter esperança; e essa esperança que falo não tem nada a ver com religiões, mas sim de conhecer a Jesus e se relacionar com ele... espero que um dia tenham a oportunidade de conhecê-lo. Abs.

skox disse...

Saudações, pessoal ...

Seguinte: gostei muito deste blog e todos os seus posts e obviamente este também. Entretanto, gostaria de perguntar sobre três questões relativas sobre certos conceitos criados por Richard Dawkins [como os memes e a "ciência que os estuda"] e sobre um livro dele recente, não sei se vcs já o conhecem, esta obra que eu recomendo se chama "A GRANDE HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO" ----- ver um link da Folha resenhado o livro http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2706200912.htm

1º pergunta) é possível que os memes fisicamente existam ??? Não estou falando dos desenhos de memes da internet, virais do tipo "fuck yea", "forever alone", "trollface", "fuckface", etc. Mais exatamente, o que desejo saber é se o "análogo criado por Dawkins" pra atitudes mentais como idéias, pensamentos, etc pode ter alguma espécie de base neurofisiológica e se isso tudo pode [ou poderá] ser comprovado cientificamente.

2ª pergunta) A memética é uma ciência, já testada e com total credibilidade ??? Ou então, deve demorar um período de tempo incerto para a reputação desta ciência ser construída ... Uma ótima reportagem sobre esta pergunta específica pode ser encontrada na Revista Superinteressante edição 192 [setembro de 2003].

3ª pergunta) Se vcs já conhecem o livro que indiquei na introdução deste comentário, o que acharam dele ???????

Desde já, grato por tudo e até a próxima ...

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