quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vi verde luz

Está previsto para o dia 19 de agosto de 2015 na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp o curso introdutório Viver de Luz . Quando vi o título fiquei muito contente. Entendi que os pesquisadores em genética da Unicamp haviam finalmente conseguido introduzir no genoma humano genes capazes de sintetizar clorofila. Fazendo fotossíntese, finalmente os humanos poderiam dispensar alimentos e viver de luz, como as plantas. Por um instante comecei a imaginar a repercussão que o feito teria. Talvez finalmente uma pesquisa brasileira candidata ao Prêmio Nobel.
Quando parei para ler o conteúdo do curso voltei à dura realidade. Trata-se na verdade de uma mesa redonda da qual participarão um "médico antroposófico" e um "terapeuta, pesquisador de homeostase quântica informacional". Nem vou discutir se medicina "antroposófica" deve ter espaço na universidade. O que será homeostase quântica? Para entender esse sutil conceito é preciso buscar informação na fonte: a página web do Instituto Quantum, aparentemente mantido pelo terapeuta convidado. Minha primeira impressão na página é que se tratava de um lugar que estuda os elementos das terras raras: há um modelo de um átomo de Európio (Eu) na entrada. Curiosamente só com 5 dos 63 elétrons do elemento, num modelo de Bohr simplificado que não faz jus à complexidade dos orbitais f que caracterizam esse elemento.
Segundo o Instituto Quantum, homeostase quântica da essência (não consegui entender se é o mesmo que informacional), é uma "terapia vibracional que ensina as pessoas a adquirirem o autocontrole da saúde emocional, mental e física, capacidade natural do ser humano que depende apenas do correto entendimento de como acessá-la ". Acho que não entendi. Mas onde entra a equação de Schroedinger, a quantização? "Através do estudo quântico dos três elementos da Essência humana, da conscientização, interação e da metodologia correta para manter a harmonia entre eles, as pessoa (sic) além de aprenderem que é possível controlar a mente, as emoções e o corpo físico, aprenderão a viver de maneira saudável e feliz, assumindo o controle de suas vidas e desfrutando da independência adquirida. Aprenderão também que não é preciso acreditar para conseguir alterar os sentimentos, basta querer." Continuei sem entender. Encontrei um vídeo do terapeuta em que ele é mais explícito, com legendas em inglês para mostrar para o mundo que a coisa é séria. Ai meu bom Max Plank, mais um que invoca teu nome em vão...
O entrevistado mostra, em todas suas referências, que tem um entendimento muito particular da Mecânica Quântica, em descompasso com o que qualquer estudante de Física sabe. Em suma, um amontoado de bobagens de auto ajuda, com as palavras que esse pessoal adora: vibrações, quantum, consciência, dessa vez junto com homeostase; no mesmo estilo da aula sobre "Saúde quântica" dada na UNIFESP que já comentei aqui.
Deixar-se enganar por um terapeuta que não entende a Física Quântica e diz bobagens sobre ela é um direito do cidadão. Não há nada de errado em ter crenças esquisitas.
Lamentável é isso se transformar em um evento oficial na Unicamp, com um cartaz exibindo os logos da Universidade e da Faculdade de Ciências Médicas.
O que faz da Unicamp uma das melhores universidades da América Latina é a seriedade e o rigor nas suas atividades. Quando uma unidade da universidade abre espaço para esse tipo de coisa ela está validando pseudociência como se fosse uma atividade científica. É um caminho extremamente perigoso para sua reputação. Não deve haver espaço para atividades pseudocientíficas em universidades sérias. Universidades têm a responsabilidade de mostrar à sociedade o que é possível a partir do conhecimento científico, e indicar a diferença entre ciência e crença de alguns travestida de ciência.
Assim como outros professores da universidade, mandei uma mensagem ao Diretor da FCM alertando para a leviandade por trás da "homeostase quântica", que aliás nunca foi publicada em revista científica séria. Solicitei que a Faculdade retirasse o apoio institucional ao curso. Até agora sem resposta.
Infelizmente parece que a Unicamp está no mesmo perigoso caminho da UNIFESP: confundir o público validando práticas da nova era. Não deve haver espaço para pseudociência na universidade. Como um pacato cidadão pode saber a diferença de eficácia entre a "homeostase quântica" e os cursos com base científica oferecidos pela universidade, se todos são tratados institucionalmente da mesma forma? Qual o interesse em oferecer aos estudantes de medicina e ao público um curso sem base científica?

Ao contrário do que afirmei ironicamente acima, o Eu do átomo do Instituto Quantum não é o símbolo do Európio, mas o pronome pessoal Eu, que para os mecânicos quânticos da nova era deve parecer um átomo de boro...
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