domingo, 14 de maio de 2017

MackIntelligentDesign


A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) é uma universidade privada com iniciativas sérias em pesquisa. O MackGraphe, Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno, Nanomateriais e Nanotecnologias parece seguir na direção das boas universidades do mundo. Trata-se de um centro de fazer inveja a qualquer instituição privada brasileira (e também a muitas instituições públicas), dedicado principalmente à pesquisa avançada em grafeno, uma camada monoatômica de carbono com propriedades muito interessantes e potenciais aplicações.
Com centros desse tipo a UPM poderia ser uma instituição de destaque no cenário latino-americano. Bastaria seguir o modelo estabelecido por algumas das melhores universidades protestantes do mundo. Por exemplo a Princeton University é uma instituição que como a UPM começou como uma iniciativa de missionários presbiterianos. Ao longo da história ela teve seu nome associado a não menos que 41 ganhadores do Prêmio Nobel, entre eles Albert Einstein. O prestígio acadêmico de Princeton é resultado da liberdade acadêmica de seus quadros e o compromisso com os resultados obtidos por seus pesquisadores e cientistas, mesmo quando esses resultados contrariam as crenças de seus administradores.
No entanto, enquanto cientistas sérios realizam suas pesquisas em grafeno, fotônica ou materiais complexos, a poucos metros do MackGraphe, abrigadas pela mesma universidade, outras pessoas dedicam-se discutir e propagar ideias pseudo e anticientíficas. Obviamente refiro-me ao recém-inaugurado Núcleo de Pesquisa Mackenzie em Ciência, Fé e Sociedade – Discovery-Mackenzie. Esse centro propõe-se a "promover estudos científicos focados em complexidade e informação na busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza." Em outras palavras, ele se dedica a negar uma das mais bem estabelecidas bases da biologia contemporânea: a evolução. O Núcleo Discovery-Mackenzie  está associado ao infame Discovery Institute, sediado em Seattle. Esse instituto tem se dedicado a propagar a falsa percepção de que a evolução é "uma teoria em crise" através de alegação incorreta de que ela é objeto de ampla controvérsia e debate dentro da comunidade científica. Não é. Mais que isso, ele propõe a ideia pseudocientífica do intelligent design como alternativa. Isso nada mais é do que tentar forçar a concepção de universo de uma certa religião como se fosse realidade científica. O Discovery Institute enfrenta forte oposição nos Estados Unidos e vem tentar a sorte em terras que entende mais promissoras para propagar sua pseudociência.
Eu tinha a esperança de que a inauguração do MackGraphe marcaria uma nova era para a UPM, que ela deixaria para trás as atividades pseudocientíficas criacionistas que a caracterizaram entre 2008 e 2012 e que já discuti no blog. Parece que não.
A UPM pode decidir o que quer para seu futuro. A exemplo de Princeton, Yale e outras ela pode abandonar o fundamentalismo religioso e tornar-se uma referência científica, como vem ocorrendo nas PUCs do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul (entre outras) ou senão insistir na mediocridade pseudocientífica dos criacionistas e propaladores do intelligent design. Tentar usar a estratégia de validar academicamente ideias claramente religiosas só desqualifica a instituição. Enquanto o MackGraphe contribui para o avanço da ciência e publica seus resultados em periódicos científicos de prestígio internacional, o Núcleo Discovery-Mackenzie ou MackIntelligentDesign continuará propalando sua pseudociência para o delírio de religiosos e incautos. Nenhum periódico científico sério jamais publicou artigos defendendo o intelligent design. Isso não trará prestígio à UPM. Nenhuma instituição séria no mundo mantém um centro dedicado à pseudociência.

Ontem foi publicado um texto com uma argumentação distinta mas com espírito muito semelhante a este. Recomendo a leitura.

Upideite 1 15/05/2017: O meu amigo Carlos Orsi também publicou um texto com o mesmo espírito em seu blog. Design Inteligente é propaganda, não​ ciência.

Upideite 2 15/05/2017: Enquanto eu terminava esse texto uma emissora de TV religiosa se unia a uma universidade com padrão acadêmico duvidoso, como argumentado acima, para transmitir essa maravilha de propaganda pseudocientífica. O título não podia ser mais mentiroso. Note que os americanos  são apresentados como se fossem cientistas prestigiados (não são). Um brasileiro curiosamente dirige o centro fora da sua própria universidade, que tem um padrão acadêmico que não permitiria o estabelecimento de um dentro de pesquisas em pseudociência.

domingo, 23 de abril de 2017

Onde foi que eu errei?

Um texto meu de 2008 recebeu recentemente talvez o melhor e mais inteligente comentário que já foi feito nesse blog. Infelizmente o autor (ou autora) não se identificou. Segue a íntegra do comentário. Eu adicionei links onde achei relevante:
Cientistas sérios não deveriam se desviar demais das lições da epistemologia. Ninguém é obrigado a concordar com Feyerabend, por exemplo, mas de forma geral a epistemologia contemporânea não só justifica como endossa a criação de linhas alternativas e não paradigmáticas da ciência. Numa perspectiva pós-moderna, Amit Goswami presta serviço à ciência e à sociedade na medida em que produz discursos ricos e de alto valor social, que envolvem filósofos, religiosos, políticos e cientistas, aproximando comunidades inteiras do pensamento científico e criando diálogos, ainda que não caibam nos corredores dos departamentos de física. Não se trata de forma alguma de um embusteiro, mas de alguém que diverge da postura dominante, branca e ocidentalizada do conhecimento. Os físicos deveriam levantar a mão para o céu em agradecimento ao deus que não acreditam por Goswami reascender a vontade de milhares de pessoas de conhecer mais a física e a ciência, ajudando-as a dar os primeiros passos para fora de um cotidiano não-científico, oferecendo um discurso que dialoga a partir desse mesmo cotidiano. Em vez disso ficam preocupados com certa cruzada mecanicista que não encontra apoio nem ouvidos. Sou ateu e não creio numa palavra de Amit Goswami. Mas não vou levar adiante um ceticismo que resvala no preconceito, como muitas vezes as vozes dominantes tão admiradas (inclusive por mim) como a de Sagan, por exemplo, chegou a resvalar. Ao final, o que faz mal à civilização não é a "pseudociência" e sim uma estrutura econômica e política sórdida, da qual a ciência ocidental tem sido aliada incondicional por quatro séculos. Essa sim é responsável pela ignorância científica global.
Por coincidência (ou não) o comentário foi feito pouco antes da Marcha pela Ciência e na mesma semana em que tomei conhecimento de um ótimo texto sobre o pós-modernismo escrito por Helen Pluckrose (há uma versão em português aqui).

Não há a menor dúvida de vivemos tempos complicados para a ciência. Líderes mundiais negam seus resultados. Aqui no Brasil o ex-Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação destinou R$ 10 milhões para uma pesquisa rigorosamente anticientífica (não a pesquisa em si, mas o assunto). Como bem mencionado pelo jornalista científico Michael Specter em seu TED talk, nunca houve um tempo como o atual. Vivemos mais e melhor do que em qualquer outra época devido ao sucesso do método científico. Por que cientistas precisam marchar pela ciência? Por que as pessoas preferem a versão mistificada da ciência proposta por Goswami, o auto intitulado ativista quântico com suas respostas fáceis? Onde foi que nós erramos?

Provavelmente essa questão tem mais de uma resposta, mas ultimamente eu tenho estado muito atento à negação da ciência no próprio meio acadêmico. Em universidades do mundo todo, a poucas dezenas de metros dos departamentos onde ocorrem descobertas científicas grupos de intelectuais se dedicam a discutir a negação da ciência. Citando o texto de Pluckrose, "Acima de tudo, pós-modernos atacaram a ciência e seu propósito de alcançar conhecimento objetivo acerca duma realidade que exista independente das percepções humanas, as quais têm por só mais uma forma de ideologia dominada por suposições burguesas ocidentais." Para eles a ciência nada mais é do que uma construção europeia, ocidental e opressora. Isso se expressa de uma forma particularmente lamentável na África. Eu tive a oportunidade de participar da conferência Going Global 2016, organizada pelo British Council na belíssima Cidade do Cabo, África do Sul. Houve uma sessão chamada "Decolonising the curriculum: a catalyst for change?" na qual os apresentadores reivindicavam a substituição dos conteúdos científicos supostamente europeus por conteúdos genuinamente africanos. Eu da plateia ingenuamente perguntei se existe uma mecânica africana, ou uma teoria eletromagnética africana, ou uma teoria quântica africana. Um dos palestrantes me olhou com desdém, perguntou de onde eu era (apesar de eu ter me identificado ao perguntar) e passou a discorrer sobre o quanto a ciência como ela existe hoje é um mecanismo de opressão e colonização. Confesso que não entendi bem a resposta.

Caro(a) anônimo(a), Goswami presta um desserviço à ciência e à sociedade na medida em que baseia muitas de suas afirmações em experimentos fraudados, publicados em periódicos sabidamente pouco cuidadosos com o rigor científico, e vende sua interpretação pessoal de fenômenos quânticos como se fossem um passo além do entendimento científico. Dessa forma ele reforça as crenças pré concebidas de seus incautos seguidores. A postura dominante, branca e ocidentalizada diante do conhecimento se confunde com o próprio conhecimento. Sim, ciência como nós a entendemos é uma criação europeia que se desenvolveu muito nos Estados Unidos no século passado. Não temos como mudar isso. Eu a percebo como um desenvolvimento da humanidade. A ciência é uma criação humana que não depende de crenças, nossa vontade, de nossa consciência. Ela sim tem um compromisso inequívoco com a realidade física que nos cerca. O resto é política, ou como a sociedade se organiza e distribui as benesses econômicas advindas das aplicações da ciência. Os sucessos e fracassos desse complicado sistema econômico não podem ser creditados ao método científico ou ao fazer ciência.

Um excelente exemplo do quanto misturar posições políticas e pseudociência pode ter consequências catastróficas ocorreu no final dos anos 1990 e 2000 na África do Sul. O então presidente Thabo Mbeki tinha todas as razões do mundo para desconfiar do conhecimento científico ocidental. Ele caiu na conversa fácil de pseudocientistas que negavam a conexão entre HIV e AIDS e combatiam a big pharma. Mbeki não aceitou o uso de anti retro virais, mesmo doados e seguindo as recomendações de seus assessores pseudocientistas fomentou o uso de vitaminas para conter a epidemia. Estima-se que 300 mil pessoas morreram.

Sem dúvida estamos errando por não conseguirmos fazer com que as pessoas percebam que vivem mais e melhor hoje devido ao conhecimento científico. Mas certamente o caminho não é buscarmos nos aproximar do público travestindo esse conhecimento para reforçar suas crenças. Ativismo quântico coisa nenhuma!!!
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