segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Guerra Homeopática no Jornal da USP


Para que serve o jornal de uma universidade? Essa pergunta parece simples mas a resposta pode não ser muito óbvia. No Brasil praticamente todas universidades têm um jornal, que em geral é dedicado a promover o que a administração da universidade considera importante em suas atividades. Em alguns casos eles buscam traduzir em linguagem mais simples descobertas científicas importantes da universidade, e assim tornam-se importantes veículos de divulgação científica. Jornais de universidades importantes são também o locus de debates relevantes além da academia. Mas como o pano de fundo em geral é a ciência, os jornais de universidades respeitadas acabam emprestando prestígio e respeitabilidade aos assuntos que neles são discutidos.
Não foi por outro motivo que em março de 2017 houve uma reação unânime da comunidade científica quando um professor Ciro Marcondes Filho, da ECA-USP publicou em sua coluna Ciência Feliz (juro que o nome é este!!!) um artigo requentando uma informação falsa e irresponsável feita pela obscura Organização Médicos em Cidades Pulverizadas (o nome já deveria ser um sinal de alerta) associando o larvicida pyriproxyfen com microcefalia. Para piorar, em lugar de reconhecer o erro (o que talvez arranharia seu ego) o Prof. Ciro saiu com uma explicação esfarrapada em relação ao papel da divulgação científica, como se ela devesse dar voz a qualquer ideia por mais esquisita e distanciada da realidade que fosse. Esse assunto foi muito bem abordado por meus colegas Roberto Takata e Carlos Orsi.
Parece que o Jornal da USP insiste em dar voz e validade acadêmica à pseudociência.  Em 19 de abril publicou o artigo Ensino de homeopatia veterinária é deficiente, afirma pesquisadora sobre a dissertação de mestrado de Clarice Vaz de Oliveira apresentada à FMVZ-USP. Na dissertação a autora constata que homeopatia quase não faz parte dos currículos de Medicina Veterinária, o que ela considera injusto e resultado de uma disputa de poder. Eu e muitos outros cientistas temos uma opinião diferente. Até agora a dissertação não resultou em publicação em periódico especializado.
No dia 15 de maio o professor Beny Spira do ICB-USP reagiu com um artigo que teve o título forte, A Homeopatia é uma farsa criminosa mudado para A Homeopatia é uma farsa (o link continua com o nome original). O artigo do Prof. Spira é bastante didático ao mostrar como a homeopatia não tem efeito maior que o placebo, com 3 referências, entre elas o clássico editorial da Lancet em 2005 que sugere que paremos de destinar fundos a estudos sobre a homeopatia dada a total ausência de evidências de sua eficácia.
Em 19 de maio é publicado um artigo da lavra de Clarice Vaz de Oliveira, agora apresentada como "médica veterinária pela FMVZ e especializanda (sic) em Bioética na FMUSP", Uma resposta da homeopatia a Beny Spira,  com 7 referências (além de mais 4 não-hiperlinks). Entre outros argumentos, ela usa o artigo The Lancet e o proclamado fim da homeopatia: revisão crítica de publicação de Shang et al. (2005) e dos artigos relacionados subsequentes de José Eizayaga em contraponto ao editorial da Lancet e a meta-análise que o motivou. Ela não diz onde o artigo do Dr.  Eizayaga foi publicado. Uma busca na web revela que o artigo, em português, foi publicado na Revista de Homeopatia editada pela Associação Paulista de Homeopatia. Mostra também que o Dr. Eyzayaga é diretor do Departamento de Homeopatia da Universidad Maimónides, em Buenos Aires. Curiosamente ele usa seu endereço eletrônico no gmail em lugar de um endereço institucional. Clarice termina seu artigo afirmando que "A homeopatia tem provas dadas de sua capacidade de resistência, através da firme convicção de seus usuários e praticantes."
No mesmo dia 19 de maio foi publicado outro artigo O papel da água na homeopatia, de autoria de Alvaro Vannucci, docente aposentado do IFUSP. Nesse artigo o autor argumenta que a água tem memória, o que apoiaria a ultradiluição usada em homeopatia. Entre as 14 referências há um artigo baseado em uma tese de doutorado que ele orientou, em que os autores argumentam que diferenças na impedância de água que diluiu LiCl em 15C (ou seja, 10³⁰, além do número de Avogadro) e água de referência poderiam ser explicados por efeitos de memória. 
Em 22 de maio o Dr. Marcus Zulian Teixeira, homeopata que se apresenta como "coordenador da disciplina optativa Fundamentos da Homeopatia" da FM-USP contra-atacou com um artigo chamado Homeopatia e preconceito: ausência de evidências científicas ou negação das existentes?. Nesse artigo o Dr. Teixeira busca convencer o leitor de que a homeopatia é vítima de preconceito apesar de supostamente ter uma sólida base científica. Para apoiar suas afirmações o Dr. Zulian cita nada menos que 50 referências.
No dia 25 de maio o Prof. Spira rebateu as críticas do Dr. Teixeira em seu artigo Pós-verdade homeopática: Evidências científicas? Nem um pouco. Nele o Prof. Spira analisa uma por uma as 50 referências do Dr. Teixeira. Ele explica o que é a revisão por pares e porque 49 dos 50 artigos citados não deveriam ser tratados como evidência para nada. O único artigo que foi publicado em uma revista com padrões de qualidade minimamente aceitáveis foi alvo de crítica por outros pesquisadores que insinuam que um artigo com as falhas metodológicas que ele apresenta e que escaparam dos revisores não deveria ter sido aceito para publicação. A resposta, que por várias vezes agradece ao periódico por publicar um artigo sobre homeopatia, não reponde as principais críticas.

Eu gostaria primeiramente de comentar o artigo do Dr. Teixeira no Jornal da USP. Ele contém todos os ingredientes de um discurso pseudocientífico. Começa ameaçando o Dr. Spira com artigos do Código Penal e do Código de Ética. Esse tipo de atitude não é exatamente o que encontramos em discussões científicas, mas certamente tem apelo para o público em geral. Depois vem o argumento de autoridade: referência a vários conselhos profissionais que regulam a prática da homeopatia, como se decisões de conselhos profissionais alterassem os efeitos dessa ou daquela prática. Já discuti isso em Homeopatia mata.
A argumentação avança, eivada de referências a artigos (vários do próprio Dr. Teixeira) publicados em periódicos com pouco ou nenhum rigor editorial. Aqui é importante reforçar o que foi dito pelo Prof. Spira: Lancet tem muito mais respeitabilidade que a Revista de Homeopatia, justamente porque é muito rigorosa nas análises de artigos submetidos. Em lugar de tentar impressionar com 50 referências, bastaria uma única na Nature ou na Science, as mais respeitadas revistas científicas do mundo. Aliás, o célebre caso do artigo fraudado sobre a memória da água na Nature dá uma boa idéia do rigor com que homeopatas fazem suas pesquisas. Isso foi discutido em O Estudo Duplo Cego. Decorar seus textos com um grande número de referências é um expediente muito usado por pseudocientistas justamente porque cientistas costumam fazer referência a trabalhos anteriores. Dá um ar... científico. Pior, para parecer um cientista sério o Dr. Teixeira faz referência duas vezes à sua "tese de pós-doutorado". Como????? Vou repetir, porque foi isso que ele escreveu: "Tese de pós-doutorado". É verdade que aqui nas terras tupiniquins muita gente pensa que pós-doutorado é um título obtido após o doutorado. Não é. Pós-doutorado é uma posição precária, com contrato de tempo limitado, que muitos recém doutores (entre outros esse que vos escreve) assumem para fazer pesquisa enquanto não obtém uma posição permanente em alguma instituição. Não envolve tese, defesa, banca, diploma. Não confere título algum. Qualquer acadêmico sabe disso, mas obviamente a referência à tese de pós-doutorado impressiona, dá a entender a quem não conhece o universo acadêmico que o autor faz um trabalho além do doutorado. Mais relevante talvez.

No fundo, o que mais me preocupa nessa guerra são os seguintes aspectos:
  1. O que uma disciplina optativa de homeopatia está fazendo no currículo de uma das mais prestigiosas escolas de medicina do país? E ainda por cima coordenada por uma pessoa que não faz parte do quadro docente da faculdade? Desafio o leitor a encontrar alguma disciplina de homeopatia no currículo de Medicina de Harvard. Ou no da UCSF. Faculdades sérias não deveriam ter disciplinas voltadas para práticas sem base científica.
  2. Por que o Jornal da USP abre espaço para pseudociência? Quando isso acontece só quem ganha são os pseudocientistas, que emprestam o prestígio científico da instituição. Exatamente o mesmo espaço de reconhecimento acadêmico vem sendo buscado por outras pseudociências como Intelligent Design, Homeostase Quântica e Saúde Quântica.
Sempre admirei e respeitei pessoas que usam homeopatia como terapia (exceto em situações graves) porque acreditam nos efeitos dela. As pessoas têm o direito de acreditar no que querem e usar isso em suas próprias vidas. No entanto, parece-me muito inadequado homeopatas buscarem empurrar supostas evidências científicas que não existem para sua prática. Isso ofende os cientistas de verdade. Se os princípios da homeopatia tivessem conexão com a realidade tudo o que sabemos sobre Química e Física estaria errado. Homeopatia não é ciência. Homeopatia é uma farsa.

Upideite 1 29/05/2017. O Dr. Teixeira realmente pretende tomar "uma medida legal" contra o Prof. Spira!

Upideite 2 29/05/2017. A Associação Brasileira de Farmaceuticos Homeopatas divulgou uma nota de repúdio ao texto do Prof. Spira de 15/05/2017 no Jornal da USP,  por ele ter se expressado "de maneira inadequada e não cordial" além de "incorreções e uso de fundamentos científicos inadequados" ao tratar homeopatia como uma “farsa criminosa e pseudociência”. Eu concordo que talvez a palavra "criminosa" pode não ter sido a mais cordial. Ela foi retirada do título. Mesmo assim, recentemente na Itália um menino foi vítima dessa prática quando seus pais decidiram (não) tratar uma otite banal com homeopatia. Quanto a tratar a homeopatia como pseudociência e usar fundamentos científicos corretíssimos, só posso ser solidário ao Prof. Spira.

Upideite 3  29/05/2017. Certo como a água, o Dr. Teixeira não deixaria de responder ao Prof. Spira no Jornal da USP, agora com o pomposo título A verdade sobre as evidências científicas em homeopatia. Nada poderia estar mais longe da verdade. Não vou perder tempo aqui mencionando cada afirmação falsa, mas basta a referência feita por ele à suposta memória da água. Nenhum cientista sério leva isso a sério porque simplesmente contradiz tudo o que sabemos sobre a estrutura molecular da água. Claro que ele ainda vai argumentar que Brian Josephson e Luc Montaigner acreditam nisso. No entanto, a única conclusão que se pode chegar é que um prêmio Nobel não equivale a  um atestado de sanidade mental. A referência que ele cita para a memória da água é nada menos que um volume especial da infame revista pseudocientífica Homeopathy sobre o assunto. Essa revista não é levada a sério por cientistas: trata-se de longe da revista mais autoreferenciada de todas da Elsevier. Mais de 70% das citações a seus artigos vêm de artigos publicados na própria revista. Seu parâmetro de impacto em 2014 foi 0,78, um valor tão baixo que combinado com a alta taxa de autocitação fez com que a Thomson-Reuters excluísse a revista de sua indexação InCites em 2015. Basear sua argumentação em referências de padrão acadêmico tão lamentável faz parte da encenação pseudocientífica. Eles contam com a ignorância dos leitores do Jornal da USP em relação à diferença entre revistas sérias e repositórios de bobagens.

Upideite 4 01/05/2017. O Prof. emérito do IQ-USP Hernán Chaimovich entrou na guerra com seu artigo Car@s colegas.... Apesar de eu sentir um certo mal estar quando vejo a arroba invadir a grafia de palavras na língua mátria, vale a pena comentar aqui. Ele se refere a consensos em ciência, dado que é assim que a ciência avança, e de forma muito educada sugere que o comportamento dos que creem em homeopatia é quase religioso. Ele tem razão.

 Upideite 5 02/05/2017. O prof. Chaimovich aparentemente também não gosta das arrobas. O título de seu texto mudou para "Ciência e suas controvérsias". Meio estranha essa prática do Jornal da USP de eles mesmos inventarem títulos para artigos escritos por pesquisadores da casa.

Um comentário:

Unknown disse...

Muito bom, Tessler, como sempre!
Hamilton Varela

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